Acertando o passo… Por que não?

Casada há 40 anos, Sandra Abbott descobre em “Acertando o passo” que está sendo traída pelo marido com sua melhor amiga. Decidida a dar a volta por cima, passa a frequentar as aulas de dança comunitária junto da irmã e, com os novos amigos que acaba fazendo, injeta um novo sopro de diversão e romance em sua vida.

 

O que você acha da frase “sempre é tempo de recomeçar”? Bem, se logo de cara você torceu o nariz ou está um pouquinho descrente com o gênero humano ou, em última hipótese, até de mal com a vida, alegre-se, pois chegou uma turma que nos diz exatamente o contrário. A quem ou a que me refiro? Paciência… Se as telas do cinema insistem em trazer essa tal “nova chance”, talvez seja porque elas realmente existam, não apenas na ficção, mas na vida de todos nós.

O filme “Acertando o Passo”, direção de Richard Loncraine, fala um pouco disso, de recomeços, tentativas, tropeções, frustrações e, ainda, de possibilidades, nem sempre fáceis, mas reais. E não pense em uma protagonista e em um elenco jovenzinho, sarado, pele lisinha sem as marcas da idade ou as manias adquiridas com o passar dos anos. Definitivamente “n, a, o til”: NÃO! – como dizíamos quando crianças – a experiência será muito melhor.

Sandra é nossa heroína: a excelente atriz Imelda Staunton. Você lembrará dela como a dissimulada Dolores Umbridge, da saga “Harry Potter” ou pela sua atuação magistral e comovente no profundo “O Segredo de Vera Drake” de 2004, que lhe rendeu o Bafta e o troféu do Festival de Veneza.

No filme, sessão do Itaú Viver Mais Cinema do mês de maio – Sandra é uma mulher da alta classe londrina que, no dia em que é elevada a condição de Lady pelos serviços prestados pelo marido à sociedade, descobre a traição deste com sua melhor amiga. Claro que, daí em diante, a indignação do público feminino só aumenta com a identificação e consequência, quase imediata, de que todos os homens são seres infiéis contumazes, até aqueles que bem já passaram dos 60 e poucos anos de idade.

Devo dizer que julgamentos como esse nada agregam ao nosso pensar. Das duas partes, entendo que, a princípio, temos os amargos e não reconhecidos fifty / fifty. É sempre muito mais fácil, atribuir a culpa do fracasso ao outro. Filosofias a parte, no caso de Sandra, tenho que admitir: esse marido (me desculpem a palavra) é mesmo um grande canalha!

Desesperada com o inimaginável, a mais do que certa separação, essa boa e fiel esposa sai de casa e vai morar com a irmã (Celia Imrie, de “O Exótico Hotel Marigold” de 2011) – seu mais legítimo oposto.

Elizabeth ou Bif, essa excêntrica figura que, apenas por acaso da vida, tem o mesmo sangue de Sandra é, para nossa surpresa, uma pessoa deliciosa: leve, doce, sentimental, divertida e, ainda, dedicada às questões dos amigos fiéis e parceiros de todas as horas.

Sandra e Bif representam o encontro das diferenças no difícil convívio, mulheres que seguem seus caminhos lutando contra as impossibilidades e, ao mesmo tempo, amando as mínimas oportunidades de recomeços – nem sempre triviais para os mais velhos.

Sim, os críticos dirão que “Acertando o passo” é repleto de clichês, mas por que não? Talvez seja na simplicidade do comum que esteja o segredo de ver a vida de um jeito diferente. Sabe aquele balde de pipoca que sempre nos faz tão feliz? Eu diria: melhor que muito “5 estrelas” que encontramos por aí.

E a incrível irmã Bif tem um mundo de situações e pessoas para apresentar a, até então, amarga e ressentida Sandra. É o lúdico, representado pela dança de salão, que passa a fazer parte do universo da mulher abandonada.

É como se a heroína se perguntasse silenciosamente: em que momento da vida me perdi de mim mesma? Em que fase abandonei meus desejos, meus projetos de vida? Sim, nas respostas, fica um restinho bem triste, já que tempo não volta, mas guarde isso em seu coração: tempo sempre segue adiante e, lá na frente ou aqui do lado, tem alguém ou alguma coisa muito boa que te espera. Eu acredito!

Ah, mas imaginem, eu esquecendo do encantador Charlie (Timothy Spall). Esse super amigo de Bif será aquela luzinha no fundo do túnel de Sandra. Um tanto bronco, um tanto desajeitado, um tanto sofrido – meio aos trancos e barrancos – esse homem trará a perspectiva do amor à vida desta atual mulher como à sua própria vida após perder sua mulher para a Doença de Alzheimer. Parece que a cortina se abre, e muitos raios de sol invadem a “casa”.

Se para você isso é mais um clichê, então, talvez, você não conheça os milagres operados quando estamos profundamente apaixonados, “amorosos” por alguém.

Sim, mesmo que o desfecho dessa história seja claramente previsível, o que importa mesmo é a jornada da heroína, os afetos do grupo de amigos, o salto de fé diante do imprevisível, das surpresas inerentes a toda nova vida que se inicia, como bem pontuaram as pessoas da plateia ali presentes durante o debate ocorrido após o filme.

Fotos da plateia: Rodrigo Gueiros

 

 

 

 

 

 

 

 

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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