A imensidão do mar

Tempo de Leitura: 4 minutos

O mar é tão imenso quanto seus desejos e os mergulhos barulhentos demonstram uma certa felicidade que ele, na sua quase velhice, aprendeu a não reprimir já que a maturidade ensina que a vida pede entrega e viver mais ou menos é não viver por inteiro.


Estremecerei de susto até dormir, e, no entanto, é tudo tão pequeno. Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota. (Adélia Prado)


Nada como um bom mergulho para revigorar os ânimos afetados por esta pandemia que não se acaba. O mar é tão imenso quanto seus desejos que parecem encontrar nas profundezas uma delícia que não se cansa de existir na natureza de seus olhos que refletem o tom esverdeado do mar. Em sua imaginação o balançar das águas parece dançar com seu rosto que sente o arder da espuma na pele. Tudo é diversão no momento de adentrar nas águas para emergir da profundidade que diferente de outras tantas não causa sofrimento, apenas alegria.

Os mergulhos barulhentos demonstram uma certa felicidade que ele, na sua quase velhice aprendeu a não reprimir já que a maturidade ensina que a vida pede entrega e viver mais ou menos é não viver por inteiro.

O mar revolto respinga suas águas ao bater em seu corpo subversivo que se recusa a aceitar qualquer escassez imposta pela vida que o impeça de se entregar de peito aberto ao tanto do tão pouco que ele quer, afinal o que lhe encanta é saber que a imensidão de cada gota é que formará a grandeza absoluta.

E assim tem sido durante todo esse tempo de convívio e como companheira observo esse vai e vem da maré e esse seu jeito escandaloso de mergulhar no mar. Confesso que vejo um pouco de exagero nisso tudo e algumas vezes, dependendo do meu humor, seguro a língua para não perguntar:

-E aí? Tava bom o mergulho?

Me calo, afinal os ânimos não estão pra peixe em tempos de uma pandemia que não se finda. Melhor não falar nada.

Com um pano na mão entro no banheiro para secar o oceano que se formou na pia durante o tal evento de fazer a barba para a reunião virtual.

– Você pode ficar com as cachorras e tentar fazer com que elas não latam?

Ui, e agora? Como proceder? Estrela late até para o vento e não será fácil convencê-la a ficar quieta; já Aurora fica inconformada com o isolamento imposto pela situação e ela que só quer ser a cachorrinha de alguém, não aceita ficar fisicamente longe de quem escolheu para seguir pela vida repleta de passeios, banho nas poças, carinho e paparico.

Escolho então me trancar com elas na pequena sala de televisão, lugar mais aconchegante da casa.

Uma poltrona de balanço embala meus tantos sonhos para uma velhice que logo mais estará por vir.

Aurora, de tristeza entra na sua casinha almofada para aproveitar o escurinho do momento. – Sem ele, não tem graça e nada faz sentido.

Seu olhar fala comigo e na minha mente Dona Esther se faz presente em flashs de absoluta escuridão e depressão vivida por ela depois da morte do marido.

– Sem ele não tem graça e nada faz sentido dizia a pequena senhora ao grupo de idosos de seu convívio.

A porta da salinha dá para o jardim interno da casa que enfeita meus dias assim como as pinturas naifs enfeitam as paredes da tal saleta.

Trancada com as cachorras, o vento lá fora desnorteia as arecas do jardim e Estrela que não se reconhece como cachorra, preguiçosamente se esparrama no puff do meio da sala para ouvir seu compositor favorito que toca na playlist do meu celular e assim ouvindo Bach nos conectamos ao divino como numa prece.

Sentada no bailar da poltrona de balanço penso em Dona Regina que ia ao Centro Dia adocicar seu sono com a doçura dos amigos.

– Deixa ela dormir o cochilo do avanço da idade. São 98 anos vivendo no fogo.

Mais um balançar da cadeira e aterrizo na realidade da hora.

Estrela cansa de ser compreensiva, Aurora arranha a porta para sair e por sorte a reunião termina, hora de libertar as feras, levantar da poltrona e embalar a própria vida.

O vento sopra nos pelos das cachorras que fecham os olhinhos para desfrutar do momento em que a vida se faz em ventania. Tudo é movimento e ai de quem ficar parado.

Passeio pelo jardim e recolho as folhas da areca que o vento derrubou e percebo a força existente até nas coisas que não vemos. Sinto o ventar e olho meu marido brincar com as cachorras.

Amanhã certamente a história se repete na imaginação que mergulha no viver dos dias.

O mar vai além da pia do banheiro.

Foto: arquivo pessoal


Narrativas
https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/narrativas-autobiograficas/

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: [email protected]

cristianetpomeranz escreveu 82 postsVeja todos os posts de cristianetpomeranz