A vida segue

Nina era uma velhinha tão velhinha que precisou partir. Sua morte foi uma poesia escrita com as rimas do coração, pois a vida segue.

                                                 

Os últimos acontecimentos deste verão roubaram o chão e tiraram o prumo. Imediatamente fui transportada para um passado vivo na memória e pulsante no coração.

O céu azul do inverno sempre gerou um encanto especial, principalmente em 2001 quando aqueles dias ganharam uma alegria que modificaria nossas vidas para sempre. Com 36 anos de idade, eu tinha toda a minha energia voltada para a família que eu constituía. Era mãezona e dedicava meus dias e meu olhar para os meus maiores e mais importantes projetos de vida. As férias eram de inverno e passávamos uma gostosa temporada na praia: eu, minha melhor amiga e nossos filhos. Eram 6 crianças entre 3 e 9 anos de idade que chamavam a atenção de todos que apreciavam aquela turminha fazer castelos e pedalar as bicicletas sustentadas pelas rodinhas laterais. Os dias eram felizes, mas meus filhos mal sabiam que o melhor ainda estava para acontecer.

Numa sexta-feira de julho de 2001, após ter arquitetado todo o plano, meu marido veio diretamente do trabalho nos encontrar trazendo o que seria, sem sombra de dúvidas, o melhor presente das nossas vidas.

Ao chegar, todas as 6 crianças foram ao seu encontro para vê-lo tirar de dentro do carro uma caixinha de papelão que aconchegava a pequena Nina de 3 meses de vida.

Quase 18 anos se passaram e eu tenho em minha memória a cena do meu filho do meio vendo a cachorrinha enquanto dizia que certamente aquilo deveria ser um sonho.

Sim! Ganhávamos da vida um sonho para ser vivido na sua potência máxima. E assim fizemos.

Obviamente a cachorrinha logo me escolheu como protetora, afinal ela precisava de um porto seguro para se esconder da bagunça ininterrupta das crianças. Com facilidade, ela passou a fazer parte das brincadeiras. Era a filhinha da minha filha de 4 anos que dizia: Vem com a mamãe.

Jogava bola com a turma e sempre amou brincar de pega-pega e correr atrás dos pássaros. Ela não era apenas uma cachorra. Ela sempre foi a mais pura expressão do amor. Foi uma excelente professora aos meus filhos que aprenderam com ela a importância dos afetos para a vida.

E, eu, que nunca soube amar mais ou menos, vivi com ela um amor imenso e marcante em minha vida. Alguns não compreendiam tanta loucura por um cachorro. Pobres humanos que não entendem o amor na sua mais verdadeira condição.

Nas Artes o pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973), conhecido por sua vitalidade e talento, amava animais.

Amor que foi registrado por seu amigo David Douglas Duncan, fotojornalista que registrou momentos históricos como a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã e que mais tarde lançaria um livro com belíssimas fotos de Picasso com seu companheiro Lump.

Picasso tinha o hábito de “pegar emprestado” cachorros de seus amigos sempre que se apaixonava por eles. Foi assim com Lump, um cachorro salsicha, da mesma raça que minha Nina, que não por um acaso era o cachorro de seu amigo fotógrafo.

A dupla havia sido convidada para passar uns dias na casa de veraneio de Picasso em Cannes. Era abril de 1957 quando a afinidade de Picasso pelo cachorro ficou tão evidente que o cachorro passou a viver com o artista.

Lump serviu de inspiração para diversos desenhos e sua relação com Picasso era intensa. Sem dúvida, uma bela história de amor refletida muitas vezes nos trabalhos de Picasso.

Minha Nina também foi um caso de amor. Conosco ela viveu quase 18 anos e pudemos acompanhar de perto seu processo de envelhecimento. Uma verdadeira dádiva.

