A velhice não é igual para todos

É preciso repensar os programas de residenciais onde todos são colocados como se fossem iguais. A velhice é heterogênea e propor espaços estimulantes e que permitam escolhas que incentivem a autonomia é fundamental.

Maria Luisa Trindade Bestetti (*)


É comum idosos serem vistos com familiares, em atividades rotineiras ou encontros sociais, e terem atitudes muito semelhantes: um pouco mais lentos (ou serenos?), com atitudes menos alegres (ou discretas?). Enfim, há um preconceito de que todos perdem mobilidade, tornam-se mais tristes e tendem a criar uma imagem corporal de dor e sofrimento. Mas é cada vez mais frequente verem-se grupos de idosos reunidos entre amigos nos mais diversos lugares, divertindo-se e demonstrando que a velhice não é igual para todos, sendo reflexo das condições de cada um ao longo da vida.

Nas pesquisas sobre o impacto da ambiência em moradias institucionais, tenho vivenciado situações bastante significativas nesse sentido. Primeiramente, há poucos residentes com autonomia e que decidem morar nesses locais por decisão própria. Geralmente verbalizam estarem lá por não haver alternativa e sentirem-se um fardo para a família. A partir daí, assumem atitudes mais passivas e esperam serem ajudados para quaisquer ações rotineiras, como se dependessem disso para continuar vivendo. Há os que mantêm atitudes positivas mesmo com limitações e esses normalmente são os que buscam socializarem-se com outros moradores, embora muitos não consigam interagir em função de perdas cognitivas que os afastam da realidade.

Na investigação que realizo atualmente, encontrei semelhanças entre o Brasil e Portugal, mas fui surpreendida pela maior presença de pessoas que decidem morar em residenciais para idosos por sentirem-se mais seguros e confortáveis, considerando os serviços que são oferecidos. Porém, apontam haver poucos momentos de interação no local, o que os motiva a sair e conviver em lugares animados, trazendo novos assuntos e mantendo o prazer com a vida. Um professor de história, 86 anos, que perdeu quase toda a capacidade de enxergar por um glaucoma não tratado, mas que se mantém autônomo e cria estratégias para tal. Uma enfermeira de 89 anos, que diz que sorrir a deixa sempre animada e animando os ambientes por onde transita. Um engenheiro de 102 anos, que demonstra toda sua vida financeira em gráficos desde que começou a trabalhar até o momento que parou e que conheceu outra moradora do residencial, com 90 anos. E, sendo ambos viúvos, tornaram-se muito amigos e parceiros em passeios ao shopping, cinema e teatro, embora ela esqueça rapidamente o que assistiu.

A questão mais comum em todos os residenciais visitados é que há sempre muitos demenciados, embora, para muitos, oferecer ajuda aos moradores que a necessitam possa ser um objetivo estimulante. Ainda assim a socialização é necessária para a manutenção do bem-estar, mantendo a perspectiva para um envelhecimento ativo.

Nesse sentido, é preciso repensar os programas de residenciais onde todos são colocados como se fossem semelhantes, sendo fundamental propor espaços estimulantes e que permitam escolhas que incentivem a autonomia, de modo a manter ativas as especificidades de cada indivíduo quanto aos seus desejos e necessidades.

(*) Maria Luisa Trindade Bestetti – Arquiteta formada pela UFRGS, com mestrado e doutorado pela FAU USP, além de MBA em Gestão de Projetos pela FGV. É professora doutora no Curso de Gerontologia da Universidade de São Paulo. Pesquisa sobre modos de morar na velhice, desenvolvendo caminhos para a reflexão sobre o tema utilizando metodologias colaborativas. Considera que a cidade é a moradia conjunta de toda uma comunidade. É responsável pelo blog Ser Modular – Harmonizar todas as etapas da vida, atendendo desejos e necessidades de moradia na velhice.


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