Ageísmo, o mal do século: repercussões psicológicas

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Estudos associam o ageísmo com uma maior presença de ansiedade e ideias suicidas, além de baixa autoestima e sensação de vazio existencial na população mais velha que é discriminada.


Recentemente publicamos uma matéria (A vida dos idosos importa” é tema de campanha contra o ageísmo) sobre uma campanha contra os preconceitos à idade que está rolando em países europeus, que podem ser observados nos três vídeos que acompanham a matéria. Ou seja, o continente que mais tem velhos no mundo está alertando todos os demais sobre esse terrível mal do século, ou seja, a discriminação por idade. Se o envelhecimento populacional é uma conquista da civilização, por que essa aquisição se torna um preconceito se a outra alternativa existente ao processo do envelhecimento é a morte?

A Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 1999, já chamava a atenção quando do Ano Internacional das Pessoas Idosas. Em 2016, apontou que o preconceito de idade, em nível mundial, era um dos maiores problemas em termos de discriminação. A discriminação por idade, também chamada como ageísmo ou idadismo, desde 1969, se refere à discriminação sofrida por uma pessoa devido à sua idade avançada. O termo foi batizado por Robert Neil Butler, médico, gerontologista e psiquiatra norte-americano.

José María Manzano Callejo, em uma matéria escrita para o jornal online nuevatribuna, da Espanha, assinala que em todas as sociedades ocidentais, devido às altas taxas de sobrevivência, esse mal de nosso tempo é observado cada vez com mais frequência: nos fóruns especializados de trabalho a idade superior a 45 anos aparece por todos como principal causa de discriminação trabalhista, acima de origem ou gênero. No Brasil, uma matéria publicada no final de 2017 já apontava que “Para mais de 90%, existe preconceito contra idosos no Brasil”.

Como chegamos a essa perda de sensibilidade social?

Essa é a pergunta que ele faz e nós endossamos. A resposta não é difícil, e dá para imaginar que o neoliberalismo tirou de cena os mais velhos como narradores de saberes e em seus lugares colocou a tecnologia, campo de saber das gerações mais novas, além de responsabilizar o indivíduo por seu envelhecer, como uma empreitada de si. Na matéria brasileira que aponta o preconceito, Marcos Castrioto de Azambuja, que foi embaixador do Brasil na França e na Argentina, Secretário-Geral do Itamaraty, Coordenador da Conferência Rio 92 e Chefe da Delegação do Brasil para Assuntos de Desarmamento e Direitos Humanos, em Genebra, apontava como causas:

“1) Antigamente, a velhice era uma raridade, tinha certo valor por escassez. Com o número de idosos crescendo cada vez mais, há perda de prestígio:
2) Pela primeira vez, não são os velhos que ensinam aos moços. Em ciência, tecnologia, informática, ferramentas do nosso tempo, o velho é por definição menos competente. Perdeu status;
3) Pela longevidade, os velhos pressionaram o sistema previdenciário, bancado pelos mais novos. Em vez de raridade a ser preservada, a velhice é apenas um peso, um fardo, sem a antiga compensação de ser também repositório de experiência.”

José María Manzano Callejo, em sua reportagem sobre o ageísmo na Espanha, corrobora a desvalorização da maturidade na sociedade ocidental por conta da tecnologia, a qual consiste em menor capacidade produtiva pelos mais velhos devido à maior dificuldade em aprender novas tecnologias, sendo necessário uma reciclagem mais cara para a empresa, mais salário em suplementos e outros conceitos, maior possibilidade de afastamento por doença, mais dificuldade nas relações de trabalho intergeracionais com os jovens da sua empresa e uma tendência maior a perder o tempo na espera da aposentadoria; que é tida como um tempo de decadência.

Por isso que na maioria dos países, como na Espanha e Brasil, ter mais de 45 anos é uma desvantagem laboral que pesa sobre o emprego dos desempregados de longa duração e, por conseguinte, sobre a sua exclusão social. Mas tanto na Espanha quanto no Brasil este fato é totalmente inconstitucional, uma vez que as Cartas Magnas dizem que somos iguais perante a lei e ninguém pode ser discriminado.

Esse fenômeno sociológico do preconceito de idade tem repercussões na psique da pessoa afetada, escreve José María Manzano Callejo. Segundo ele há uma série de estereótipos negativos ligados à idade madura, como identificar a idade cronológica com grande comprometimento cognitivo, inúmeras doenças físicas, maior comprometimento mental, etc. Segundo ele, um estudo recente revela que pessoas maduras que sentiram o efeito da discriminação tinham duas vezes mais chances de sofrer de depressão do que aquelas que não tinham, uma porcentagem que aumenta dependendo da identidade sexual, dobrando no número de pessoas gays mais velhas que sofreram de preconceito de idade.

Segundo José María Manzano Callejo, foram encontrados altos níveis de sofrimento psíquico, entendidos como um conjunto de variáveis: baixa autoestima, moderados níveis de ansiedade e sensação de vazio existencial nesta população madura com elevados níveis de discriminação etária. Outros estudos associam o preconceito de idade com uma maior presença de ansiedade e ideias suicidas.

Como o ageísmo também está dentro de nós, os mais velhos, precisamos urgentemente combater os autopreconceitos que temos ainda em relação às nossas idades, assumindo-as com orgulho, sem vergonha, a fim de mostrar aos mais jovens que há um mundo a ser vivido e experienciado além da tecnologia, como bem está mostrando a pandemia.

Foto destaque de Karolina Grabowska no Pexels

Atualização em 08/10/2020 às 13h27


Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. CEO do Portal do Envelhecimento, Portal Edições e Espaço Longeviver. Integrou o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC até 2018. Integra a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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