A Morte, a Arte e nós, profissionais das Velhices

Há tempo trabalho com idosos, mas ainda não aprendi a lidar com a ideia de que eles, de uma hora para outra, partem para voos solos. Nós, profissionais da Gerontologia, estudamos e elaboramos as questões da morte com maestria, mas viver o fim dos idosos do nosso convívio profissional, não é tarefa fácil, ainda mais para os profissionais, que como eu, apostam no afeto acima de qualquer distanciamento.

 

Havia acordado sem saber bem como abordar o tema que estava me sufocando há quatro dias.

Há tempo trabalho com idosos, mas ainda não aprendi a lidar com a ideia de que eles, de uma hora para outra, partem para voos solos. Nós, profissionais da Gerontologia Social, estudamos e elaboramos as questões da finitude com maestria, mas viver o fim dos idosos do nosso convívio profissional, não é tarefa fácil, ainda mais para os profissionais, que como eu, apostam no afeto acima de qualquer distanciamento.

Como no poema que minha bisavó costumava declamar quando era criança, minha borboleta Edith resolveu se libertar e voar para longe dos meus olhos.

Sexta-feira recebo uma mensagem de uma cuidadora lá do Centro Dia Público que trabalho: Você já deve estar sabendo o que aconteceu, não é?

Na hora soube, no meu coração, que alguma borboleta querida deveria ter voado alto. Achei melhor telefonar para ela, pois não tinha condições de ler e muito menos de digitar qualquer coisa.

A Edith morreu.

Não Márcia, disse eu. Ela esteve comigo ontem mesmo!

Tive que negar o acontecido, afinal quem esta tal morte pensa que é para levar embora alguém que estava comigo agora há pouco? Oras!

Nossa conversa continuou um tempo enquanto fazíamos uma tentativa de dissolver o nó na garganta e o choro entalado. E foi assim que passei o fim de semana, chorosa e inconformada.

Na quarta-feira estávamos juntas e ela pintava uma sacola de lona com o tema de Matisse. Havia sido um encontro interessante com os idosos bastante envolvidos com a proposta. Houve até um grito de guerra em conjunto onde todos diziam a palavra de ordem que rege nossos encontros: Liberdade!

Edith gritou alto.

Preparei a aula de História da Arte como faço todo sábado. Minha vontade era desistir de tudo, mas como? Agora é tarde. Meu caminho já foi traçado e eu já estou nele e envolvida até o último fio de cabelo.

Sabia que seria difícil prosseguir, pois os idosos deveriam estar todos abalados e eu também, afinal, foi ela quem me mostrou a importância de envolvê-los com a História da Arte. A cada aula via Edith se modificando enquanto se apoderava desse sentimento de importância que sentimos ao aprender algo novo. Nossa visita ao acervo do Museu de Arte de São Paulo, o MASP, semana anterior, comprovou o que percebia nas aulas: Idosos que aprendem algo novo se transformam em velhos melhores e mais interessantes. É fato. Edith respondia tudo o que perguntava e tinha a História da Arte na ponta da língua.

Logo nos nossos primeiros encontros, quando as aulas começaram, ela me disse algo que jamais esqueci: Eu me sinto voando. Ouvir isso de alguém que chegou ao Centro Dia com depressão e baixa autoestima foi gratificante demais.

Quando nossos ensaios fotográficos sobre as aulas de Arte Conceitual não foram aprovadas para uma exposição de arte, ela, para me consolar, disse o que também, jamais irei esquecer:

“Não queira que pessoas que não estudam História da Arte compreendam o que fizemos.”

Ouvir isso da boca de uma senhora de mais de 80 anos, encheu meu coração de certeza. Estava no caminho que deveria estar.

Por essas lembranças e por tantas outras, saber do voo solo desta borboleta foi um baque no estômago. Precisava continuar e terça-feira é dia de aula. Aula de História da Arte, a aula favorita da Edith e a minha atual e mais importante alavanca para impulsionar velhos e velhas para uma velhice mais digna.

Meu coração batia acelerado. Precisaria acolher cada face chorosa que iria encontrar e por saber que não seria fácil, tinha diversas cartas na manga para o momento.

Achei prudente começar com uma história.

Os escritores, poetas e linguistas Irmãos Grimm nascidos na atual Alemanha em 1785 e 1786, serviram como intermediários deste momento. A história da “Comadre Morte” foi contada por mim em meio a olhares que mal piscavam. Nós da Arteterapia usamos as histórias como preciosas ferramentas para acessar sentimentos muitas vezes inquietantes. E foi assim, na história, a Madrinha Morte se mostra onipotente e senhora de todos os destinos. Pudemos, por fim, compartilhar os nós das gargantas que pareciam sufocar de tristezas daqueles velhos e velhos que projetaram seus próprios fins, no fim da amiga. Envelhecer é para os fortes. Conviver com a finitude requer sabedoria e não desespero. Conversamos, muitos choraram e eu me segurava na Arte para não desabar. O tema abordado na história serviu de gancho para nossa aula de História da Arte. Tinha que ser assim, afinal, Edith era uma das minhas alunas mais assíduas e empenhadas. Não podia parar.

Na Arte muitos artistas pintaram a morte. Klint na obra Vida e Morte nos mostra a “Comadre” observando todo envolvimento da vida. Jovens, crianças e velhos são retratados juntos embolados em abraços e cores enquanto ali ao lado a morte espera o momento cinza de mostrar sua onipotência.

Já a Pietà de Michelangelo, famosa escultura encomendada em 1498 ao artista, representa, em mármore Carrara, a Virgem Maria segurando no colo Jesus morto. A escultura está no Vaticano e é a única obra assinada pelo artista.

Após olharmos as diversas pinturas e esculturas que tratavam do tema, encerrei a aula com um “tributo” à Edith. Entreguei então seu último trabalho a quem desejasse homenageá-la escrevendo na sacola feita por ela, algo que eles gostariam que ela levasse consigo neste novo caminho.

À Edith eu entrego minha eterna gratidão, afinal foi ela quem me mostrou a História da Arte como ferramenta engrandecedora de velhices. Foi ela, uma das responsáveis pelo projeto que ultimamente tenho tanto me empenhado: O Faça Memórias em Casa. Através dele tenho tentado libertar diversos velhos aprisionados por contratempos da vida.

Muitos escreveram e sua sacola “Matissiana” carrega agora a amizade e carinho de todos eles, idosos e cuidadores. A Arteterapia pode nos ajudar a suavizar e elaborar o acontecido. O nó no peito foi desfeito.

Vá em paz enquanto nós, aqui, continuamos nossa jornada com os olhos inchados, mas com o coração aliviado.

Que teu voo seja alto, lindo e transformador. Nós seguimos em frente berrando nosso grito de guerra com a força que vem dos desejos e não da voz: Liberdade!

A Arte te fez livre e você me encheu de vontade de replicar a tua sensação para outros velhos que, assim como você, estão sedentos por vida.

Vá em paz. Vá viver a liberdade conquistada, que um dia, nós borboletas, seguiremos teu voo.

No mais, meu muito obrigada. Nosso encontro foi modificador.

Daqui a pouco preparo a aula da semana cujo tema foi um pedido seu.

O colombiano Botero será nosso convidado.

Sem choro, sigo em frente. Em algum lugar do meu coração poderei ter você presente nas nossas aulas. A vida segue e nem todos se libertaram ainda.

Voa, mas voa alto!

 

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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