A pandemia de Coronavírus e a discriminação contra idosos

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Tem-se, no Brasil, o exercício de uma política que mata em função da redução dos investimentos sociais, aliada à discriminação etária, que associa a velhice à doença e à incapacidade.

Raíssa Maria Alves Soares Costa (*)


As mídias em geral têm reforçado a representação social dos idosos como pessoas incapazes e improdutivas para a economia, porque estão associadas à concepção de que apenas os mais fortes sobrevivem, considerando os idosos como um grupo frágil e, de certa forma, levando a legitimação do número de mortes de idosos provocados pela COVID-19.

A título de exemplo das reações discriminatórias direcionadas aos idosos, podemos citar a veiculação massiva de vídeos e fotos que circularam em 2020 em mídias digitais expondo os idosos de maneira pejorativa, embora mascaradas sob forma de humor. Destacou-se o viral caso brasileiro do ‘caminhão cata véio’: “É o caminhão cata veio. Os ‘véio’ que não for sozinho, nós leva embora. Acima de 60 estamos recolhendo os ‘véio’. É o caminhão cata ‘véio’” (MACHADO, 2020, p. 02).

Isto é o que dizia trecho do áudio que, de forma jocosa, expressa ideias preconceituosas em relação aos idosos, objetificando-os e tratando-os de forma infantilizada. Uma variante moderna dos teatros cômicos da Antiguidade, que apresenta o idoso como “o outro, um mero objeto, com o qual o riso impede que os espectadores se solidarizem”, como já assinalava Beauvoir (1970, p. 170).

Também foram veiculadas graves afirmações de políticos, empresários, e até mesmo do presidente da República, que em entrevistas e pronunciamentos oficiais se manifestaram de modo que soa bastante indiferente às mortes por COVID-19, principalmente no que se refere às vítimas idosas, e permaneceu minimizando os impactos da pandemia, apesar do número exorbitante de mortos, até hoje, e da evidência da tentativa de desresponsabilização do Estado no enfrentamento à pandemia.

Para Beauvoir (1970, p. 97), o que define o valor da velhice é o sentido que os homens atribuem a ela e, segundo a maneira pela qual se comporta para com seus velhos, a sociedade desnuda seus princípios e seus fins. No que se refere às atitudes históricas com relação aos idosos, a autora assinala que as soluções práticas adotadas pelos povos primitivos, com relação aos problemas suscitados pelos velhos, incluíam matá-los ou abandoná-los à própria sorte, “os povos civilizados aplicam-lhes o mesmo tipo de tratamento; só é proibido o assassinato, quando não disfarçado”.

As palavras da autora nos fazem refletir sobre a situação do Brasil, pois embora a maior parte dos casos graves e óbitos da pandemia ocorrerem em idosos, isso não tem sido suficiente para que o governo constitua políticas de proteção social para esse público. Ao contrário, tem-se observado a minimização do problema sob a alegação de que a doença seria grave “apenas” para idosos; discurso e mesmo a indolência de parte da população frente a esse tipo de afirmação, desvela o preconceito da sociedade para com os idosos, gerado em parte pelo preconceito que, em parte, se alicerça na ordem político-econômica vigente, pois em sociedades baseadas no lucro, pessoas não requeridas como produtoras e que poderiam descartadas. O simples fato de reivindicarem o direito à sobrevivência é visto como um aborrecimento para o restante da sociedade (BAUMAN, 1998).

Nesse sentido, Di Lascio (2020, p. 33) afirma que “os idosos foram estigmatizados como o subgrupo da espécie humana marcado para morrer”, pois, no Brasil, a pandemia tem sido tratada como uma oposição entre as políticas públicas de saúde e a economia neoliberal, configurando um perverso dilema entre a vida e o mercado. É nítido que a falta de responsividade do governo no combate ao Coronavírus, o que se configura como um descaso, não só para com os idosos, mas para com a vida de toda a população brasileira.

Tem-se, no Brasil, o exercício de uma política que mata em função da redução dos investimentos sociais, aliada a discriminação etária, que associa a velhice à doença e à incapacidade, vislumbrando o idoso como um fardo para a sociedade. Essas associações dificultam que as pessoas se enxerguem como idosas e impede que percebam que, ao decretar o destino dos idosos de hoje, o adulto determina seu próprio futuro, afinal, o jovem de hoje será o idoso de amanhã.

Leia o artigo na íntegra na Revista Longeviver

Referências
BAUMAN, Z.  O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
BEAUVOIR, S. A velhice: A realidade incomoda. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.
Di LASCIO. M. D. C. G. A necropolítica e os idosos em tempos de COVID-19. Rev. Longeviver, (7), 32-34, 2020. Recuperado de file:///C:/Users/User/Downloads/845-1361-1-SM.pdf.
MACHADO, S. “Caminhão cata veio” circula por Goiânia e pede para idosos ficarem em casa. UOL. 31 de março, 2020. Recuperado de https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/03/31/caminhao-cata-veio-circula-por-goiania-e-pede-para-idosos-ficarem-em-casa.htm

(*) Raíssa Maria Alves Soares Costa – Graduação em Psicologia (Faculdade Pitágoras – Campus Poços de Caldas, 2017). Psicóloga do Centro de Referência de Assistência Social – CRAS (Campestre – MG). Pós-graduanda em Psicologia Escolar e Educacional – (CUF). Experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social. E-mail: [email protected]

Foto destaque de Ryutaro Tsukata no Pexels


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