A transformação do trabalho e suas relações diante da tecnologia

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Como o trabalho e a tecnologia estão imbricados hoje? Esta foi a pergunta que norteou a entrevista com Flávia Aidar, do Canal Ávida, que trata de diferentes questões do envelhecimento e o que ele nos afeta.

Aya T. Kitadai, Bianca Bernardo, Giovana Yamamoto e Vitória Saragiotto (*)


O tema da intergeracionalidade e suas relações mediadas pela tecnologia é muito recente e seu debate tem crescido ultimamente, pois grande parte desses meios propiciaram o encurtamento de distâncias e a rápida circulação de informação. Por ser algo relativamente novo, esse assunto tem despertado muita curiosidade em diversas áreas. A tecnologia faz parte da contemporaneidade, é um instrumento complexo, que auxilia positivamente diversas áreas do conhecimento, possui ampla propagação de conteúdo e facilita a sociedade como um todo. Diante disso, e dentro das inúmeras possibilidades de recorte, a questão do trabalho chamou nossa atenção.

O trabalho tem grande relação com a tecnologia e é uma ponte para as relações pessoais entre diferentes gerações. Ele proporciona troca, aprendizado e aproximação entre os indivíduos. Por ser um tema presente e de grande relevância social também, busca-se, a partir disso, visibilidade e inserção da população idosa nessa esfera.

Hoje, a sociedade contemporânea está passando por muitas transformações no âmbito político, social e cultural. A exemplo disso, vê-se a globalização econômica, o avanço tecnológico, crescimento competitivo no mercado de trabalho, e a aceleração do ritmo de trabalho (ASSIS, 2006). Com isso, se antigamente transmitir uma mensagem a distância demorava dias e até meses, atualmente tudo é transmitido de maneira imediata, afetando, assim, as relações pessoais e profissionais.

Mattos (1978) destaca que, da mesma forma que a revolução industrial ampliou a capacidade muscular dos homens pelo uso de máquinas, a informática ampliou a capacidade cerebral. A tecnologia, segundo o autor, propicia o aumento da velocidade na resolução de problemas, permite uma maior troca de informações e, pelo fato de não conter subjetividade, traz uma maior confiabilidade de dados. No entanto, ela é mais inflexível, rígida e pode ser fraudada.

De acordo com Perrow (1967), as ações exercidas de um indivíduo sobre um objeto, vivo ou não vivo, tendo como finalidade a sua modificação é o que se conceitua como tecnologia. Já Vargas e Veraszto (2001; 2008), assinalam que a tecnologia é um saber adquirido a partir da educação teórica, prática e por pesquisas tecnológicas. Para esses autores, a tecnologia engloba aspectos culturais, como metas, valores e códigos éticos, e organizacionais, abrangendo a economia, atividades industriais, profissionais, além dos próprios usuários.

Com isso, é possível dizer que a introdução da tecnologia no mundo do trabalho trouxe ganhos e prejuízos, sendo os primeiros de um sentido operacional e o segundo relacionado a sua objetividade e segurança. Silva (2000) afirma que o termo “trabalho” tem origem no latim “tripalium”, referindo-se a um instrumento de tortura para punição de indivíduos que perdiam sua liberdade, sendo submetidos a atividades forçadas. A ideia aversiva de trabalho também é trazida por Dejours (1992), que defende que o embate entre a história individual de cada sujeito e a forma como se organiza o trabalho, têm como resultado o sofrimento mental.

Porém, ao mesmo tempo em que possui este caráter coercitivo, o trabalho é o que dá sentido à vida humana, visto que assim arquiteta sua estrutura social (SILVA, 2000; SAMPAIO E HITOMI, 1993, citado porASSIS, 2006).

A fim de entendermos melhor como o trabalho e a tecnologia estão tão imbricados, entrevistamos uma idosa ativa nas redes sociais, e que tem uma página no Facebook que fala sobre o envelhecer, o Canal Ávida, além do youtube. Flávia Aidar, a entrevistada, tem uma trajetória e profissão onde trabalho e tecnologia atravessam sua biografia. Flávia, 65 anos, é formada em história, mas sua trajetória apresenta muita riqueza de atuação em diferentes áreas, como educação, jornalismo, e agora também no mundo virtual com a criação do Canal Ávida, direcionado a tratar das diferentes questões do envelhecimento e o que ele nos afeta.

Para a entrevista realizou-se um roteiro com aproximadamente 10 perguntas para dar um um direcionamento. Então duas integrantes do grupo foram até a casa dela, conversaram e deram início à entrevista. Esse momento foi muito interessante pela boa disposição e espontaneidade da entrevistada, que já é acostumada com gravações de vídeo e se interessa sobre o assunto. Algumas perguntas não precisaram ser ditas porque Flávia já havia naturalmente falado sobre elas em seus relatos.

Como podem observar no vídeo abaixo, ela falou sobre o que é trabalho e tecnologia, além de sua trajetória e como foi a inserção e adaptação à tecnologia em seu trabalho. Por fim, Flávia concluiu a entrevista falando sobre a intergeracionalidade e sua importância, destacando que a troca é fundamental nas relações entre gerações.

Tendo em vista que o objetivo da entrevista é explorar a evolução das relações com o trabalho e com o passar do tempo e as mudanças derivadas da introdução de novas tecnologias nesse meio, nos pareceu muito frutífero a fala de Flávia. Uma fala que promove também uma discussão sobre a necessidade de ampliação da promoção de ambientes que permitam uma abertura para uma troca, um encontro intergeracional.

Para Flávia, o trabalho é visto em uma perspectiva materialista histórica, considerando a ação do humano no meio para a transformação do mesmo. Na sua fala fica evidenciado como, apesar de eventuais dificuldades com o avanço rápido da tecnologia, esta pode ser usada de maneiras diferentes para auxiliar seu trabalho, que, hoje, apoia-se cada vez mais nela, na tecnologia, como meio de produção e divulgação. Inclusive, para ampliar a disseminação de informações sobre o processo de envelhecimento, que é de interesse de toda a sociedade, trazendo assim questões que podem levar a um aprendizado tanto de uma geração mais jovem quanto de uma mais longeva.

Referências
ASSIS, F. B. Síndrome de Burnout: um estudo qualitativo sobre o trabalho docente e as possibilidades de adoecimento de três professores das séries iniciais. Dissertação de mestrado do programa de pós-graduação em psicologia da Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2006.
DEJOURS, C. A loucura do trabalho: estudo da psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez. 1992.
MATTOS, A. O impacto do computador na empresa. Rio de janeiro, 18(4):53-58. 1978.
PERROW, C. A framework for the comparative analysis of organizations. American Sociological Review, V. 32, p.191-208, Apr.1967.
SILVA, F. P. P. Burnout: um desafio al de Santa Catarina. D Iberpsicologia, 2(1). 200.
VARGAS, M. Educação Tecnológica – Desafios e Perspectivas. Prefácio. In: Grinspun, M.P.S.Z.(org.). São Paulo: Cortez, p. 7-23. 2001.
VERASZTO, E. et al. Tecnologia: Buscando uma definição para o conceito. PRISMA.COM nº7. 2008.


(*) Aya T. Kitadai, Bianca Bernardo, Giovana Yamamoto e Vitória Saragiotto – estudantes do segundo ano do curso de Psicologia da PUC-SP. Texto escrito na  disciplina “Relações Intergeracionais mediadas pela Tecnologia”, ministrada pela profa. Beltrina Côrte durante o segundo semestre de 2019. E-mail: yamamotogiovana@gmail.com

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