A história da bolsa

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O que faz sentido para você? Para mim, é escolher algo que tenha ligação com minhas origens ou com lugares que me trazem lembranças relevantes. Por isso escolhi, da minha história, um córrego, o de Lavapés, que atualmente jaz canalizado, e, de agora em diante, passo a ostentar o título de “Barão de Lavapés”.

Escrito por Barão de Lavapés


Cansado de ver meus grandes feitos e conquistas ignorados pelos meios de comunicação e como sou descendente da linhagem intelectual direta do Barão de Itararé, resolvi imitá-lo atribuindo-me um título de nobreza. Escolhi me auto condecorar Barão, por se tratar do nível inicial da escala hierárquica e começar por baixo é sempre uma boa política. Complementar o título foi objeto de profunda pesquisa, pois é de bom tom que a escolha recaia sobre uma batalha ou algum ente geográfico de relevância. Não convivi com batalhas em meu país ao longo da minha vida. É claro que não estou considerando aquelas contra regimes totalitários que, ao que parece, têm sido apagadas por entidades empenhadas em mudar o passado.

Portanto, sobra a geografia física e só faz sentido escolher algo que tenha ligação com minhas origens ou com lugares que me trazem lembranças relevantes. Por isso escolhi um córrego, o de Lavapés, que atualmente jaz canalizado, e, de agora em diante, passo a ostentar o título de “Barão de Lavapés”.

Onde se localiza o córrego de Lavapés pouco importa, desde que o contexto seja compreendido. Minha lembrança dele é que era um fio de água tênue, atravessando a parte ainda desabitada de um bairro classe média baixa, em uma cidade interiorana.

A lembrança não é das melhores, pois no verão, em dias de chuva forte, o fio de água se transformava em um córrego mais largo e denso, transformando nosso campo de peladas em brejo. Apesar disso, havia um lado divertido, a bola ficava pesada e encharcada e, para ser chutada, precisava ser erguida acima das poças.

A volta para casa tinha seus problemas. A roupa suja de barro indicava a desobediência e a bronca da mãe podia ser rigorosa, embora sem qualquer traço de violência. Era só um sermão: por que não aproveita o tempo para ler um pouco?

Era difícil pensar em ler naquela idade. Já era dureza ir à escola e ao catecismo, passando tão perto do campo do único time profissional representativo do bairro e da cidade. Depois da aula, lá pelas 5 horas da tarde, eu e uns colegas pulávamos um muro baixo que separava a escola do campo e nos deliciávamos com o treino.

O time era profissional, mas da segunda divisão do campeonato regional, importante na época. Ficávamos sonhando com o acesso à primeira divisão e fantasiando que os grandes recém consagrados campeões do mundo iriam jogar contra o nosso time de coração.

Mas o acesso não vinha. Perdíamos sempre nas fases semifinais. Mas, quando eu já estava no quarto ano primário, não sei a que série isso corresponde hoje, o time foi se reforçando com jovens promissores vindos dos grandes São Paulo e Santos e veteranos, vindos da Portuguesa.

Assim comecei minha carreira de torcedor e nunca virei casaca. Aquele time de bairro é meu time para sempre. Na A2 do paulista ou na série D do brasileiro.

Mas voltarei ao futebol em outra ocasião. Agora quero contar um fato que construiu parte da minha personalidade nobre e está ligado à religiosidade que era objeto de grande cuidado das famílias.

Naquela época, a receita para entrar no céu ou obter graças não era constituída por compromissos de pagamentos em dinheiro, cartão de débito/crédito ou boleto bancário. O custo financeiro era menor, mas o sacrifício pessoal era decisivo.

Frequentar missas e cultos, rezar ou orar, confessar e se arrepender, receber o corpo de Cristo eram premissas básicas para garantir uma vaga no purgatório, pelo menos. Minha família era de imigrantes espanhóis. Meu avô não gostava de padres ou “curas”, como ele dizia. Mas minha mãe era rebelde e frequentava a igreja e, meu irmão, sempre muito concentrado, era coroinha.

A aula de catecismo era no final da aula da escola primária e tudo era na mesma vizinhança. Minha casa, a igreja, o grupo escolar, o campo do glorioso, a casa da professora, tudo em um círculo de raio não muito grande.

Um dia, ao sair do grupo escolar a caminho da igreja, achei que minha bolsa escolar estava pesada e vislumbrei minha professora também voltando do trabalho. Não tive dúvidas, na inocência dos meus sete anos, pedi para ela levar minha bolsa até a minha casa, enquanto eu ia para a igreja.

Ela, carinhosamente, pegou minha bolsa e deixou em minha casa, para vergonha da minha mãe que se desmanchou em desculpas e depois me deu aquela dura.

Essa foi minha primeira lição de nobreza, dada por minha professora do primeiro ano primário: generosidade.

Foto destaque de Miray Bostancı no Pexels


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Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: [email protected]

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