A frase “Eu sou muito velho para…” deve ser usada com muita cautela

Recente pesquisa italiana revela que a frase “eu sou velho demais para …” é uma narrativa tóxica, pois ao invés de desafiar e mudar estereótipos comuns, a pessoa se torna vítima de si mesma.

Mary y Kenneth Gergen (*)


Fisicamente, pode-se ter idade para ter um bebê ou escalar o Monte Kilimanjaro. Mas a frase “eu sou muito velho para …” deve ser usada com cautela. Muitas vezes, é usada como desculpa para se ajustar aos estereótipos populares de como as pessoas mais velhas devem se comportar. Assim, estereótipos comuns sobre comportamento apropriado à idade são refletidos nos comentários de uma mulher mais velha: “Eu sou muito velha para sair para dançar” ou a viúva que exclama: “Eu sou velha demais para flertar como uma adolescente”.

De acordo com os pesquisadores italianos Diego Romaioli e Alberta Contarello, a frase “eu sou velho demais para …” é uma narrativa tóxica. Se você escolher para si, poderá reprimir seus impulsos, suprimir sua imaginação e impedir que alguém se envolva ativamente na vida. Em vez de desafiar e mudar estereótipos comuns, a pessoa se torna vítima de si mesma.

Para explorar ainda mais essas questões, os pesquisadores entrevistaram 78 adultos de todas as idades, residentes de regiões do norte, centro e leste da Itália (Lombardia, Veneto e Emilia Romagna). A maioria estava de boa saúde, tinha ensino médio completo e era economicamente estável. Cada um foi questionado sobre o uso da frase “eu sou velho demais para …”. Os pesquisadores descobriram que houve casos em que a frase funcionava autodestrutivamente. O participante mais velho disse que era velho demais para iniciar uma carreira. No entanto, atualmente há um número crescente de aposentados que estão iniciando novas carreiras, e essas geralmente são mais satisfatórias do que aquelas em que participaram durante a maior parte de sua vida adulta.

Muitos também não usaram a narrativa “muito velha para …”. Este caso apareceu especialmente entre os entrevistados que falaram positivamente sobre suas vidas. Por exemplo, um velho falou com entusiasmo sobre sua liberdade de fazer o que queria: “Frequentemente vou às montanhas, vou às escolas, ensino nas escolas que solicitam e, portanto, tenho uma ótima vida!”. Simplesmente não parecia preocupado com as normas da idade.

Os pesquisadores estavam especialmente interessados no que eles chamavam de contranarrativos, ou seja, em histórias usadas para resistir ou frustrar a tendência de se curvar às normas sociais. Três dessas contranarrativas devem ser amplamente compartilhadas, identificadas por eles como:

a) Determinação
Alguns entrevistados estavam simplesmente determinados a manter seus hábitos juvenis. Eles usaram a frase “o poder da vontade” para se referir aos seus esforços para permanecerem fortes, animados e comprometidos, independentemente dos custos.

b) Resistência
Alguns entrevistados estavam muito conscientes dos estereótipos e acharam que era seu dever combatê-los. É preciso quebrar as regras de “agir de acordo com a sua idade” simplesmente porque elas são prejudiciais.

c) Integridade
outros entrevistados sentiram que simplesmente tinham que agir como agiam; eles foram forçados pelo impulso ou pelo desejo de serem como são. Havia um sentimento entre eles de que sua identidade estava alinhada com essa atividade. “Se eu não continuar na carreira, não sou a pessoa que penso que sou.”

Os pesquisadores alertaram que sua amostra não incluía participantes pobres, sem instrução ou com deficiências graves. Para eles, a narrativa de ser velho demais pode ser uma maneira de descrever suas condições de vida. Se alguém estiver doente ou tiver problemas para colocar comida na mesa, combater estereótipos não é uma prioridade fundamental.

(*) Mary y Kenneth Gergen – Boletín del Envejecimiento Positivo Nº 95jan/fev/mar de 2019. Pesquisa: I’m too old for …” looking into a self-sabotaging rhetoric and its counter narratives in an Italian setting (“Estou velho demais para …” olhando para uma retórica auto sabotadora e suas contra-narrativas em um cenário italiano. Pesquisadores: Diego Romaioli e Alberta Contarello
Publicada em: Journal of Aging Studies, 2019, 48, 25-32.


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