A indústria da doença

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A política contra o tabagismo no Brasil tem dado passos importantes no sentido de proteger a saúde das pessoas. Falta, ainda, uma política clara que suporte a reconversão produtiva dessa commodity agrícola e garanta condições dignas de trabalho e renda para as famílias que se dedicam ao seu cultivo. Só assim esse mercado da doença poderá ser enfrentado e vencido.

José Agenor Álvares da Silva(*)


A ciência é implacável. Do alto de sua onipotência aponta para a humanidade os caminhos que podem redundar em malefícios ou benefícios para as pessoas. O caso do tabaco é emblemático para mostrar o papel da informação em contraponto à publicidade maciça que preponderou sobre os benefícios aos consumidores dos produtos derivados do tabaco, notadamente, o de maior comercialização mundial: o cigarro.

Do início do século passado até meados dos anos 1960, a indústria da doença desenvolveu estratégias de marketing para promoção de produtos que vendiam a ilusão de glamour do “fumando espero”, da sofisticação social do “hábito de fumar” e ícone sexual para toda uma geração. Aos poucos, a ciência foi rompendo a máscara da desfaçatez e desnudou esse segmento ao provar, com dados irrefutáveis, que essa é a maior máquina de matar existente no mundo.

Existe uma forte conexão entre produtos de uso humano e doenças não transmissíveis. Vários governos nacionais, inclusive o Brasil, têm envidado esforços no sentido de requerer responsabilidade social dos grandes produtores industriais com relação a produtos potencialmente nocivos à saúde humana.

A indústria do tabaco fideliza seu produto pela dependência química e psicológica do consumidor à nicotina. Responsabilidade social não faz parte do ideário desse segmento. Além dos malefícios de seu produto para a saúde dos consumidores dependentes, constatam-se prejuízos maiores no processo de trabalho empreendido pelos produtores rurais, estimulados a plantar tabaco em uma estrutura de total dependência técnica e comercial à indústria do tabaco.

A exploração econômica na aquisição da folha de tabaco é uma realidade só não vista por aqueles comprometidos, única e exclusivamente, com os lucros dessa indústria. A exploração física do agricultor no manejo dessa cultura é maior ainda. A depender do período do ano, o trabalhador passa noites a fio sem o direito de “pegar no sono”, depois de um dia exaustivo de trabalho. Isso porque, é preciso manter a temperatura das estufas de secagem no nível ideal para garantir qualidade da folha do tabaco. Caso contrário, a indústria tabaqueira rejeita o produto, a dívida no banco se acumula e o agricultor fica aprisionado nos grilhões do aval da indústria.

Apesar desse cenário sombrio, ainda existe mal maior para o desenvolvimento dessa atividade, a exposição direta dos agricultores e familiares na colheita e transporte da folha verde de tabaco. Sempre é bom lembrar que o plantio da folha de tabaco está circunscrito a uma categoria de agricultores familiares que se distingue da agricultura familiar tradicional por cultivar um produto para um único comprador, a indústria tabagista.

A alta concentração de nicotina presente na folha verde, transportada nos braços dos trabalhadores rurais e até por crianças, agride direitos elementares de cidadania como a proteção à saúde e a condições adequadas de trabalho. Negar esses direitos aos trabalhadores é negar sua própria existência.

A ciência desvendou e pôs a nu os subterfúgios utilizados pela indústria do tabaco para fidelizar consumidores aos seus produtos. A política contra o tabagismo no Brasil tem dado passos importantes no sentido de proteger a saúde das pessoas. Falta, ainda, uma política clara que suporte a reconversão produtiva dessa commodity agrícola e garanta condições dignas de trabalho e renda para as famílias que se dedicam ao seu cultivo. Só assim esse mercado da doença poderá ser enfrentado e vencido.

(*)José Agenor Álvares da Silva – Membro da Comissão de Ciência e Tecnologia da Abrasco. Disponível em: Vigilância Sanitária

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