A velhice em construção

Quanto à minha própria velhice, em construção… tenho caminhado… a partir das minhas próprias histórias e reflexões, agora com um olhar mais de pertencimento, percebendo que posso conquistar um envelhecimento muito mais potencializado.

Mirian Rodrigues (*)


A minha própria trajetória acadêmica e profissional nos últimos dezesseis 16 anos já me induz a crer que fiz parte das mudanças que o aumento da expectativa de vida trouxe, pois ingressei na faculdade de serviço social na PUC de Campinas em 2003, aos quase 46 anos de idade imediatamente após ter concluído o supletivo médio, e saindo da área comercial onde trabalhei por 20 anos. Uma filha já formada em psicologia na turma de 2002, também na PUC de Campinas e já tinha um neto de quase dois anos. Aliás, o nascimento do meu neto quando ainda trabalhava no comércio, me deixou numa tremenda crise existencial, pois aquele título de avó era muito confuso e intimidante, mesmo amando incondicionalmente aquele serzinho!

Ficava constrangida se me chamassem de vovó. Me parecia tão contraditório ser avó e ainda ter tantos sonhos, querer estudar, viajar, trabalhar… Esse título não combinava com meu perfil dinâmico, questionador, vaidoso, com vitalidade física e sexual… Sexualidade? Vovó?!… Definitivamente não combinava!

A faculdade ajudou muito a trabalhar esses paradigmas. As colegas, os professores… Eu tinha uma professora lindíssima já com +60, super elegante, que viajava muito para realizar palestras, autora de livros sobre o envelhecimento e que tinha contribuído para a construção da primeira faculdade para terceira idade na PUC Campinas. Foi um período de despertar para uma vida que eu desconhecia.

E aí me senti ainda mais revigorada com os novos horizontes que a graduação e os estágios me traziam. E ainda em conflito com o título vovó… Certa vez tive que ficar com meu neto e não poderia faltar na faculdade. Lá fomos eu e meu neto acompanhar um seminário das colegas da faculdade sobre religiões na PUC. O acolhimento do curso de serviço social foi maravilhoso e depois, na prática isso teve muito sentido para mim.

Meu primeiro emprego como Assistente Social aos 50 anos foi o melhor presente que poderia ter recebido! O SUAS, a lei 12.101…. a falta de profissionais específicos. Tudo conspirava a favor do meu ingresso na área neste município!

E assim caminhei nesse novo mundo trabalhando nos vários tipos de proteção social preconizados pelo SUAS. E nesta trajetória me deparei com inquietações sobre as práticas em ILPI, politicamente corretas, segundo a legislação vigente, mas que se distanciavam do SER humano. Atendimentos sempre tão previsíveis, despersonalizados, numa população de pessoas idosas cada vez mais apáticas, queixosas, e os que ousavam um pouco mais já despertavam um pavor na equipe de que algo de ruim poderia acontecer e eles seriam “cobrados severamente” pela direção. Esta, por sua vez, geria o espaço segundo as “prescrições” da promotoria, conselhos e cada um destes seguindo alguma prescrição também. “Se deixar sair, pode cair e aí a promotoria nos cobrará satisfações”, “O senhor está doente porque resolveu tomar banho a noite” ou o conselho ou a vigilância sanitária, enfim, um mal iminente sempre rondando qualquer iniciativa. Pois ainda assim, estar doente era a melhor forma de ser acolhido, ouvido.

A partir das reflexões realizadas no curso Fragilidades na velhice: Gerontologia social e atendimento, da PUC-SP, essa inquietação começou a ter sentido para mim, esse controle biológico sobre o corpo, o “biopoder” termo criado pelo filósofo francês Michel Foucault para referir-se às técnicas e protocolos que subjugam corpos.

Ao ler o diário do Sr. Groen (livro Tentativas de fazer algo na vida) descrevendo  a necessidade de sentir-se dono de sua vida, mesmo  custando um corte na cabeça e um atendimento médico absolutamente  desvinculado  da pessoa – paciente, e de ter sido tão severamente  alertado pela Instituição da sua “imprudência” ao querer  apreciar a neve,  percebi o significado daqueles idosos na ILPI que pularam o muro, pois estavam proibidos de sair. A senhora que fumava escondido… o velho que mantinha um gato escondido em seu quarto… E aquele, um dos raros com permissão para sair para a rua, trazendo “encomendas” dos amigos vizinhos que também acabou “encarcerado” por ter sofrido uma queda ao  tropeçar num buraco na calçada. “Não sairá mais”, “Caiu porque arriscou-se a sair”, trazendo a responsabilidade do acidente à pessoa idosa e não à falta de manutenção de um passeio público!

