A Peste e os Dilemas da Fé

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Numa pequena cidade, de nome Oran, numa data não muito precisa, a vida dos habitantes segue sua rotina até que milhares de ratos começam a surgir do subterrâneo e morrer aos milhares. Logo, as pessoas também começam a adoecer, e seus destinos são, em muitos casos, o mesmo.


“A Peste”, romance de Albert Camus (1913-1960), publicado em 1947, nunca esteve tão atual como nesses tristes dias em que vivemos. Exatamente por isso, lembremos: a história criada era uma alegoria da Europa ocupada pelo nazismo. Camus, entretanto, gênio das palavras, parecia já antever muitos outros flagelos que já se anunciavam. Recriada para as telas de cinema pelo argentino Luiz Puenzo, em 1992, saímos da história de Camus na cidade argelina de Oran rumo à cidade fictícia na América do Sul, na qual imperam as ditaduras do terceiro mundo. Apesar das pequenas adaptações, entendo que o filme se manteve fiel à história original.

Resumindo, Oran é uma cidade devastada pela peste que ainda respira uma genuína solidariedade, sofre pelos conflitos entre o Bem e o Mal e, ainda, agoniza pelos que sofrem a dor da perda de seus queridos. Os dilemas da fé, num Deus supostamente ausente, são vividos intensamente pelo médico Bernard Rieux (William Hurt), o protagonista e narrador da história, Joseph Grand (Robert Duvall), o estatístico do departamento de óbitos, os jornalistas Jean Tarrou (Jean-Marc Barr) e sua colega Martine Rambert (Sandrine Bonnaire) e o padre Paneloux.

Oran, América do Sul, 199…

A voz melancólica de Rieux abre a cena: “Os estranhos eventos dessa história ocorreram em Oran pouco antes do fim de nosso século. Pouca gente deu atenção ao caso. Como verão, Oran é uma cidade comum, embora seja uma cidade europeia situada no sul da América do Sul”.

Mesmo com algo incomum já acontecendo, muitos ainda ignoram a tragédia anunciada. Por que será que, passe o tempo que for, as pessoas continuam a negar o inevitável? Talvez seja por pensarem que o pior só afetará o outro, nunca a ele mesmo. É o que chamamos vulgarmente da ignorância que protege, mas por quanto tempo?

Tarrou e Martine, deviam ter partido naquele dia rumo à Paris. Ainda não era o caos, mas a nuvem negra já se aproximava de Oran e, por razões desconhecidas, lá eles permaneceram. Importante ressaltar que notícias de crianças mortas numa certa passeata os trouxeram à cidade. Sempre Ela, a Morte.

a peste

Rieux seria o próximo a partir. Sua esposa, já desenganada pela vida, esperava-o para uma derradeira despedida, também em Paris, ironicamente um refúgio dos apaixonados, da esperança. Alicia Rieux ia à capital para se submeter à exames médicos. Pobre homem, pobre médico, a Morte costumava visitá-lo com frequência.

É dessa maneira que todos se conhecem no aeroporto, através do perturbado motorista e suicida Cottard (Raul Julia), paciente de Rieux.

Puenzo trabalha as cenas como golpes certeiros: somos constantemente, ao longo da história, surpreendidos com diálogos cortados, secos, sem preparação, algumas vezes incompreensíveis naquele momento. Só mais tarde, a intenção se revela.

Como não poderia deixar de ser, mais uma fala de um governante que bem poderia ser um desses que conhecemos: “Os ratos, poucos, não são motivo de alarme (…). Antes disso, quantas pessoas morriam por semana? É certo que todas as 300 dessa semana morreram da peste?”.

O médico diante da perplexidade das cenas de sofrimento, reage: “são duas mortes com sintomas iguais, não sabemos o que é. Casos de febre tifoide com inchamento de glândulas e vômito. Ratos e homens morrem da mesma doença”.

E mais uma “pérola” de outra autoridade, infelizmente, também muito comum, aos nossos ouvidos e, vejam, nem em Oran estamos: “Esse diagnóstico pode justificar um golpe militar”.

Martine, angustiada, constata que a cidade está isolada do resto do mundo: “Só acreditamos nessas coisas quando acontecem. O mundo conheceu pestes, guerras e genocídios. Dirão que isso passará rápido, que é uma tolice, mas a história sempre se repete”.

Buscando imagens e fatos, Tarrou filma o desespero de certo desconhecido: “Poderíamos eliminar a plateia inteira de um cinema grande e, mesmo assim, o massacre não nos daria uma dimensão real da tragédia, como a eloquência de um único rosto. O rosto de um morto”.

Ratos morrem, casas são isolados com o fatídico “X”, pintado em sangue, homens, mulheres e crianças morrem. É o cheiro do fim. Cenas como essas fazem o jornalista se tornar um voluntário: “É uma chance de virar santo”, ele diz. E a procissão segue ser curso, o menino canta, como um sabiá, em louvor à mãe, aquela que cuida e protege a vida de inocentes.

E o amor tem seu lugar, em Oran

Seja pela simplicidade do Sr. Grand, seja pela apaixonada Martine, lá ele está:

– Sr. Grand: Há 40 anos, parada aqui, ela me disse: “Que janela linda”. Eu peguei em sua mão, e decidimos nos casar há 40 anos. Eu nuca a fiz entender que era amada. No dia em que ela morreu, não encontrei palavras para entretê-la. Palavras, palavras, nunca as encontro, nunca.

– Martine provocando Rieux: Não sou covarde. Não vou embora porque tenho medo. É porque  só vale a pena viver pelo que se ama. Viver e morrer pelo que se ama. Seria capaz de morrer de amor? É mais fácil você morrer por um ideal, não? Mas eu acredito nisso (tocando os seios)  e nisso (tocando o sexo), entendeu?

