Aceitar o Alzheimer na nossa vida é difícil, mas negá-lo é pior

Tempo de Leitura: 8 minutos

Embarcar no Bonde do Alemão é viver a vida. A aceitação fará toda a diferença, especialmente para o cuidador familiar, o que está em contato direto. É o que vai preservar a família de todo tipo de doença. É este debate que faço no livro O Alemão Pegou o Bonde.

Por Rosana Leal (*)


Aprendi que o Alemão quando entra na nossa casa, invade nossa vida, não adianta chorar, espernear, esbravejar porque o danado vem pra ficar. O melhor é aceitar para conviver em paz. Mas é difícil baixar a guarda e abraçar o invasor como se estivesse tudo bem. Não está. O Alemão chega devagarinho mas não se engane, ele vai se assenhorar da casa, vai dar as cartas e sua reação diante da presença dele será fundamental. Negação, raiva/revolta, negociação/conciliação, baixo astral/depressão e aceitação são as fases do luto de acordo com a psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross. Com o Alemão dentro de casa, ninguém precisa morrer para que os familiares encarem as mesmas fases. Não é todo mundo que consegue dar cabo de todas. Algumas pessoas empacam na negação. Perdem um tempão no não, não, não, até correr atrás de um diagnóstico, foi meu caso.

― Dr., Mamy anda impossível, esquece panela no fogo, torneira aberta, não toma os remédios, só não esquece o Faustão, por isso acho que faz de propósito. Aos domingos, deixa a cama com o controle da TV na mão. Não sei mais o que fazer. Estou enlouquecendo.

O geriatra a entrevista e aplica um teste. Com base na Classificação Internacional de Doença – CID –, dá o diagnóstico: Transtorno Neurocognitivo Leve ou Maior de acordo com os resultados.

― Ufa, doutor, que alívio. Então a recomendação é a aplicação de exercícios cognitivos. Deixa comigo. Vou passar na banca agora mesmo e comprar todas as palavras cruzadas que encontrar.

O médico se esquiva de usar a palavra Alzheimer e nos ajuda a negar mais um pouquinho. Ele não está errado em seguir o CID, afinal, existem mais de 60 tipos de demência, porém, em 80% dos casos é o famigerado Alemão que vem nos visitar. O quanto antes reconhecermos a presença do Alemão, melhor para todos.

Outras famílias se lacram na raiva, na revolta, vão chorar às pitangas até diluir o ódio em lágrimas. Quando isso acontece, apegam-se à fé e gastam as reservas de energia e muitas vezes seu parco dinheiro em negociatas com representantes de seitas milagrosas. Mas não existe milagre, macumba ou feitiço que espante o Alemão. Espero que um dia a Ciência dê um jeito, mas por enquanto ele entra e não vai embora mais.

Muitas famílias, superada a fase de negociação, resolvem conviver com o Alemão da pior forma possível, ignorando suas demandas, fingindo-se de mortas. Decretam não poder fazer nada e cruzam os braços. Sofrem mil vezes mais do que a hospedeira, pois quem abraça o Alemão segue no bem bom, a desfazer o tricô das memórias enquanto beberica seu cafezinho.

É difícil alcançar a fase da aceitação, reconheço. Para alcançá-la é preciso muito esforço físico e mental. Força e coragem para atravessar o Rubicão(1), mas é o único caminho, única opção para quem deseja manter a saúde mental e física em dia. A sua e a da família. Vale a pena o esforço.

Embarcar no Bonde do Alemão é viver a vida. A aceitação fará toda a diferença, especialmente para o cuidador familiar, o que está em contato direto. É o que vai preservar a família de todo tipo de doença. É este debate que faço no livro O Alemão Pegou o Bonde.

No meu livro anterior, O Alemão Veio nos Visitar, conto como enfrentei cada uma dessas fases. Não foi fácil, mas atravessei o Rubicão e alcancei a aceitação. Isto garantiu minha sanidade mental, física e espiritual e trouxe junto um enorme sentimento de gratidão. Agradeço a Deus todos os dias por ter me dado a oportunidade de retribuir a minha mãe o cuidado e o amor que me deu durante seus anos de lucidez. Isto é transformador, melhor, transforma a dor. As batalhas diárias passam a ter um porquê; o fardo se torna mais leve; o amor se fortalece e de repente você encontra uma força que não existia, paciência que desconhecia e resistência para lutar mesmo sabendo que a vitória muitas vezes se resume a mais um dia com aquela pessoa querida ao seu lado, mas é vitória, sim.

No meu livro anterior, O Alemão Veio nos Visitar, conto como enfrentei cada uma dessas fases. Não foi fácil, mas atravessei o Rubicão e alcancei a aceitação. Isto garantiu minha sanidade mental, física e espiritual e trouxe junto um enorme sentimento de gratidão. Agradeço a Deus todos os dias por ter me dado a oportunidade de retribuir a minha mãe o cuidado e o amor que me deu durante seus anos de lucidez. Isto é transformador, melhor, transforma a dor. As batalhas diárias passam a ter um porquê; o fardo se torna mais leve; o amor se fortalece e de repente você encontra uma força que não existia, paciência que desconhecia e resistência para lutar mesmo sabendo que a vitória muitas vezes se resume a mais um dia com aquela pessoa querida ao seu lado, mas é vitória, sim.