Como também teve muito sentido para mim a reflexão sobre os cuidados paliativos realizada no curso, por ter visto idosos em estado terminal sem esse cuidado de amor e acolhimento. O cuidado com o cuidador, o suporte à família até pós óbito do paciente. O espaço modelo para casos terminais como o Hospice em São Paulo. Tive vontade de estudar mais sobre esse tema tão bem trazido para nossa realidade e assim conversar sobre a morte. Entender a morte como uma fase da vida é bem desafiador em plena era da ditadura do rejuvenescimento. Estamos vivenciando um mundo da cosmética que promete a felicidade!

A indústria cosmética, farmacêutica, cirúrgica, vem faturando absurdamente com as nossas angústias diante do envelhecimento. Muito triste! Eu nem percebia a abrangência dessa manipulação! O Brasil está em 2º lugar no ranking mundial em cirurgias plásticas, só perdendo para os EUA.

Voltando para minha ponte; vivências com pessoas idosas e o curso Fragilidades na Velhice, encontro-me com estratégias muito simples e eficaz para um bom  atendimento;  ouvir… entender… atender… Absolutamente imprescindível para nos orientar e nortear intervenções assertivas e com qualidade.

As aulas de geriatria com ênfase na intersetorialidade me encantou. Entender das síndromes geriátricas, da importância da intersetorialidade para um acompanhamento integralizado e humanizado e, portanto, mais eficaz. Até propus à equipe que faço parte, de visitar o CRI Norte para entender como funciona essa multidisciplinalidade e intersetorialidade,   assim como o Hospice, um lugar que me pareceu de pleno acolhimento às situações de pacientes em terminalidade.

E me debruçar nas reflexões sobre as terminologias, como terceira idade, melhor idade, idoso… Ainda estranho bastante o termo “velho”, apesar de entender o contexto que nos foi apresentado. O mesmo posso dizer do conceito de velho da população de pessoas idosas que atendemos no Centro de Convivência da Terceira idade. É difícil digerir tantas reflexões em um curto tempo.

Quando ingressei no curso Fragilidades na velhice: Gerontologia social e atendimento estava num projeto de Inclusão/atualização ao mundo do trabalho em parceria com o conselho estadual do idoso e a secretaria estadual de desenvolvimento social de SP. Estava encantada, até porque eu também já era uma velha de 61 anos, sem saber o que fazer com minha própria velhice! As aulas me possibilitaram refletir sobre empoderamento, envelhecimento ativo, produtividade, empreendedorismo… Ainda estou refletindo… mas consigo ouvir o público com maior criticidade, sobre o produzir na velhice! Sinto que devo estimular a potencialidade mais do que o empoderamento!

É muito comum a fala desses cidadãos referirem-se à produtividade apenas pelo trabalho remunerado, formal, não reconhecendo sua produtividade nas relações humanas dentro de sua comunidade, família… Não enxergam valor do amor e acolhimento aos amigos, colegas e familiares. Como também não percebem que o fato de serem “velhos” não os obrigam a cuidar de netos, e das necessidades dos filhos… E até uma super participação em todas as atividades no centro de convivência de uma forma frenética, para não se encontrarem, quem sabe, com tantos outros questionamentos existenciais….

Percebo angústias atrás da hiperatividade. Percebo lutos…, sentimento de impotência. Mas, entendo que mesmo não sendo o ideal, o “Programa Envelhecimento ativo” amparou muitas angústias e a partir deste fato pudemos pensar com estes sobre liberdade, criticidade, autonomia de ser. 

Temos um grande desafio pela frente! Entendo que devo refletir e inserir conceitos muito paulatinamente nos espaços onde trabalho. É nesse contexto que venho exercendo minha profissão de assistente social em projeto social para a pessoa idosa, driblando interesses, às vezes, diversos aos meus.

Quanto à minha própria velhice… tenho caminhado… a partir das minhas próprias histórias e reflexões, agora com um olhar mais de pertencimento, percebendo que partir do curso posso conquistar um envelhecimento muito mais potencializado.

Referências                                                                                         

GROEN, Hendrik. Tentativas de fazer algo da vida. Editora Planeta do Brasil, 2016.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: edições Graal, 1979.

BAIR, Deirdre. Começar de novo: o divórcio na terceira idade. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.


(*) Mirian Rodrigues – Assistente social pela PUC Campinas/2006, com especialização em Serviço Social e gestão de projetos sociais pela FMU-EAD 2014. Experiência na atuação  em organizações da sociedade civil com parcerias com poder público na assistência social, na educação e cultura. Na assistência social com atuação em todos os segmentos de proteção social. Participação de Conselhos municipais desde 2009. Atualmente é coordenadora pela OSC Mater Dei Cam Atibaia, de  projeto social no Serviço de convivência para a pessoa idosa em parceria com a Coordenadoria Especial do Idoso Pref. Atibaia-SP. E-mail: mirianjlb@hotmail.com    


Inscrições: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/sindromes-geriatricas/

 

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