A velhice segundo Sólon Borges dos Reis

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Percebi-me interessada pelo esquecido homem-escritor que tentou expressar, segundo os próprios títulos, a condição humana e o tempo, ou seja, a sua velhice.


Reza a lenda que James Joyce estava sentado em um café quando uma mulher lhe pediu para apertar a mão que escreveu Ulysses. Ele teria negado pois “a mão que escreveu Ulysses fez muitas outras coisas”. Reza outra lenda que nos sebos são as obras que te encontram. E assim veio-me a de Sólon Borges dos Reis (1917-2006); nome, até então desconhecido, que foi o de um político, advogado, educador, jornalista e poeta, e que escreveu sobre sua velhice.

Talvez Joyce tenha falado sobre as multifaces de um ser. Talvez possamos fazer o caminho inverso e pensar em Sólon como aquele cujas “mãos que fizeram outras coisas” também escreveram.

É notório que há limites para o que é desejável ou possível de ser contemplado na arte. Após uma pesquisa que reconheço ser mais curiosa do que julgadora, percebi-me interessada pelo esquecido homem-escritor que tentou expressar, segundo os próprios títulos, a condição humana e o tempo na sua velhice.

Em seus anos derradeiros, Sólon principalmente entornou o que sentia sobre as perdas sofridas e os porvires esperados, menores do que os dias decorridos.

Separei alguns dos poemas que publicou entre 75 anos e 79 anos, frutos das meditações acerca do próprio envelhecer:

Imagem
Nem vi passar os dias.
A cobrança da carne, o entorpecer do sono,
o afã da lida, o elã do amor,
o abandono ocioso das horas sem bulham
ao longo do caminho.

Não sei se ainda há vestígios das procelas,
E as nódoas das infâmias? E o saldo das vigílias?

Que ficou do cansaço da aventura,
das tintas das tensões, da obsessão das lutas?

Desgaste da jornada,
efeito das contendas,
resquícios das quimeras destroçadas?

Todas as marcas do tempo estão no espelho.

Desafio
Meu canto desdenha a marcha dos ponteiros.
Enquanto todos os relógios deste mundo
devoram os momentos que envelhecem
os calendários,
sacrifico ao altar fecundo das quimeras
o estoico ritual da poesia

Cada instante é um degrau na rota da descida,
no mundo singular de cada um.

Sei que desço a escada,
mas não vou afinar a minha lira
pelo molde impiedoso da ampulheta

Cada verso extraído das entranhas,
gerado no prodígio do mistério,
paira sobre a voragem dos minutos
como ave que voa sobre o abismo.

Vale a pena
Enquanto houver paz e houver amor,
que importa o tempo?

(…)

Se durar quanto dura uma flor,
terá durado quanto pode
durar na sua transitoriedade,
fugaz, precária, passageira, frágil,
a vida humana que, contudo, é bela.

Avó
Os olhos da avó Anunciata
eram azuis
como uma nesga do céu mediterrâneo
de Castel Pagano

(…)

Como o céu anilado de Campinas
sob o qual inundou de pranto o coração
de todos
quando, cansada, se deitou, enfim,
na hora de repousar, como repousa,
para sempre, em paz.

Sétimo Dia

(…)

há também o olhar do velho, olhar sem brilho,
olhar distante, olhar cansado, olhar perdido
na solidão da idade

No ar embalsamado,
que há com a vida?
Onde está o seu sinal?

Um choro de criança irrompe, irreverente,
interrompendo o rito

É o futuro que chega e se anuncia
e envelhece o presente.

A chama de uma vela tremeluz
junto ao altar.
Por quanto tempo?

Troca

(…)

Vou ao revés do tempo,
ultrapassando idades.
Vou sentar-me, cadeira na calçada.
Vou de volta.
Vou com os olhos saturados
pelas paisagens do mundo fabuloso.
Vou com o tesouro da imagem
dos países fascinantes
e levo comigo encantados,
mais gabados,
dos roteiros,
dos cinco continentes palmilhados.

Espera

(…)

Creio na curva infinita do tempo.
Eu o encontrarei no fim da estrada.


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Foto destaque de Kampus Production/Pexels

Paula Akkari

Paula Akkari – Estudante de Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: [email protected] Instagram: @akkariartigos – www.instagram.com/akkariartigos

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