Mamy está com 91 anos e hospeda o Alemão há mais de 18. O Alemão queria levá-la embora rapidinho, mas quebrou a cara. Mamy continua conosco. Sem a autonomia e a independência de outros tempos, claro, mas ainda conseguimos entender seus desejos e desconfortos, ou seja, aos trancos e barrancos nos comunicamos até na língua do Alemão.

Tudo isto registrei no livro O Alemão Veio nos Visitar. A ideia, por meio da minha narrativa, era tocar outras pessoas, incentivá-las, mostrar que mesmo com o Alemão presente existe vida e não devemos abrir mão da felicidade. O livro alcançou leitores em todo o Brasil, criei uma conta no Instagram e reativei a conta do Facebook, pois a história de Mamy, d. Detinha, ganhou visibilidade e muita gente nos descobriu no nosso mundinho em Salvador, Bahia, e isto nos deu mais força ainda.

Alguns amigos próximos não conheciam minha história familiar. Ao descobrirem, por meio do livro, minha batalha diária, incluíram nas nossas conversas preocupações outras em tom solidário:

― Como está Mamy?

― E d. Detinha, como vai, tudo bem?

Recados carinhosos para Mamy se tornaram frequentes:

― Beijos na d. Detinha.

― Diga que mandei um abraço.

Gente de todo canto, nesses tempos modernosos, tornaram-se amigas e amigos virtuais meus e d. Detinha, são os misteriosos habitantes das redes sociais, pessoas em forma de bits com as quais, também na bit forma, já não sei viver, confesso. Descobriram o livro, conheceram nossa história e nos encontraram nas nuvens para compartilhar afetos. Afetos sempre são e serão bem-vindos, ainda mais em tempos de convid19:

― Estou ansioso por notícias de Mamy, tem alguma história nova de d. Detinha  para compartilhar?

― O que Mamy anda aprontando? Continua frequentando a hidro?

Botar no papel o primeiro livro foi uma necessidade. Precisava muito, pois, como um grito preso na garganta, a narrativa pedia passagem: consegui, aceitei, tem um Alemão na minha casa vivendo com mainha.

A experiência de galgar fases não foi tarefa fácil. Não escrevi pura e simplesmente como quem gasta tinta, papel e ideias, foi escrita terapêutica, curativa. Psicoterapêutica, talvez, pois muita coisa que brotou da escrita foi parar na mesa da minha analista. Pauleira. Lágrimas rolaram. Cachoeiras.

O Alemão não me engana mais. Nossa conversa hoje é olho no olho. Quer ficar, fica, mas a mãe é minha. Porque, meus caros, se a hospedeira ficar por conta, nas mãos do Alemão, o teuto fará gato-sapato dela e, de quebra, picadinho com o resto da família.

Com o primeiro livro compartilhei minha luta para atravessar o Rubicão. Neguei, briguei, discuti com Deus, chorei, fiquei deprê, mas Ele é maior e pacientemente me mostrou que a vida, apesar dos pesares, continua linda como na canção de Gonzaguinha: é bonita, é bonita e é bonita.

― E o segundo livro? A que veio? Precisava?

Descobriremos juntos. Como Mercúrio, este livro quer primeiro fazer um anúncio:

― Pessoal, sinto-me na obrigação de dizer que Mamy está direitinha. Muito obrigada. Obrigada, mesmo. Mamy está presente e o Alemão também. E o teuto já avisou, só vai embora com ela. Ah, mas isso vocês já sabem, né? Querem novidade? Então vamos em frente.

Apesar do quadro demencial, da doença evolutiva, incurável, as coisas andam bem, obrigada. Mas só contando em detalhes e mostrando imagens para vocês entenderem. Vamos com calma. Para começo de conversa, com a total aceitação da família, o Alemão deixou de ser um intruso há muito tempo, tornou-se companheiro, parceiro de jornada. Dessa forma, a continuação da nossa história ganhou um título que vem lá da minha infância. Desde criança ouvi a expressão pegou o bonde. Ironia, pois quando nasci os bondes já não circulavam pela cidade. A frase soava sem sentido. Que diacho de bonde é esse? Cadê o bonde? Com o tempo entendi que pegar o bonde significa se dar bem, estar numa boa.

Pois é. Lá em casa quem pegou o bonde foi o Alemão. Pegou, sim. Tá dentro. Partiu. Deixou de ser o visitante indesejado para se tornar companheiro de jornada, presente na nossa vida. Aos poucos colocou suas asinhas de fora. Passou a impor caminhos, ditar ritmos e nos faz percorrer roteiros inimagináveis. Brigar com ele por quê? Já que é assim, escute o que vou dizer, passe na bilheteria, pegue seu tíquete e embarque na nossa história. Vamos compartilhar conhecimentos porque atrás vem gente.

Nota
(1) A frase “atravessar o Rubicão” passou a ser usada para referir-se a qualquer pessoa que tome uma decisão arriscada de maneira irrevogável, sem volta, cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Rubicão

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(*) Rosana Leal é baiana de Salvador, graduada em Engenharia Civil, mestre em Análise Regional, especialista em Administração e em Engenharia de Segurança do Trabalho, professora universitária e empresária, autora do livro A Alavanca Quebrada: Aspectos da Construção Habitacional em Salvador – sob a ótica da administração de material e do livro que mudou a forma de se olhar o idoso com Alzheimer: O Alemão Veio nos Visitar – Acolhendo o Visitante Indesejado.  


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