A onda do aplicativo que “envelhece” mostra preconceito sutil contra pessoa idosa

A onda do aplicativo que “envelhece” se insere na necessidade de observarmos a importância dos meios de comunicação na construção das identidades culturais dos mais velhos e nas variadas formas de lidar com a velhice.

Enio Taniguti (*)


A febre do aplicativo Faceapp que “envelhece” o usuário e contaminou milhões de pessoas pelo país e mundo, inclusive artistas e famosos, é um exemplo de como o envelhecimento ainda é um tabu difícil de ser lidado. A maioria das notícias e posts na internet trataram o assunto como algo divertido e curioso, nada além disso. No entanto, o que podemos ler nas entrelinhas é o sentimento resignado de que não há nada de bom na velhice, que faz coro ao preconceito contra a pessoa idosa.

Outro ponto é que em nenhum momento, as mídias tradicionais e de internet informaram que o Brasil vem tendo um processo avançado de envelhecimento da sua população. E que essa situação, segundo os especialistas, demanda a criação de políticas públicas e serviços privados de qualidade para atender a demanda.  A população brasileira com 65 anos de idade ou mais cresceu 26% entre 2012 e 2018, ao passo que a de até 13 anos recuou de 6%, segundo o IBGE. 

A onda do aplicativo, amplamente divulgado, se insere na necessidade de observarmos a importância dos meios de comunicação na construção das identidades culturais dos mais velhos e nas variadas formas de lidar com a velhice, tanto por parte dos idosos, quanto por suas famílias e outras instâncias da sociedade.

A própria Organização das Nações Unidas, em 2002, evidenciou a importância de os meios de comunicação  apostarem em uma imagem positiva do envelhecimento. E recomendou uma série de sugestões para atenuar o preconceito contra a pessoa idosa:

a) Elaborar e promover amplamente um marco normativo onde haja responsabilidade individual e coletiva de reconhecer as contribuições passadas e presentes dos idosos, procurando resistir a mitos e ideias pré-concebidas e, consequentemente, tratar os idosos com respeito e gratidão, dignidade e consideração;

b) estimular os meios de comunicação de massa a promover imagens em que se destaquem a sabedoria, os pontos fortes, as contribuições, o valor e a criatividade de mulheres e homens idosos, inclusive de idosos com incapacidades;

c) estimular os educadores a que reconheçam e incorporem em seus cursos as contribuições feitas por pessoas de todas as idades, inclusive as idosas;

d) estimular os meios de comunicação a transcender a apresentação de estereótipos e ilustrar a diversidade plena da humanidade;

e) reconhecer que os meios de comunicação são precursores da mudança e podem atuar como fatores de orientação na promoção do papel que toca aos idosos.

f) facilitar as contribuições de mulheres e homens idosos na apresentação de suas atividades e preocupações por parte dos meios de comunicação;

g) estimular aos meios de comunicação e os setores público e privado a evitar a discriminação por razões de idade no emprego e apresentar imagens positivas de pessoas idosas;

h) promover uma imagem positiva das contribuições das mulheres idosas a fim de aumentar sua autoestima.

Mulheres são alvos preferenciais dos estereótipos negativos contra a velhice nas mídias

É irônico e ao mesmo tempo triste constatar que duas das mais conhecidas mulheres no Brasil e no mundo, alavancadas pelos meios e pelas mídias sociais estão sofrendo ataques e preconceitos por conta do envelhecimento.

Foto: Divulgação, Instagram / Xuxa Meneghel / PurePeople

No início de julho, a apresentadora Xuxa fez um desabafo emocional.  “Com as mídias vejo que as pessoas estão amargas e bastante desrespeitosas. Quando eu apareço sem maquiagem, falam: ‘nossa, como você está velha! E esse cabelo? Não vai ter mais jeito, não vai deixar crescer?’ São umas coisas absurdas. Eu fico imaginando elas escrevendo do outro lado, colocando todo ódio delas em cima de uma coisa que está me fazendo muito bem”.

Já a cantora Madonna, que completou 60 anos, foi mais contundente quanto às críticas que vem sofrendo “Envelhecer quase parece um crime. Você não tem como vencer”. Uma das questões, porém, a se levantar quanto às reclamações das duas celebridades é porque elas não se preocuparam com a situação antes da vinda da velhice.

Segundo a psicóloga Gisela G. S. Castro “o desrespeito ao idoso pode ser constatado ainda em certas produções midiáticas onde sua imagem é acionada na tênue fronteira entre o humor e o escárnio. Não é incomum que o humor autodepreciativo revele o preconceito do idadismo entre os próprios idosos, que não estão imunes às mesmas pressões sociais que constituem significados negativos em relação à velhice. Quando todos são instados a querer ser e parecer jovens, o envelhecimento se torna um problema e seus sinais passam a ser encarados como inconvenientes. São abundantes os reality shows de transformação da imagem pessoal que promovem a pedagogia social do rejuvenescimento. Tampouco é infrequente nas cintilantes imagens digitais de celebridades, intervenções estéticas que desafiam a prudência e o bom senso.”

Será preciso mais do que um tratamento melhor sobre idoso nas mídias

Estudo recente publicado na Revista Americana de Saúde Pública (AJPH), sobre o preconceito contra os idosos demonstrou que além da cobrança por uma cobertura menos negativa pelas mídias, será necessária um trabalho que combine elementos de educação e contato intergeracional,  e conscientização dos profissionais de saúde que são também fonte da imprensa e da opinião pública.

“Intervenções que combinavam elementos de educação e contato intergeracional tiveram o maior efeito sobre as atitudes das pessoas em relação aos adultos mais velhos. Além disso, as intervenções tiveram um efeito mais forte sobre as faixas etárias das mulheres, bem como adolescentes e adultos jovens. Este estudo sugere que intervenções viáveis, relativamente de baixo custo, devem ser adotadas como parte de uma estratégia internacional para reduzir o preconceito de idade.” Sugerem os especialistas.

O estudo demonstrou ainda “que as atitudes negativas em relação ao envelhecimento representam um risco significativo para a saúde e bem-estar nos últimos anos.  A adoção de atitudes negativas generalizadas em relação ao envelhecimento contribui para o risco de mortalidade, saúde funcional precária e recuperação mais lenta da doença. Manter percepções negativas sobre o envelhecimento também prediz a saúde mental deficiente.”  

Outra constatação foi de que “o envelhecimento dos profissionais de saúde também pode resultar em práticas discriminatórias que colocam as pessoas idosas em risco. Estudos têm encontrado atitudes negativas generalizadas em relação a idosos e velhice entre médicos, estudantes de medicina e enfermeiros… Assim, o estereótipo de idade e o preconceito entre os profissionais de saúde podem afetar a qualidade e a quantidade de atendimento que os idosos recebem e, por sua vez, levam a resultados negativos na saúde.” 

(*) Enio Taniguti é jornalista pela Faculdade Cásper Líbero com pós-graduação em comunicação pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Especialista em Assessoria de Imprensa, estratégia e planejamento em comunicação e produção de conteúdo para web. E-mail: eniotaniguti62@gmail.com


Texto reproduzido com autorização do Blog Envelhecer Digno, do qual Enio Taniguti é criador, assim como da página do facebook com mesmo título. Foto de destaque: Divulgação, Instagram / Giovanna Ewbank / PurePeople


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