Ageísmo e a prática do profissional da Psicologia

Tempo de Leitura: 6 minutos

A cartilha é um convite à categoria para juntar-se ao movimento de combate ao preconceito etário (ageísmo) e a repensar as práticas nos diversos campos de atuação.

Dóris Firmino Rabelo, Julianin Araujo Santos, Katia Jane Chaves Bernardo e Ana Caroline Moura Cabral (*)


O envelhecimento da população brasileira continua crescendo em número, diversidade e necessidades de efetivação de direitos, de políticas públicas em geral, de saúde mental, e de revisão de crenças, estereótipos e preconceitos em relação ao envelhecimento e à velhice. O preconceito de idade permeia instituições e setores da sociedade, incluindo aqueles da saúde e assistência social. No dia 1º. de outubro comemora-se o Dia da/o Idosa/o, marcando o momento em que a Lei N°10.741 (Estatuto do Idoso) foi sancionada. A data é fundamental para reforçar a importância da atenção a esse público e para reavaliarmos nossas atuações nas práticas psicológicas em relação às pessoas idosas e à velhice.

O Grupo de Trabalho Psicologia, Envelhecimento e Velhice (GTPEV), vinculado à Comissão de Saúde do CRP-03 tem desenvolvido ações que dialogam com a necessidade de as/os psicólogas/os pensarem em novas formas de atuação junto à pessoa idosa. Em outubro de 2021, as atividades do GTPEV foram articuladas a partir das informações do Relatório Técnico “Levantamento de dúvidas e dificuldades da/o psicóloga/o no atendimento às pessoas idosas no estado da Bahia”, publicado no site do Conselho. Esse relatório é um documento que busca colaborar na identificação de demandas no cotidiano do trabalho com pessoas idosas e informações relevantes para orientação, normativas, resoluções, educação e treinamento.

O relatório demonstrou a necessidade de construção de materiais que possam orientar a categoria profissional no âmbito do trabalho com pessoas idosas e sobre as perspectivas de uma prática crítica. Esta cartilha surge nesse cenário, tratando-se de uma das ações do GTPEV em outubro de 2021.

Esta cartilha também dialoga com diversas deliberações do 10º Congresso Nacional da Psicologia e é coerente com a definição da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) que declarou 2021-2030 como a Década do Envelhecimento Saudável cuja implementação será liderada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O plano internacional tem como uma das ações estratégicas mudar a forma como pensamos, sentimos e agimos com relação à idade e ao envelhecimento. Nesse sentido, em 2021, a ONU divulgou o Relatório Global sobre Ageísmo e a Campanha Global da ONU de combate ao ageísmo.

Segundo o Relatório Global sobre Ageísmo, o preconceito de idade reduz a qualidade de vida de pessoas idosas, está associado a uma expectativa de vida mais curta, pior saúde física e mental, recuperação mais lenta de eventos de saúde, aumenta o isolamento social e a solidão, e pode aumentar o risco de violência e abuso contra pessoas mais velhas. Pode, ainda, contribuir para a pobreza e a insegurança financeira na velhice.

Importante ressaltar que o preconceito de idade se baseia em uma visão do processo de envelhecimento e da velhice construída histórica e socialmente em um contexto de industrialização, no qual o tempo foi organizado e a vida dos seres humanos passou a ser compreendida como um processo construído em etapas: infância, adolescência, adultez e velhice. Sendo que a última etapa, em geral, é considerada como: saída do mundo do trabalho; anúncio da proximidade da morte; declínio físico, cognitivo e social; adoecimento; uma etapa de perdas; problema e peso social. Nessa visão, a/o velha/o passa a ser vista/o como alguém que deixou de ser adulta/o e jovem, pois a juventude está no centro do sistema capitalista como o ideal de produtividade.

Essa compreensão reducionista e estigmatizadora da velhice atrelada à ideia de que “envelhecer é adoecer” está impregnada na estrutura social, ideológica e política, assim como na mente das pessoas, de modo que serve como base e parâmetro para todas as ações que concernem às pessoas que estão envelhecendo e, sobretudo, às pessoas idosas. Nesse sentido, é importante destacar que o preconceito de idade é um problema de saúde pública e um importante determinante social da saúde que foi negligenciado por muito tempo. É uma questão de desenvolvimento e direitos humanos, pois tem consequências sobre a saúde física, mental e social das pessoas idosas.

