A trama do corpo pelos fios do envelhecer: amputação, velhice e arte

Tempo de Leitura: 3 minutos

Envelhecer com uma deficiência física em um mundo que estimula a eficiência dos corpos tem suas particularidades.

Isadora Di Natale Nobre (*)


Deficiência. O termo já nos faz inferir que aqui o corpo é apreendido sob o viés da falta. Necessariamente nosso olhar, condicionado pelos valores contemporâneos de corpo, nos faz colocar tal velhice à margem. Afinal, não é essa a velhice que aparece nas mídias sociais que exalta uma geração prateada, um comércio do envelhecer. Então, ser uma pessoa idosa amputada configura quase uma dupla falta. Mas para quem? Por quais motivos? Com quais finalidades? Tudo depende do olhar e das condições que produzem o nosso olhar.

Será possível outras apreensões do corpo que escapem à logica da produtividade e da eficiência? Será possível uma outra saúde que resista ao modelo biomédico de completo bem-estar?

Afinal, o que compõe um corpo?

O olhar que propomos aqui é um olhar que amplia as possibilidades da existência em sua multiplicidade e singularidade.

Poderíamos ousar falar de um corpo potente mesmo na deficiência física? Uma velhice que se utiliza da doença para aumentar a força vital? Uma vida que ganha contornos e novos sentidos no encontro com outras vidas?

O Patchwork, nesse contexto, ganha destaque. Retalhos ganham novos sentidos, costurando histórias, dores, encontros, desencontros, devires. Pela arte, apreende-se uma nova forma de tecer os panos, alinhavar histórias, (re)inventar a própria vida.

Somos artistas!

Quem ousa contestar?

A dor obriga o esquecimento de antigos hábitos, rotinas, papéis. No tratamento de reabilitação se descortina um novo mundo, um novo tempo. O sofrimento está presente, ninguém nega, pois é a partir dele que se reconhece uma nova forma de sentir e viver o corpo.

Corpo que experimenta a sexualidade, a amizade, o prazer e o desprazer. Corpo que ri de si mesmo e aprende a ser novamente – ou pela primeira vez – DONO DE SI.

Esbanja não uma pequena, mas uma Grande Saúde, como Nietzsche nos ensina.

Consegue ser autor da própria história, mergulhando na diversidade dos tecidos, em suas inúmeras possibilidades de arranjos, experimenta o encontro, se afeta e deixa afetar-se, descobrindo sua própria potência.

Corpo e Velhice: Tecendo Novos Arranjos, livro em lançamento

A experiência de envelhecer com um corpo sentido e tratado como deficiente em um contexto social que valoriza e estimula a eficiência dos corpos tem suas particularidades. O livro “Corpo e Velhice: Tecendo Novos Arranjos” propõe um olhar à singularidade presente na multiplicidade da existência humana.

Para tanto, a ótica escolhida foi a de mulheres amputadas em processo de envelhecimento no contexto da reabilitação, através de abordagem qualitativa de intervenção por meio da técnica de Patchwork, visando investigar os significados de saúde, reabilitação e velhice para elas.

A resistência da velhice que rompe com os ideais contemporâneos de um corpo capturado pelo discurso biomédico ocorre pela via da potência da arte na costura de tecidos e, principalmente, na invenção da própria vida.

Suas expressões, discursos e produções revelam uma saúde que não é ausência de doenças e tampouco completo bem-estar, mas que escapa à lógica da produtividade e utiliza-se da doença para aumentar a força de Vida.

Ao invés de reforçar o pensamento dominante do olhar restrito ao diagnóstico optamos por experimentar a tessitura de fios que entrelaçam histórias, afetos, intensidades, devires, encontros. Afinal, o que compõe um corpo?

Serviço
Corpo e Velhice: Tecendo Novos Arranjos
Autora: Isadora Di Natale Nobre
Número de páginas: 358
Ano da edição: 2021
Editora: Portal Edições

(*) Isadora Di Natale Nobre é psicóloga e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Possui formação em Acompanhamento Terapêutico-AT, atuando nas áreas de Psicogerontologia, Saúde Mental e Reabilitação Física. Atua na Associação de Assistência à Criança Deficiente – AACD no setor de Psicologia Adulto.


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