E entre dilemas e mais dilemas da fé, o Padre Paneloux, do alto do púlpito sagrado, profere aos fiéis, e aos pecadores contumazes:

– Padre: Nós merecemos isso. Desde o início dos tempos, o flagelo de Deus põe a seus pés as cidades pecadoras. Também em Oran Deus viu a transgressão do Mal. Assim como os viu se arrependerem certos de Sua misericórdia divina. Meditem e caiam de joelhos. Aquele quadro é uma ilustração da Lenda Áurea quando, na Itália, os vivos mal conseguiam enterrar os mortos e foram vistos dois anjos da peste. Um, belo como Lúcifer e vermelho como o Mal sob o comando do outro o anjo do Bem. Talvez essa noite um anjo aponte o dedo às suas portas e o outro ataque com sua lança. Talvez a peste os esteja esperando paciente e atenta, segura, como as leis do Universo. E, se vocês tivessem fé, se vocês vissem o esplendor da eternidade, a cura de todo o sofrimento, nada nesse mundo, nem mesmo as tentativas vãs do homem, poderiam desviá-los do caminho do Bem. Tudo o que tenta contrariar a vontade de Deus, leva a heresia. Ele uniu o Bem, o Mal, a cólera e a piedade, o céu e o inferno, nesse flagelo que ao martirizá-los, leva-os a enxergarem o verdadeiro caminho. Os anjos da peste mostram a vocês o caminho da salvação.

Rieux, perplexo, indignado com o que ouve e justamente num momento de tanta fragilidade das pessoas, reage, incisivamente: “Se acha mesmo que a peste é um passaporte ao paraíso, venha lavar lençóis no hospital. Não posso aceitar a ideia de castigo coletivo. Se acreditasse num Deus onipotente, desistiria da medicina. Ninguém acredita num Deus assim, nem mesmo você”.

– Padre: Há épocas em que precisamos acreditar em Deus. E quando erguemos os olhos aos céus, só há silêncio.

 A Peste que ronda…

No entendimento, acumulado por dores e perdas, Rieux constata que, “há sempre um pouco da peste em todos. Alguns não sabem, mas outros fazem disso um meio de vida”. E alerta, “Quem sabe, precisa se cuidar para não respirar no rosto dos outros. Não se distrair. O homem honesto faz exatamente isso. Evita se distrair”.

E Ela, destemida, avança, e pega mente e espírito do Sr, Grand. Nesse momento, só resta a nostalgia, “palavra bonita”. Quem sabe não foi essa tal Nostalgia que o prendeu a vida, não foi o rememorar dos erros e acertos que o salvou das garras da Maldita?

Já com o inocente menino sabiá, Ela foi implacável, até seu frágil corpo Ela roubou. Para Rieux resta, apenas, acolher o pequeno em seu colo, abraçar amenizando a dor. Que Deus é esse?

O Padre, na tentativa de responder o incompreensível, avisa: “Certas leis vossas, eu compreendo senhor. Outras estão além de minha compreensão. Vós toleraríeis que eu rejeitasse o que faço por não compreender? Aceitei tanta coisa que odeio, pois não ousava Vos odiar. Aceitei a crença em tudo, pois minha fé não me permitia negar nada, mas não mais. Querido Deus, por favor, perdoai-me. Sou apenas um homem. Eu tomei a única decisão que um homem poderia tomar. [VAZIO] Em tempos de peste, só existe céu ou inferno”. Paneloux seguiu seu caminho…

O fim da Peste, será?

Autoridades anunciam que a epidemia está recuando, mas Oran ainda ficará isolada por mais duas semanas e as medidas preventivas seguirão vigorando por um mês.

Tarrou grita, “não só não termina, como de vez em quando, começa tudo de novo”. Cottard, imerso em sua loucura, complementa: “nada vai mudar, as pessoas esquecerão da peste e seguirão vivendo por suas regras”. Na verdade, nem tudo pode ser esquecido.

Rieux, o triste narrador de uma tragédia anunciada, finaliza: “A história está terminando. É apenas um registro do que foi preciso fazer e que precisará ser feito novamente por aqueles que incapazes de serem santos, não se curvam diante de pestes. A primeira onda de frio veio após a morte do padre Paneloux. A peste relaxou sua mão de ferro. A epidemia perdeu a eficácia matemática que fora sua força. Não se pode dizer que derrotamos a peste. Não foi eliminada, apenas recuou, talvez por ter alcançado seus objetivos imediatos. Grand foi um dos poupados, talvez porque o destino favoreça os que o desafiam ou porque, como disse Tarrou ao conhecer Grand: ‘onde houver gente perseguindo obsessões honradas, a peste não terá futuro’. Na época o doutor achou que se a história tivesse que ter um herói, seria Grand. Um herói insignificante e obscuro com ideais aparentemente ridículos”.

Para o louco ou o gênio Cottard, nas palavras finais: “Nenhum de vocês aprendeu droga alguma sobre a peste”.

Mas, o que deveríamos ter aprendido?

“Que tudo sempre voltará”. E voltou, somos testemunhas.


Foto destaque: Quadro “Triunfo da Morte” (1563), do holandês Pieter Brueger The Elder, um dos legados de grandes epidemias para a humanidade. Reprodução/ Museu do Prado (Madri)


futuros

Reflexão sobre os conceitos do que está acontecendo no mundo de hoje, as transformações que vivemos e futuros próximos, baseados no livro “As 21 Lições do SEC XXI” de Yuval Harari, pensador da era contemporânea. Propomos refletir a pós pandemia com enfoque no Brasil. Inscrições abertas em: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/workshop-online-possibilidades-de-futuros-proximos-baseado-nas-21-licoes-do-sec-xxi-de-yuval-harari/

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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