O atual contexto da pandemia causada pela COVID-19 impactou a vida das pessoas idosas no mundo todo, escancarou e amplificou o ageísmo de toda a sociedade e evidenciou como esse tipo de preconceito é onipresente, naturalizado, não reconhecido, não desafiado e não combatido. Ao longo da vida, o preconceito de idade interage com o sexismo e o racismo, gerando ainda maiores desigualdades. É preciso aumentar a conscientização social sobre os efeitos prejudiciais do ageísmo e de que podemos e devemos desafiá-lo e preveni-lo.

No que concerne à Psicologia como ciência e profissão vale ressaltar que também está impregnada dessa visão reducionista do processo de envelhecimento e da velhice. É possível perceber que as/os psicólogas/os nem sempre estão adequadamente habilitadas/os para trabalhar com pessoas idosas, o que repercute em poucas intervenções para as atividades ampliadas, poucas habilidades clínicas, dificuldade no diagnóstico e tratamento do sofrimento mental dessas pessoas, em atitudes negativas em relação à população idosa e em menor disposição a trabalhar com ela. A ausência de reflexões e debates sobre o ageísmo, o processo de envelhecimento e a velhice refletem em práticas profissionais inadequadas nos diversos âmbitos psi promovendo a proliferação/ manutenção da estigmatização e violência contra as pessoas idosas em lugar de promover saúde mental.

Mesmo para aquelas/es que atualmente não trabalham com pessoas idosas ou que não desejam trabalhar com essa população no futuro, é importante se dar conta que atuam com pessoas de outras idades como crianças, adolescentes e adultos jovens, mas que estão envelhecendo também, uma vez que envelhecer é um processo que se dá ao longo da vida.

Modificar como pensamos, sentimos e agimos em relação à idade e ao envelhecimento é parte da mudança necessária, pois pode trazer benefícios para indivíduos e sociedades.

Além disso, é de responsabilidade ética, conforme os princípios fundamentais que direcionam os fazeres das/dos profissionais de Psicologia, “trabalhar visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuir para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

É crucial que psicólogas/os repensem práticas e colaborem com a (ou para a) construção de um movimento para mudar a narrativa em torno da idade e do envelhecimento. Todos nós temos um papel a cumprir nesse cenário, uma vez que estamos todas/os envelhecendo.

O GT Psicologia, Envelhecimento e Velhice foi constituído dentro do movimento de psicólogas/ pesquisadoras que buscam rever e superar, especialmente dentro do campo psi, a compreensão reducionista acerca do processo de envelhecimento e da velhice. Esse movimento na Bahia, ainda que recente, vem crescendo nos últimos anos, de modo que essa cartilha é um reflexo dessa busca.

O CRP-03 assumiu o compromisso de apoiar uma agenda de combate ao ageísmo e colaborar com a construção de ações que aumentem a compreensão sobre o que é o preconceito de idade e por que todas/os nós devemos trabalhar para desafiá-lo.

Essa cartilha é um convite à categoria para juntar-se ao movimento de combate ao preconceito etário e a repensar as práticas nos diversos campos de atuação.

Serviço
Conselho Regional de Psicologia 3ª Região Bahia (CRP-03). Comissão de Saúde. GT Psicologia, Envelhecimento e Velhice. Ageísmo e a prática profissional da/o psicóloga/o/ Conselho Regional de Psicologia 3ª Região Bahia (CRP-03)/ Comissão de Saúde. GT Psicologia, Envelhecimento e Velhice. Salvador -Ba: CRP-Ba, 2021.
Link da cartilha no CRP/3a. Região-BA: https://crp03.org.br/wp-content/uploads/2021/12/ageismo-ed.7-1.pdf
Link para a cartilha no Portal Edições:
https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/cartilha-ageismo-e-a-pratica-profissional-da-o-psicologo/

(*) Dóris Firmino Rabelo, Julianin Araujo Santos, Katia Jane Chaves Bernardo e Ana Caroline Moura Cabral elaboraram a cartilha. Fazem parte do Conselho Regional de Psicologia da Bahia – Comissão de Saúde – GT Psicologia, Envelhecimento e Velhice.

Foto destaque de Şahin Sezer Dinçer/Pexels


https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/psicologiadoenvelhecimento/

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Redação Portal do Envelhecimento

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