A história de Francisca

Tatiana, filha de Francisca, nos dá a conhecer neste relato uma história de superação de toda uma vida, afinal, viver implica em muitos riscos, muitos imprevistos e também muita resiliência. Francisca é o retrato de muitas velhices invisíveis deste país afora e que precisamos conhecer.         

Tatiana Maria (*)


Minha mãe, Francisca Telina, sempre foi uma pessoa muito forte, sorridente e muito animada, preguiça não existia para ela, trabalhava desde a sua infância como a maioria dos nordestinos nascidos na década de trinta. Ela nasceu em 07 de agosto de 1937, no estado do Ceará.

Quando bem jovem, aos 15 anos, sofreu um acidente que lhe cegou o olho esquerdo, ao quebrar um galho uma das farpas acertou o seu olho causando a cegueira. Os recursos financeiros para a família dela – seus pais e seus onze irmãos – sempre foram poucos e quando se tinha um caso de doença era só entregar pra Deus e orar para que o pior não acontecesse.

Também na adolescência após ir dormir com uma dor de cabeça sofreu um derrame onde acordou com os cabelos impregnados de sangue e o seu lado esquerdo do rosto com sangue seco, fato que lhe causou medo, mas graças a Deus sem nenhuma sequela.

Os anos se passaram, veio o casamento e as filhas.

Dona de casa, costureira, bordadeira, manicure, cabeleireira, sacoleira, salgadeira, vendedora ambulante, feirante e artesã, sim, essas foram as profissões de minha mãe, que nunca tirou férias e também nunca conseguiu juntar fortuna, porém sua riqueza era a sua alegria e família.

Logo no início da década de 90, minha mãe trabalhava como vendedora autônoma, viajava para São Paulo e revendia produtos de cama, mesa e banho, foi nessa época que ao ir entregar uma encomenda quando se levantou do assento do ônibus o motorista freou bruscamente e ela bateu o seio esquerdo em um ferro, a dor foi imediata, no outro dia o seio estava com um hematoma preto e ela sentia dor, então se automedicou com analgésico e pomada.

Alguns meses depois sentiu um “caroço” no mesmo seio e ao ir procurar o atendimento médico depois de uma série de exames foi confirmado a doença que ninguém ousava nem pronunciar o nome “câncer de mama”. Foi um choque. Toda família adoeceu.

Eu não entendia muito bem a gravidade, pois tinha apenas 12 anos, mas depois de ouvir a conversa do meu pai e minha mãe, e notar que os olhos dele estavam escorrendo lágrimas e seu rosto vermelho como um tomate, percebi que era grave, então fui para o meu quarto e chorei muito, queria morrer primeiro que ela (como se ela fosse morrer logo), prendia a respiração de propósito para morrer, batia a cabeça na parede e chorava cada vez mais, resultado: crise de asma. Passei a semana doente tomando nebulização e toda vez que eu lembrava daquela doença, sentia muita pena da minha mãezinha.

Minha irmã do meio entrou em depressão aos 14 anos, chorava toda hora, teve que ir ao psicólogo, a minha irmã mais velha também estava deprimida, mas ela era mais forte e sempre conversava com a gente para ajudar a minha mãe em tudo.

Então começou as sessões de quimioterapia, que sofrimento.

Um dia, ao chegar da escola, minha mãe estava sentada na máquina de costura fazendo as próprias toucas, isso me fez chorar, senti uma dor na barriga terrível e não queria acreditar que ela estava com aquela doença tão grave.

Ouvia minha mãe dizer “hoje é a vermelha, hoje é amarela”, creio que era as ampolas de químio.

Ver alguém que era a sua fortaleza tão frágil é horrível, em meio a vômitos, dores, sonolência e fraqueza, a única opção era orar a Deus.

Minha mãe nunca se entregou e lutou como uma verdadeira guerreira, não tínhamos carro na época, então ela ia para as consultas e quimioterapias de ônibus, voltava passando mal, mas nunca desistiu.

Então veio a cirurgia, onde foi preciso retirar a mama esquerda por completo.

Lembro-me dela gemendo de dor durante a noite e meu pai sentado a beira da cama conversando com ela para tentar acalmá-la e distraí-la.

Agora era uma nova fase, recuperação, rotinas de consultas para acompanhamento e fé em Deus.

A nossa casa sempre com visitas e todos com uma planta que curava a doença, simpatias, histórias motivacionais, exemplos, remédios, orações, etc.

Minha mãe, apesar de fragilizada, estava sempre animada e em momento algum se entregou.

Os anos foram passando, o acompanhamento com o médico e os exames foram repetidos e o diagnóstico?

Totalmente curada! Glória a Deus.

Hoje ela está com 81 anos e mora atualmente em Brasília.

Foto tirada em fevereiro de 2019, no aeroporto de Brasília

(*) Tatiana Maria V. de Menezes, serviço social, caçula de três, cuidadora principal. Fotos: arquivo familiar. E-mail:tatamvmenezes@yahoo.com.br.


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