“A maior característica da URSI é o acolhimento… e vocês fazem esse acolhimento muito quente”

Tempo de Leitura: 4 minutos

O afeto, a receptividade, o amparo e o calor são características marcantes do Saberes e Sabores, que tem como característica o acolhimento.

Beatriz Souza Bittar (*)


A escolha do título dessa crônica(1) não foi arbitrária. Muito pelo contrário, foi completamente intencional. A frase em questão consiste na fala de Amélia, uma das participantes do grupo “Saberes e Sabores”, coordenado pela Unidade de Referência à Saúde do Idoso (URSI) Geraldo de Paula Souza, do qual tenho privilégio de fazer parte. Essa frase é, para mim, extremamente simbólica, pois foi assim que me senti, do começo ao fim, no encontro do dia 5 de novembro de 2020.

Faz algumas semanas que o hábito de programar o despertador para às 8h30 de quinta-feira é muito mais motivo de alegria e animação do que de preguiça matutina. Para mim, pouco entusiasta das manhãs que começam cedo, levo isso como um bom sinal. Levanto-me da cama e corro para o banho, momento indispensável para meu despertar. Enquanto a água cai sobre mim, penso que faltam alguns minutos para o início da chamada de vídeo com as minhas “amiguinhas” – modo como uma das participantes do “Saberes e Sabores” se direciona às demais, à nós. Me sinto ansiosa, de um jeito positivo. Aquela ansiedade motivadora, não aquela que paralisa.

Ajeito meu celular e meu computador, ferramentas indispensáveis para a participação nos encontros e, antes do início do grupo, recebo uma mensagem de uma das supervisoras. Nesta mensagem, Margarida me pede para ligar para Rosa, participante que apresenta frequentes dificuldades para ingressar nos encontros devido a sua falta de familiaridade com a tecnologia. Me prontifico a entrar em contato com Rosa que, para minha surpresa, atende e responde: “Bia! Consegui entrar sozinha hoje!”. Faço questão de marcar sua fala com exclamações, pois sua felicidade ao me informar dessa conquista era evidente. Fico extremamente contente com essa notícia, porque acredito ter contribuído para esse momento alegre através do tutorial que elaborei algumas semanas atrás.

Aquele dia era particularmente especial para nós. Seria o primeiro dia em que todas as participantes do grupo iriam conhecer a nova integrante, Amélia, que demorou a ingressar devido a dificuldades semelhantes às de Rosa. Amélia me mandou mensagem dizendo: “Querida, não consigo entrar de jeito nenhum. Não sei mais o que tentar diferente…”. Me prontifiquei a ligar para ela que, em meio a diversas tentativas, não atendeu o telefone. Sugeri então que, para que pudéssemos acolher Amélia. de maneira adequada, tentássemos realizar o encontro por meio de outra plataforma. Esta ideia foi prontamente aceita por todas.

Passamos do WhereBy para o Google Meets, do Google Meets para o Zoom que, no final de alguns minutos e muitas tentativas, se mostrou a melhor ferramenta. Amélia entrou com facilidade e, assim que conseguiu ligar seu microfone e sua câmera, abriu um sorriso de orelha a orelha e disse: “Meu deus como estou feliz! Olha só todas vocês! Para quem não me conhece, meu nome é Amélia”. Em seguida, uma salva de palmas marcou esse encontro. Todas nós, extremamente emocionadas, recebemos calorosamente a nova integrante.

Na minha opinião, essa recepção não poderia ter sido diferente, uma vez que o afeto, a receptividade, o amparo e o calor são características marcantes do Saberes e Sabores. Em um dia marcado por conquistas, Tulipa, outra participante do grupo diz à Amélia: “Espero que você goste daqui. Essa é uma experiência muito boa que a gente nem sabia que era capaz”.

Retomo, então, a centralidade da fala de Tulipa que intitula essa crônica. Em poucos minutos de grupo, ela pode sentir o acolhimento e o calor que marcam o amparo promovido pela URSI, da qual, hoje, me sinto parte. Não acredito existir sentimento mais gratificante que esse para uma estudante de psicologia em sua primeira experiência com acolhimento grupal. Carregarei com muito carinho e significado as frases e sensações que permearam a minha manhã do dia 5 de novembro de 2020.

Notas
(1) Segundo Broide (2015): “O cronista, esse que escuta para escrever, vive de se expor nas palavras ora cadentes, ora insípidas que escolhe. Dispor-se essa tarefa é um desafio constante, mas irrecusável. Nosso desejo pela questão da escrita está à flor da pele, e precisa estar, para suportar os novos desafios de um lugar em construção, outro espaço de circulação da palavra – e dos desejos. (Miranda et. al., 2006)”

Referências
Broide, J., & Broide, E. E. (2015). A psicanálise em situações sociais críticas: metodologia clínica e intervenções. São Paulo: Escuta.
Miranda, A. B. et al. (2013). Cronista: um lugar em construção: a escuta inscrita e escrita em uma função. Porto Alegre: Correio APPOA.

(*) Beatriz Souza Bittar – A produção a seguir retrata a minha experiência, enquanto aluna da disciplina de Estágio Básico II (6º período) do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com a profa.  Ruth G. da C. Lopes. Refere-se a minha participação como cronistatyryyy e estagiária do grupo “Saberes e Sabores” organizado pela Unidade de Referência à Saúde do Idoso (URSI) Geraldo de Paula Souza, no dia 05 de novembro de 2020. Todas as integrantes do grupo citadas nesta produção tiveram seus nomes reais substituídos por fictícios visando preservar sua privacidade e integridade. E-mail: [email protected]


Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: [email protected]

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