A mulher que canta

A mulher que canta, a número 72, é a protagonista de “Incêndios” (2010, Direção de Denis Villeneuve), um filme que conta a triste história de Nawal Marwan (Lubna Azabal).

 

Canadá. Jeanne e Simon são irmãos gêmeos e acabaram de perder a mãe, Nawal Marwan. Eles vão ao escritório do tabelião para saber do testamento deixado por ela. No documento, Nawal pede que seja enterrada sem caixão, nua e de costas, sem que haja qualquer lápide em seu túmulo. Ela deixa também dois envelopes, um a ser entregue ao pai dos gêmeos e outro para o irmão deles. Apenas após a entrega de ambos é que Jeanne e Simon receberão um envelope endereçado a eles e será possível colocar uma lápide. Só que Jeanne e Simon nada sabem sobre a existência de um irmão e acreditavam que seu pai estava morto. É o início de uma jornada em busca do passado da mãe, que os leva até a Palestina.

Garotos feridos na carne e na alma, um deles se destaca. Olhares, perdidos, talvez um ritual de morte. A câmera passeia pelas botinas de guerrilheiros e pés de meninos, feridos, sujos e descalços. Marcas, três pontos tatuados no calcanhar direito. Uma mistura de impotência, submissão e resignação. Que olhar ameaçador será esse que se lança sobre nós?

Assim é “Incêndios” (2010, Direção de Denis Villeneuve) um filme que conta a triste história de Nawal Marwan (Lubna Azabal). Eles vão ao escritório do tabelião Jean Lebel (Rémy Girard) para saber do e sua inevitável tragédia – ironia de um destino implacável.

Em tempos de intolerância, temos muito a aprender no percurso trilhado pelos filhos gêmeos, Simon e Jeanne, em busca da história da mãe, mas atenção: toda verdade tem seu preço. Será que a ignorância dos fatos os protegeria? Bem, fica para você refletir.

Um envelope lacrado é rompido: revelações…

Bruscamente, a cena muda. Agora estamos numa sala entulhada de arquivos, papéis, suas histórias e seus respectivos segredos. A música inunda, mais uma vez, os espaços. E a câmera retorna para outro tempo, outro país, outro local. Passado e presente se mesclam num emaranhado de dúvidas e descobertas.

Diz o testamento de Nawal Marwan “Todos os meus bens serão divididos entre os gêmeos (Jeanne Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim). O dinheiro será dividido igualmente e meus móveis distribuídos de comum acordo”.

Quanto ao sepultamento: “O tabelião Jean Lebel deve me sepultar sem caixão, nua e, sem orações. O rosto virado para o solo, de costas para o mundo”.

Quais seriam seus pecados para tamanha punição? Uma nudez sem qualquer acolhimento, os olhos voltados para o nada e, por fim, a negação de uma vida que poderia ter sido e não foi. O que terá acontecido na vida dessa mulher desconhecida, catatônica, envolta num xale de profunda melancolia?

Lápide e epitáfio: “Não haverá lápide na minha sepultura, nem meu nome será gravado. Não há epitáfio para aqueles que não cumprem suas promessas”. É como se Nawal não tivesse passado por esse mundo de tão escassa generosidade.

Penso que nossas últimas palavras, aquelas que verdadeiramente ficam – se, ao acaso, não nos revelam – nos despem, nos fragilizam e, mesmo assim, nem a isso a valente Nawal se permitiu. Sem registros, nada. Apenas a expiação.

À Jeanne e Simon: “A infância é uma faca entalada na garganta. Não se remove facilmente. Jeanne, este envelope é destinado a seu pai. Encontre-o e entregue o envelope a ele. Simon, esse envelope é destinado ao seu irmão. Encontre-o e entregue o envelope a ele. Quando esses envelopes forem entregues a seus destinatários, uma carta lhes será dada. O silêncio será quebrado, uma promessa será cumprida e uma lápide poderá ser colocada sobre a sepultura, e o meu nome gravado sobre a lápide”.

