Adultos remodelam a casa de sua infância

Está acontecendo com mais frequência, conforme as populações envelhecem e a economia dos EUA continua mal: mudar-se para a casa onde você foi criado, e tentar fazer com que ela seja sua.

Hilary Stout

Em alguns casos, o arranjo permite que a geração mais velha encontre rapidamente um comprador confiável para um imóvel que precisa ser vendido. Mas a transição pode ser complicada. Quando você reforma a casa da sua família, mexe com lembranças. “Velhas questões da infância serão agitadas -esteja preparado”, advertiu a terapeuta familiar Gail Thoen. “Consciente ou inconscientemente, você foi criado naquela casa. Sigmund Freud simplesmente adoraria analisar isso.”

Amy Goyer, 49, é a “especialista familiar” da AARP, uma organização americana para aposentados. Mas sua experiência profissional de pouco serviu para prepará-la para as emoções que vieram à tona quando ela assumiu o imóvel dos pais, para que eles pudessem se mudar para uma casa de repouso.
“O ato de me mudar do meu quartinho, que era o quarto de hóspedes, para o quarto dos meus pais foi realmente duro”, disse ela. “É estranho. Há um certo elemento de sentimento de culpa. Não culpa porque eu tenha feito algo errado, mas meio que a culpa do sobrevivente.

“A designer têxtil Carla Weisberg, 47, cresceu num apartamento do Greenwich Village (Nova York) que seus pais compraram em 1960. Há seis anos, depois que sua mãe morreu repentinamente, ela voltou para o lugar onde costumava construir castelos e brincar de esconde-esconde, enquanto o pai, com a saúde abalada, se instalou na unidade do térreo. Para transformar a casa dos pais num lar para si e o marido, ela tinha um plano: manter em cada cômodo pelo menos uma ou duas coisas que pertenceram aos seus pais, por respeito.

Mas também haveria mudanças estruturais e estéticas, “para deixar o lugar mais nosso”. Quando o pai dela, um homem afável, apareceu para dar uma olhada nas obras, ele disse: “Bom, vocês arruinaram isto aqui”.

Uma das coisas que mais o chatearam foi a retirada dos azulejos azuis e dourados com leões, que estavam em torno da lareira. Ele e sua mulher haviam comprado as peças numa viagem a Espanha e Marrocos, antes de Carla nascer. A nova ocupante e o marido preferiram deixar a lareira branca, sem azulejos. Weisberg disse que entendeu a reação do pai, especialmente porque ele estava num estágio inicial de demência senil. “Meu pai estava experimentando todos os tipos de perda da sua autonomia”, contou ela. “Tentei não levar para o lado pessoal.”

Hoje o apartamento mistura os tecidos e papéis de paredes de Weisberg com alguns dos itens prezados pelos pais dela. No andar de cima, no entanto, o dormitório principal está quase irreconhecível -e intencionalmente. “É um pouco estranho dormir onde os seus pais costumavam dormir, mas mudamos o espaço o suficiente para que parecesse novo.” Quanto aos azulejos da lareira, o pai dela guardou alguns, e um amigo fez com eles uma mesinha de canto, para que o homem mantivesse uma lembrança do velho apartamento. Para Linda Harvey, era essencial transformar a casa dos pais em Evanston, Illinois, tanto por dentro como por fora.

Os pais dela compraram a casa em 1973, quando Linda estava no primeiro ano do primário. Com o tempo, a universidade e a vida adulta a levaram para longe. Ela se casou e, por razões profissionais, acabou se mudando com o marido de volta para a região.

Logo depois, a mãe de Harvey recebeu um diagnóstico de câncer de mama, e ficou claro que aquela casa estava grande demais para os pais dela manterem. Harvey conversou com o marido. É uma casa maravilhosa, ela se lembra de ter dito. Você já gosta da vizinhança e da comunidade. Por que não a compramos nós mesmos?
Compraram, mas decidiram “fazer algumas coisas imediatamente, para torná-la a nossa própria casa”, disse Harvey -a começar por alterar a fachada. “Quando chego de carro à casa, preciso ter algo visualmente que me diga que não é a mesma casa”, disse Harvey, 43. Houve mais mudanças no interior. Um piso de pedra virou madeira, e a parede que dividia a cozinha e a copa foi demolida. O pai dela, o médico aposentado Monte Levinson, se lembra de ter ficado chocado. Mas já mudou de ideia. “Quer saber? Isso provou ser a coisa certa para a jovem família deles.”

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Fonte: Folha de S.Paulo – The New York Times, 12/07/2010. Acesse Aqui

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