A música como prática terapêutica na Doença de Alzheimer

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O uso da música no manejo da Doença de Alzheimer auxilia na preservação do sentimento de identidade do sujeito e promove sensações de liberdade e afeto, possibilitando recordações de momentos agradáveis.

Em colaboração com Larissa Silva Costa (*)


O ser humano tem a capacidade de perceber a música (os sons, timbres, notas, melodias, harmonias e ritmos) de maneira integrada por meio da estimulação de regiões cerebrais. Por este motivo, a música tem sido alvo de pesquisas como forma de tratamento não farmacológico promotor de qualidade de vida em várias doenças neurológicas, dentre elas a Doença de Alzheimer. Esta doença é considerada como a causa mais comum de transtornos cognitivos maiores ou demências, sendo uma doença neurodegenerativa caracterizada pelo declínio progressivo das capacidades cognitivas – prejuízo da memória recente, dificuldade de prestar atenção, de associação e orientação, lentidão do pensamento e da capacidade de executar tarefas- causada pela morte de células cerebrais, os chamados neurônios, levando à atrofia cerebral.

Visto a limitação da eficácia e os efeitos colaterais das terapias farmacológicas atualmente disponíveis para tratar a Doença de Alzheimer, as terapias não-farmacológicas têm ganhado espaço, uma vez que podem produzir melhora psicológica, da qualidade de vida, do bem-estar físico e socialização. Dentre estas terapias, destaca-se a musicoterapia.

Terapias musicais envolvem atividades cognitivas e motoras relacionadas ao processamento musical, por meio da estimulação de funções como audição, coordenação motora e processos cognitivos e emocionais, estimulando a plasticidade cerebral – capacidade do cérebro de se remodelar em função das experiências do sujeito.

A musicoterapia diz respeito ao uso profissional da música e de seus elementos em espaços educacionais, terapêuticos, médicos e no cotidiano. O uso da música no manejo da Doença de Alzheimer objetiva atingir as faculdades cognitivas, emoções, memórias e pensamentos, de tal forma que a música auxilie na preservação do sentimento de identidade do sujeito e promova sensações de liberdade e afeto, possibilitando recordações de momentos agradáveis.

Música e Plasticidade cerebral

Diversos estudam demonstram que a experiência musical estimula atividades cognitivas e motoras que envolvem o processamento da música, principalmente através da estimulação das funções de audição, coordenação motora e processos emocionais. Desta forma, promove modificações estruturais no cérebro e o aumento da plasticidade cerebral, bem como o maior volume no córtex auditivo e maior concentração de massa cinzenta no córtex motor. Ainda, a prática musical aumenta a conectividade cerebral entre neurônios, principalmente envolvendo as funções cognitivas.

Música e Memória

O prejuízo da memória é um sintoma característico da Doença de Alzheimer. Entretanto, estudos revelam que a memória para músicas familiares pode se apresentar bem preservada mesmo em estágios da doença avançado. Os estudos demonstram que informações de letras quando acompanhadas de melodias podem ser facilmente lembradas quando comparadas com apenas palavras faladas.

Música, Ansiedade, Humor e Comportamento

Os altos níveis de cortisol no organismo estão relacionados com o estresse e sintomas de ansiedade e depressão. Estudos demonstram que a musicoterapia, utilizada no trabalho individual ou em grupo, pode propiciar melhoras em sintomas de ansiedade e depressão, já que influencia o humor. Também promove a diminuição de distúrbios comportamentais relacionados aos estressores ambientais e nos causados pela própria progressão da doença, que levam à menor tolerância ao estresse. Ou seja, a música atua nos níveis de cortisol, minimizando o estresses e seus sintomas. Desta forma, traz sentimentos e emoções relacionados ao bem-estar e felicidade.

Deve-se destacar que o uso da arteterapia associada à música, demonstra melhoras na função cognitiva e no escore depressivo.

Referências

Lopes, Gabriella Katherine; Porto, Helena Camargo; Spera, Isabella Veroneze; Marques, Jamile Silva; Brandão, Juliana Domingues; Souza, Leonardo Carvalho de; Manso, Maria Elisa Gonzalez; “Capacidade funcional do idoso com demência de Alzheimer: O papel da musicoterapia”, p. 56-64. In: Anais do VII Congresso Médico Universitário São Camilo. São Paulo: Blucher, 2020.

PASSOS E MARTINS, Heloisa; QUADROS, Laura Cristina de Toledo. A música como agente terapêutico no tratamento da Doença de Alzheimer. Psicol. pesq., Juiz de Fora, v. 15, n. 1, p. 1-22, mar.  2021.   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1982-12472021000100005&lng=pt&nrm=iso>.

FERREIRA, Maria Fonseca Soares et al. Musicoterapia em pacientes com Doença de Alzheimer – uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Musicoterapia – Ano XXII n° 28 ANO 2020 FERREIRA, Maria Fonseca Soares, et.al. Musicoterapia em pacientes com doença de Alzheimer – uma revisão sistemática (p 31- 52). Disponível em: < https://www.revistademusicoterapia.mus.br/wp-content/uploads/2020/12/MUSICOTERAPIA-EM-PACIENTES-COM-DA.-FERREIRA-et-al.pdf>.

(*) Larissa Silva Costa é estudante de do curso de graduação em Enfermagem, do Centro Universitário São Camilo, São Paulo, e estagiária no Programa Bolsa Talento.

Foto destaque de Anna Shvets/Pexels


https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/estimulacao-cognitiva-introducao/

Maria Elisa Gonzalez Manso

Médica e bacharel em Direito, pós-graduada em Gestão de Negócios e Serviços de Saúde e em Docência em Saúde, Mestre em Gerontologia Social e Doutora em Ciências Sociais pela PUC SP. Orientadora docente da LEPE- Liga de Estudos do Processo de Envelhecimento e professora titular do Centro Universitários São Camilo. Pesquisadora do grupo CNPq-PUC SP Saúde, Cultura e Envelhecimento. Gestora de serviços de saúde, atua como consultora nas áreas de envelhecimento, promoção da saúde e prevenção de doenças, com várias publicações nestas áreas.

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