A profecia que se realizou…

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Precisamos acreditar naqueles que lutam, que resistem a uma realidade sombria, ameaçadoramente; acreditar nos legítimos representantes do Anjo Salvador em luta constante contra o Demônio, no mal que vemos ressurgir nesses dias assombrados pelo racismo, pela indiferença, pela violência gratuita que nos invade, até mesmo em nossas próprias casas. É o cinema profético.


Nada mais oportuno que agora, neste triste momento em que vivemos – pandemia, disputas políticas, autoritarismo, intolerância e, porque não dizer, ignorância somada a total falta de sensibilidade da existência do outro – lembremos, com a ajuda de um cinema profético, de uma realidade que ainda paira sombria, ameaçadoramente, em nossas vidas.

Sobre o embrião, a semente que dela fez nascer a profecia que originou o que chamo de “Cinema Profético”, o jornalista e escritor brasileiro Carlos Heitor Cony, contava a história: Em 1913, Hans Janowitz, um dos roteiristas do clássico “O Gabinete do Dr. Caligari”, perambulava por Hamburgo, na Alemanha, atrás de uma moça pela qual se apaixonara. Ao encontrá-la em um parque de diversões, logo percebeu que ela fora atraída a uma barraca onde se exibia um hipnotizador. Infelizmente, perdeu-a de vista. No dia seguinte, acharam a moça estrangulada num matagal próximo ao parque. Ele foi ao enterro e viu, escondido entre as colunas da igreja, o hipnotizador. 

Carl Mayer, o outro roteirista, tivera problemas durante a Primeira Guerra Mundial, quando fora torturado por oficiais do Corpo de Saúde. Ao ser desmobilizado, pretendia escrever um livro contando os horrores a que fora submetido. Tornando-se amigo de Janowitz, resolveram fundir as histórias numa só. Nascia o filme, mas faltava o nome. Eles liam algumas cartas de Stendhal, e descobriram o nome de um oficial que o escritor conhecera em Milão: Caligari. Nascia o filme mais importante do expressionismo alemão.

Conta a história que dois jovens estudantes, enamorados da mesma moça, vão ao parque de diversões. O hipnotizador, de nome Caligari, orienta um sonâmbulo e através dele prevê a morte dos espectadores. Diversos crimes acontecem na cidade. Francis, um dos estudantes, suspeita de Caligari. 

Sobre telhados recurvos, meio góticos, meio cubistas, o sonâmbulo caminha para apunhalar a moça. Por sorte, ela acaba sendo salva pelos rapazes que denunciam Caligari à polícia. Nas buscas, revela-se que Caligari é apenas um louco, não um criminoso. Tempos depois, Francis procura o diretor do hospício, famoso por suas pesquisas sobre a loucura. Qual não é sua surpresa: é o próprio Caligari. 

Na história, o sonâmbulo, Cesare é aquele que, alheio a realidade, “dorme” há 25 anos e se submete a todo tipo de desumanização, uma espécie de representação criada por Murnau da nação alemã. Apenas Caligari, o Mestre, aquele que hipnotiza e fragiliza o outro, tem o poder, o comando para despertá-lo rumo à realização de seus próprios objetivos de morte. 

Sim, o dom da profecia é conferido ao Doutor, mas o jovem Francis resiste a todo mecanismo de alienação, investigando e revelando a verdade que o povo não deseja saber: “Seus tolos, este homem está planejando a nossa destruição! Todos morreremos ao anoitecer!” Para aquele que resiste, há um preço elevado a pagar: a sanidade. Afinal, de quem foi o delírio de existência de um mal onipresente? De Caligari ou Francis? 

O tempo, logo daria a resposta. O nazismo já ameaça inocentes e já seduzia as almas dos assassinos contumazes.

Com O Gabinete do Dr. Caligari, outros vieram: Nosferatu, Fausto, ambos com direção de Wilhelm Murnau e, em seguida, a série do Dr. Marbuse, Metrópolis, M – O Vampiro de Dusseldorf, todos sob o comando de Fritz Lang.

Do mesmo ano de Caligari, 1922, chegava Nosferatu. Nele, Murnau apresenta a história de mais um louco que assombra o povo alemão. A história gira em torno de Hutter, o agente imobiliário que viaja até os Montes Cárpatos para vender um castelo no Mar Báltico de propriedade do excêntrico conde Graf Orlock que, na verdade, é um milenar vampiro em busca de poder. 

Com Nosferatu, o aviso de perigo iminente se intensifica: o sangue de uma nação será sugado até a última gota e, junto dele, vidas roubadas.

Saindo do terror, ainda em 1922, chegamos na série sobre o famoso Mabuse. Aqui, somos apresentados ao “Dr. Mabuse, o jogador”, um thriller criminal sobre uma organização terrorista que explora a crise inflacionária alemã para dar poderes ditatoriais a seu líder. 

