A velhice, já sinto!

A velhice ganhou poesia e uma linda melodia na composição “Jacintho” de Gilberto Gil que aos 76 anos lança disco com canções inéditas e condizentes com seu momento atual. Gil nos diz que está pronto para viver a velhice.

 

Ultimamente é ela quem dá as cartas aqui em casa e eu tenho acatado com muito carinho a necessidade que ela tem de estar acompanhada. E se a velhice é uma construção de afetos, ela soube como ninguém envelhecer e conquistar meu coração que percebe, nos dias atuais, uma possibilidade de devolver, pelo menos um pouco de todo amor que ela sempre me entregou ao longo da sua vida.

Faz 10 anos que trabalho com velhos. Velhos cujas velhices necessitam de uma atenção extra. Dona Clô é assim. Sente-se aflita sempre que seu marido se afasta e mesmo ele estando na sala ao lado sua agonia é refletida no vazio do seu olhar. Perdeu-se numa velhice sem histórias e sem significado deixando apenas o afeto se manter intacto. No seu nada dizer ela implora por companhia. Dona Clô também soube ao longo da vida cultivar as relações e agora, na sua velhice, continua sendo amada por filhos cuja rotina engole o tempo que não resulta em capital algum e que obriga o amor a dar uma trégua.

Seguimos então vivendo nossas vidas enquanto deixamos, muitas vezes, nossos velhos para trás já que seus passos lentos não acompanham nossa urgência de conquistas.

O marido de Dona Clô é seu principal cuidador e sua amorosidade é sua marca registrada.
Em casa vejo minha rotina ser desenhada de acordo com as necessidades dela, que vive uma velhice plena e exerce seu total direito de nos lembrar que o que ela quer é companhia. A solidão a assusta e o seu mal enxergar só é suprido pelo toque, pelo cheiro e pelo afeto que ela parece sentir com facilidade.

Mudo meus horários sempre que posso e muitas vezes deixo de estar presente em lugares pois, por livre opção, prefiro estar com ela.
Alguns não compreendem e afirmam que exagero no cuidado e se olharmos sob a ótica individualista, realmente, o que faço é demais. Acontece que existem outros meios de olhar a vida e, neste caso, o olhar amoroso prevalece numa rotina onde a sua velhice insiste em dar os sinais.

Jacintho
Já sinto aqui na barriga
Mais preguiçosa bexiga
Mais ociosos os rins
Jacintho
Já sinto aqui no meu peito
Alguns sinais de defeito
Coração, pulmões e afins

Essa fase da vida ganhou poesia e uma linda melodia na composição “Jacintho” de Gilberto Gil que aos 76 anos lança disco com canções inéditas e condizentes com seu momento atual. A velhice, para Gil, não tem sido tão generosa assim já que alguns problemas de saúde exigiram certa cautela com o corpo já velho.

Seu novo disco OK OK Ok, lançado em agosto deste ano, é pura poesia e um olhar genial à velhice e aos fatos ocorridos como a biopsia do coração que o cantor foi submetido, ganha melodia.

Para Gil, esta é uma fase da vida onde as dores, ocultas na juventude, se fazem presente e dificultam o percurso. Mas o caminho deve ser seguido.

A doença passa a ser companhia e nós nos solidarizamos com ele que nos mostra de maneira sensível o que todos nós, velhos de hoje ou de amanhã, certamente vivemos ou viveremos.

Olho para a velhinha aqui de casa e percebo o que ela me diz com o olhar:

– Que bom ter você comigo!

Olhos nos olhos e nosso pacto foi feito há 17 anos quando ela, filhote, veio tornar-se parte da família.

Enquanto existir, a carrego comigo. Passeios no parque e voltinhas até a esquina de casa fazem parte do meu dia. Nestes momentos, sou obrigada a guardar a pressa pela busca de todos meus desejos que parecem nunca chegar, para acompanhá-la entre um tropeço e outro.

Minha doce Nina vive a plenitude de sua velhice sem temer o que talvez esteja por vir. Temo por ela. Que pena!

Há quem ache que somos superiores aos animais! Coitados, não sabem de nada! Vivem suas velhices temendo o final já anunciado. Olham para suas rugas e acreditam poder disfarçá-las com tintura no cabelo, como se assim enganássemos o tempo.

Gil nos diz que, após o tratamento que foi submetido, está pronto para viver a velhice. Doença controlada ou finitude elaborada?

Minha Nina vive seus dias regados com algumas dores e incômodos da idade que ela demonstra entre latidos e gemidos que mais parecem um apito. Mas, instintivamente tudo está sob controle e ela apenas deseja companhia e afetos. O resto é resto.

Resolvo comprar um carrinho de cachorro para ajudá-la na locomoção, afinal a vida segue e a Nina precisa viver a vida que é dela. Até o fim.

Percebo quanta sabedoria existe numa vida cercada de velhices e como seria importante se enxergássemos, desde sempre, que o viver pode ser engrandecido pelos velhos caso assim desejarmos.

Entre um teclar e outro aqui do computador escuto um apitar que clama por companhia.

É ela me chamando. Melhor terminar o texto, afinal, por hora tudo foi dito e agora com licença. A velhice precisa de colo.

Velhice, cálculos, calos, calvície
Hora de chamar o vice
Para assumir o poder

Seu caso
Vaso com mais de 100 anos
Vaso sem quebras, sem danos
Meus parabéns pra você

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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