A polêmica: ser versus valor

À primeira vista, poderia parecer disputa bizantina, mas para entender um pouco das posições dos axiologistas é preciso ouvi-los e entender sua argumentação.

Waldir Bíscaro *

 

Vejamos o que dizem os “geltunguistas”: O valor compreende um domínio inteiramente independente do ser. Enquanto o valor se apresenta como um ideal ilimitado, suspenso, desprendido do real, aberto à tendência, o ser é como que um impedimento à nossa tendência na realização do valor. Analisemos um juízo qualquer e façamos ver a autonomia do valor perante o ser.

Neste exemplo: “É injusto condenar um inocente”, o valor se apresenta como norma eternamente válida e completamente independente do ser. É que seria possível nunca acontecer a condenação do inocente e, no entanto, o valor daquele juízo continuaria válido independente, no tempo e no espaço, de toda expressão do ser.

Continuaríamos a ver esta incompatibilidade entre ser e valor na análise de um juízo de ser: “Mataram um assassino” – “Mataram um inocente” – a ação não perde nada de sua entidade, por ser justa ou injusta. O ser é frio, fechado, indiferente enquanto o valor é aberto à tendência, afetivo, colorido. Portanto, entre ser e valor, separação completa. Metafísica, ciência do ser – axiologia, ciência do valor. Duas ciências completamente autônomas.

Afinal chegamos a isto: Valor não é ser. Então que espécie de realidade é essa que não é? Lotze não se assusta diante da pergunta e responde com admirável simplicidade: O valor não é, mas vale! É uma forma que consiste só em valer. A essência fica substituída pela valência, qualidade valiosa, pura e, de si, sem nenhuma relação com a existência. Mas, se pergunta, como se dá a valorização? Qual o intermediário entre o mundo do valor e o mundo do ser? É o homem, diz Lotze. E só o homem é que insere a qualidade ou forma valiosa no ser, é ele que “realiza” o valor.

Frente às atitudes filosóficas dos axiologistas, que posição é possível tomar? A primeira impressão parece suscitar um protesto do senso comum: Removido o fundamento ontológico, subsistiria a dupla objetividade dos valores defendida pelos teóricos da geltung? É possível haver uma qualidade pura que não tenha ser? Será que para salvar a transcendência dos valores não haveria outra saída do que isolando-os do ser?

É evidente o caráter absoluto dos valores, pois é isso que lhes garante a validade objetiva. Em que sentido se diz que o valor é absoluto? No sentido de ele transcender a contingência das coisas singulares, enquanto se sobrepõe às opiniões humanas e ultrapassa os limites do tempo e do espaço. Se algo é realmente belo, justo, verdadeiro ou sagrado o será para todos os homens, em todos os tempos, em todo lugar, mas implica tal coisa em transcendência do valor sobre o ser?

Não parece claro. O que se vê muito claro é que o valor transcenda a coisa, a existência concreta, a realidade singular. E, aqui, se fareja um equívoco da parte dos axiologistas. Não seria, talvez, fundamentados na “coisificação” do ser que eles afirmariam o não-ser do valor? Porque é claro que o valor não é coisa, enquanto o ser, em sua mais alta abstração, abrange a imensidão tanto do real como do potencial onde caberia logicamente o valor. O valor desatrelado do ser seria quimera, inobjetivável.

(PS: fazemos, agora, uma pausa na fala do rapaz de dezenove anos, que na sua ânsia de “aristotelizar” o conceito de valor, teria desqualificado a visão dos axiologistas a respeito do conceito de SER. É que, às vezes, a paixão – mesmo a intelectual – fala tão alto que inibe a compreensão do que o interlocutor quer dizer. Waldir)

* Waldir Bíscaro – Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br

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