Diante disso, a lança será libertada e a dor da realidade subjugada à verdade, por mais cruel que seja a revelação: saber que um mais um é um. Você entenderá no final de tudo…

Mergulhando no passado da mulher que canta, rumo à Palestina…

Nawal, ainda moça, abraça um jovem, seu namorado Wahab, em meio às ruinas e à destruição. Eles parecem fugir, mas a intolerância e a violência, incrustradas na alma dos homens, falam mais alto, gritam aos quatro cantos dos corações apaixonados dos amantes e o pior, infelizmente, acontece.

“Afaste-se de minha irmã. Filho de refugiados, aonde você pensa que vai?”

Para Nawal não houve clemência. Ela “maculou a honra da família”. A seu favor: ninguém. Até Deus se calou.

Do amor dos jovens e da incompreensão dos homens que fazem a guerra, nasce um bebê. E seu batismo será a tatuagem de três pontos no seu calcanhar. “Olhe bem para sua mãe. Você precisará reconhecê-la”.

– Nawal: Vou encontrá-lo um dia. Eu lhe prometo, meu coração.

Jeanne em busca da história da mãe, de sua própria história…

Uma pista, um amigo de seu professor, quem sabe: “não posso ajudá-la, porque naquela época, eu lecionei história da Matemática em Paris. Especialmente, o período em que Leonhard Euler conseguiu dar a primeira resolução matemática formal ao problema das sete pontes de Konigsberg. Ele teria desafiado Diderot ao tribunal com esta afirmação:

“Senhoras i ao quadrado + 1 é igual a zero. “Portanto, Deus existe!””

Sim, uma esperança, um sinal, “Ele” está aqui, “Ele” não nos abandonou. Será?

E as peças do quebra-cabeça vão aos poucos se encaixando. Uma foto de sua mãe revela que ela esteve na terrível prisão Kfar Ryat e mais revelações.

 Um passado aterrador…

– Nawal: Nós, os estudantes, somos contra o Partido Nacionalista que tenta expulsar os refugiados para além-fronteiras.

– Jovem: O partido nacionalista apoia as milícias da direita cristã, que fazem ameaças abertas aos refugiados.

– Nawal: No Sul, os refugiados estão armados agora. E tem o apoio de uma grande parte da população muçulmana do país.

– Jovem: Mas você… mas você é cristã.

– Nawal: Nós somos pela paz. A religião não tem nada a ver com isso.

Uma mulher além de seu tempo e de sua realidade. Alguém que, de fato, conhece a semente da intolerância e que, contra ela, luta pela paz, pela harmonia das diferenças, pelo amor na busca incansável de um filho perdido em meio à guerra dos homens maus.

De orfanato em orfanato, só ruína e morte, e nem sinal do pequeno, apenas desespero.

Na busca, Nawal se refugia nos escombros da destruição e lá fica. São cenas de uma cidade mergulhada na guerra com seus homens impiedosos, armados de ódio e rancor: são as faces que carregam o fim da esperança no ser humano. Onde estaria Deus neste momento?

– Nawal: Procurei por meu filho no meio de ondas de sangue. Eu não vou me consolar com o que tenho visto e ouvido. Meu filho foi engolido pela guerra. Eu não tenho nada a perder. Meu ódio é grande contra os nacionalistas. Meu tio acreditava incentivar a paz com palavras e livros. Eu acreditava. A vida me ensinou outra coisa.

– Um certo homem: O que você faz agora?

– Nawal: Ensino ao inimigo o que a vida me ensinou.

E um tiro acaba por selar seu destino. Nawal permanecerá na prisão por 15 anos.

A mulher que canta, a número 72, a mulher que matou o líder da milícia da direita cristã foi estuprada diversas vezes pelo carrasco Abu Tarek, um especialista em tortura. Toda perversidade para que ela parasse de cantar.

No final, a 72, acabou grávida de Abou Tarek. Como disse, às vezes é melhor não saber de tudo.

Concluída a longa caminhada, as cartas são entregues: “eu digo que a sua história começa com uma promessa, e da ruptura do sentimento de raiva. O fio está rompido e eu posso finalmente ter tempo de embalá-los, de cantar baixinho uma canção de ninar para consolá-los. Nada é mais belo do que estarmos juntos”.

Na lápide, a inscrição “Nawal Marwan”

“1949-2009”

 

 

 

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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