Já em 1933, conhecemos “O Testamento do Dr. Mabuse”, o gênio louco que constrói uma organização para dominar o mundo e, finalmente, em 1960, somos perseguidos pelos “1000 Olhos do Dr. Mabuse” que completa a trilogia do mal de Fritz Lang. Agora, Mabuse regressa com um propósito claro: destruir o mundo. Através de uma rede de televisão, ele vigia os clientes de um luxuoso hotel com o objetivo de roubá-los e matá-los.

Mabuse, o jogador, o doutor, o arrogante, o criminoso! O homem de múltiplas e infinitas faces que seduz, manipula as mentes e destrói qualquer um que o impeça de executar seus planos de morte. Para ele: “Não há felicidade, há somente o desejo de poder!” Suas vítimas, aqueles que se submetem aos truques maquiavélicos da desumanização são todos de seu bando, os manipulados de plantão, a seu serviço, todos clones do sonâmbulo Cesare.

Não pense que acabou. Em 1926, é a hora e a vez do “Fausto”, de Murnau, o primeiro de uma série de versões, comandadas por diferentes diretores, que invadem as telas de cinema ao longo dos anos. 

Fausto é o protagonista de uma lenda alemã sobre um pacto com o demônio, baseada no médico, mago e alquimista alemão Dr. Johannes Georg Faust (1480 – 1540). O nome Fausto tem sido usado como base de diversos textos literários, o mais famoso deles a peça teatral do autor Goethe, produzido em duas partes, escrita e reescrita ao longo de quase sessenta anos. A primeira parte – mais famosa – foi publicada em 1806 e a segunda, em 1832 – às vésperas da morte do autor.

Fausto é um poema que relata a tragédia do Dr. Fausto, homem das ciências que, desiludido com o conhecimento de seu tempo, faz um pacto com o demônio Mefistófeles, que o brinda com a energia satânica da paixão pela técnica e progresso.

Sabemos que para essa arquitetura da destruição se tornar real, há de termos figuras como o onipotente Fausto que, em troca do poder de cura, da juventude eterna, da mais sublime e perfeita composição de arte, sela com sangue o pacto eterno com o Mephisto, Diabo, Demônio, Satanás, e todas as denominações para o lado obscuro de todos nós. 

Fausto, mesmo tendo a “liberdade de poder escolher entre o bem e o mal”, rende-se as ciladas da desumanização proposta pelas sombras. 

Ainda sob o impacto do mal, chega “Metrópolis”, de 1927, a história que representa a visão do futuro para Fritz Lang. Nele, os operários são escravos sob uma ditadura capitalista. A cabeça pensante é de um cientista enrugado e maldoso cujo distintivo é uma estrela de cinco pontas. Os escravos tentam uma revolução. O conflito só se resolve quando tanto o ditador como os operários compreendem que “o cérebro e a mão somente podem trabalhar juntos quando ligados pelo coração”. O cientista é destruído; o capital e o trabalho se unem num estado ideal sem conflitos e, principalmente, sem luta de classe. 

Intencionalmente ou não, Lang criou uma visão mitológica da sociedade que se harmoniza perfeitamente com a ideologia fascista.

Em 1931, Lang continua sua saga profética com “M”, thriller psicológico baseado no caso de Peter Kürten, o assassino de Düsseldorf. O título da obra era Mörder Unter (traduzindo: Os assassinos estão entre nós) e as filmagens foram inicialmente sabotadas pelos nazistas que suspeitavam estar indiretamente referidos no título.

Cony (1995, p. 15) encerrava seu olhar sobre Caligari, lembrando: “Em 1946, quando Siegfried Kracauer lançou o livro ‘De Caligari a Hitler’, a resposta ao conde de Beaumont já havia sido dada pela história”. 

Fica a reflexão: Precisamos acreditar naqueles que lutam, que resistem, nos legítimos representantes do Anjo Salvador em luta constante contra o Demônio, no mal que vemos ressurgir nesses dias assombrados pelo racismo, pela indiferença, pela violência gratuita que nos invade, até mesmo em nossas próprias casas.

Assim, que vença…

A Palavra que vibra através do universo, a Palavra que acaba com a dor e o sofrimento, a Palavra que expia a culpa dos humanos, a Palavra eterna… Amor.

Referências
CONY, Carlos Heitor. O Gabinete do Dr. Caligari. In: LABAKI, Amir (Org.). Folha conta 100 anos de cinema. Rio de Janeiro: Imago, 1995.  
KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler: uma historia psicológica del cine alemán. Barcelona: Paidós, 2011.


arte
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Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: [email protected]

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