Com a velhice, ganhou colo constante, nossa devota companhia, um carrinho de cachorro para seus passeios e direito a água de coco para refrescá-la nos dias quentes. Sem falar na dedicação de toda família para ajudá-la nas dificuldades impostas pelo avanço da idade. A doce Nina, mesmo com as dores da artrose controladas pelo tratamento que fazia, passava no colo em colo dos idosos do Centro Dia que eu trabalhava e que ela visitava, junto com a Estrela, na condição de Pet Terapeuta. Era evidente como a presença delas acendia, nos idosos, alegres lembranças de algum convívio amoroso instalados naqueles velhos corações.

A velha Nina, mais do que nunca, passou a ser minha companheira e amiga constante. Ficávamos cada vez mais juntas e estar com ela era sempre a minha primeira escolha. A cachorrinha mais doce e amorosa esteve presente durante toda escrita da minha dissertação de mestrado e me ensinou tanto sobre gerontologia canina que pude clarificar meus pensamentos sobre a gerontologia humana. Sim! A velhice precisa de colo, não gosta de solidão e possui desejos pulsantes que devem ser respeitados sempre. Nina comprovava a importância da construção dos afetos ao longo da vida como garantia de uma velhice acolhedora. Foi uma velha amada e querida por todos pois assim construiu suas relações.

Quando começou a querer se isolar chegou a Estrela para comprovar a importância das relações intergeracionais. Estrela a amava e tinha a velhinha como referência, dando uma sobrevida de 3 anos à ela. Seus últimos instantes foram de uma emoção ímpar, com a Estrela de “enfermeira” cuidando com carinho da velhinha que fazia a passagem. A Filhote Aurora entendia que algo acontecia e em respeito à situação, comportou-se como mocinha não pulando na velhinha nem tão pouco mordendo sua orelha.

A velha Nina manteve seus gostos e peculiaridades desenvolvidos ao longo da vida presentes, mesmo quando ela, já muito velhinha ficava com a cabecinha confusa. Confusão que era refletida em latidos que só cessavam com minha presença.

A praia fazia parte da sua história e banhos de mar também fizeram parte da sua velhice, assim como os passeios de bicicleta e tantos outros momentos que marcaram nossas vidas com uma alegria daquelas que não se apagam jamais. Mesmo velha, ela participava de toda nossa vida.

Deixou de ser velhinha e passou a ser muito velhinha. Tão velhinha que suas perninhas traseiras tinham dificuldade de sustentar seu corpinho de salsicha.

Era uma velhinha tão velhinha, mas tão velhinha que precisou partir. A cachorrinha da infância dos meus filhos fez questão de ajudá-los na construção das lindezas que eles se tornaram. Foi esta velhinha, muito velhinha que quis ensiná-los sobre o viver e o morrer, afinal até então eles não haviam entrado em contato com a morte de alguém tão próximo como ela. Foi esta velhinha que mostrou à eles que a morte é doída demais pois machuca com a saudade. Mas sei bem que esta velhinha será também a grande responsável por ensiná-los a beleza do amor imortal. Amor que não se apaga com a distância imposta pela morte.

Era uma velhinha tão velhinha que precisou partir. E como toda sua vida, sua morte também foi uma poesia escrita com as rimas do coração. Morreu no exato lugar onde nossa história de amor começou há quase 18 anos e fez questão de estar na segurança do meu amor ao convulsionar no meu colo. Vai em paz doce velhinha que nós aqui continuaremos te amando por toda eternidade. E já que ninguém fica para semente, achamos belo te oferecer um lindo jasmim para te acolher. Nosso coração chora sua falta enquanto nosso amor por você, aos berros, nos assegura sua grandeza. A vida segue. Faz um mês que a filhote Aurora chegou para animar a Estrelinha que, seguramente, sentirá sua falta.

Estrela e Aurora continuarão seus ensinamentos pois o amor com você praticado precisa ser continuado. Amor eterno, amor verdadeiro que ultrapassa os limites impostos pela morte.

Da onde você estiver, nós daqui continuaremos te amando. Nina para sempre. Por toda eternidade.

Entre uma lágrima e outra, a vida segue.

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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