A Eles, Elas: Professores da mudança, da transformação…

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Uma jovem e idealista professora chega a uma escola de um bairro pobre, que está corrompida pela agressividade e violência. Os alunos se mostram rebeldes e sem vontade de aprender, e há entre eles uma constante tensão racial. Assim, para fazer com que os alunos aprendam e falem mais de suas complicadas vidas, a professora Erin aposta em métodos diferentes de ensino. Aos poucos, os alunos vão retomando a confiança em si mesmos….


Mesmo envelhecendo ou já velhos, continuamos seres inacabados, inconcluídos, e por isso mesmo, sempre prontos para o exercício da aprendizagem, da transformação contínua que segundo Dalai Lama, citado por Leonardo Boff, consiste no próprio conceito da  Espiritualidade: “aquilo que produz no ser humano uma mudança interior.” Ainda segundo as palavras do monge budista: “espiritualidade é aquilo que produz em nós uma mudança, uma transformação” (2006, p. 13).

Tomando como ponto de partida a mudança, a transformação, ressalto que, não apenas 15 de outubro, mas em todos os dias, devemos prestar homenagens a esses bravos lutadores: os professores que nos acompanham desde tenra idade até hoje.

Antes de trazer o belo exemplo da Professora Erin Gruwell, ilustrado no filme baseado em fatos reais, “Escritores da Liberdade” (2007, Freedom Writers), abro um breve parêntesis para lembrar da minha meninice e, porque não dizer, da vida vivida.

E rumo ao passado, talvez nem tão passado assim, de tão presente que é!

Minha professora do pré-primário era a delicada Dona Julia, a jovem que tratava seus pequenos como seus próprios filhos. Naquele tempo, anos 1960, tudo era só brincadeira, não éramos alfabetizados aos 6 anos, as letras, eram só um desejo, apenas realizado no primário. Chegando lá, já nos sentíamos adultos com carinhas ainda de bebês, levados que só vendo.

No primeiro ano, a leve responsabilidade já batia à porta com a Dona Odete. Creio que em um dos meus textos anteriores, já mencionei essa senhora, mas vamos lá às afetuosas lembranças. De coque, guarda-chuva constantemente à mão, fizesse chuva ou, talvez, sol, chegava a rígida professora que nos introduziria ao mundo dos adultos através das palavras, da leitura e da composição.

Devo a ela, toda gratidão, por ter preenchido meus vazios infantis pelo gosto e curiosidade dessa coisa tão misteriosa que é a escrita. Parece que nesse breve momento anjos e demônios se encontram em perfeita harmonia e nos concedem toda inspiração para compor os mais belos textos. Os fantasmas só espreitam e, algumas vezes, cochicham malandragens que dão toda picância aos ritmo das letras. É o tempero necessário que já se anuncia.

Depois, dou um pulo no tempo, e já me encanto pela física trazida pelo mais amado dos professores: sim, claro, meu amor. Bem, devo confessar que não foi bem o “E = M x C2” que me conquistou…

Amores à parte, agora pulamos novamente no tempo e chegamos ao mestrado em gerontologia com as queridas professoras Beltrina Côrte, minha orientadora das letras eternas, Ruth Gelehrter da Costa Lopes e suas preciosidades do cinema, presentes generosos que jamais esquecerei e, claro, Vera Maria Antonieta Tordino Brandão, aquela com quem sempre compartilho textos existenciais, conversas sobre o mundo de cá e, quem sabe, o de lá.

A essas grandes mulheres e professoras da vida, encontros da alma. Poucos sabem escutar o silêncio do outro, que tanto diz na sua mudez. Saber escutar a “vida vivida” significa escutar também os “não-ditos”, escutar pela linguagem do olhar.

Em “Escritores da Liberdade”, aprendemos todo tempo através de uma história especial: a trajetória da professorinha recém-formada, Erin Gruwell, a jovem que chega em seu primeiro dia de aula com um singelo colar e brincos de pérolas, uma imagem que já conta o que virá: intenção sincera, esperança, algo tão difícil para muitos jovens, principalmente aqueles que, de longe, não foram premiados com os mesmo direitos dos bem nascidos.

Se pudéssemos resumir, eu diria que essa é a realidade que muitos professores e alunos enfrentam no dia a dia: discriminação, desigualdade, ruptura dos vínculos sociais e afetivos e, tantas outras faltas percebidas ao longo do desenvolvimento escolar, desenvolvimento da vida.

Richard Lavagranese e a própria Erin Gruwell, assinam o roteiro do filme que grita em todas as cenas pela possibilidade de mudança e transformação através da educação, mas uma educação em que todos desfrutam de um saber fruto da experiência vivida, do real.

Erin leciona para o primeiro ano do ensino médio as disciplinas de inglês e literatura em uma escola da periferia em Long Beach, Califórnia (Los Angeles).

Logo no primeiro dia, a jovem já se surpreende com o desafio, ou seja, inúmeros obstáculos a transpor. Seus alunos são marcados pela violência, pela descrença, pela desobediência, pela desmotivação e principalmente pelos conflitos raciais.

Vítimas de abandono e descaso, vindos de famílias desestruturadas, a divisão entre eles é explícita e violenta: negros com negros, latinos com latinos, brancos com brancos.

Diante de um cenário, melhor dizendo, de um sistema alheio ao sofrimento de jovens excluídos de qualquer perspectiva ou chance, Erin luta, utilizando da criatividade, de modestos recursos e acima de tudo, motivação, generosidade e amor pela profissão, tudo para abrir um caminho de mudança e de transformação para seus jovens alunos tão maltratados pela vida.

Assim, Erin passa a ser chamada, carinhosamente, de Professora “G.”

Lentamente, a professora vai ganhando a confiança dos alunos, suas respectivas histórias são compartilhadas com respeito e emoção mútuas. Tendo a sensibilidade para compreender as dores em cada um dos relatos, Erin inaugura um projeto que convida cada aluno a escrever um amplo e livre diário.

A ideia é registrar o cotidiano, desde as relações travadas com os amigos e com a família até as ideologias pessoais e as leituras que estão fazendo, fizeram ou gostariam de fazer. Enfim, registrar a mudança.

Erin cita o exemplo de Anne Frank e do seu diário. A professora acaba por convencer os jovens que o preconceito transcende todo tipo de barreira e pode atingir pessoas pela cor da pele, pela origem étnica, pela religião ou até mesmo pela classe social.

Em um de seus discursos mais comoventes, Erin sublinha a questão do preconceito e frisa a importância de lidarmos com a herança do passado que recebemos:

“A tarefa da educação é justamente a de apresentar o mundo às gerações do presente, tentando fazê-las conscientes de que comparecem a um mundo que é o lar comum de múltiplas gerações humanas. Ao conscientizá-los do mundo a que vieram, estas deverão compreender a importância de sua relação e ligação com as outras gerações, passadas e vindouras. Tal relação se dará, primeiro, no sentido de preservar o tesouro das gerações passadas, isto é, no sentido de a geração do presente tomar o cuidado de trazer a esse mundo sua novidade sem que isso implique a alteração, até o irreconhecimento, do próprio mundo, da construção coletiva do passado.”

Em 1999, Erin publicou o livro autobiográfico The Freedom Writers Diary: How a Teacher and 150 Teens Used Writing to Change Themselves and the World Around Them. Em 2007, a sua história foi adaptada para o cinema.

Em 1998, Erin Gruwell lançou a Freedom Writers Foundation. A missão da Fundação é dar suporte a alunos e professores, fornecendo ferramentas que facilitem o aprendizado centrado no aluno, melhorando o desempenho acadêmico geral e aumentando a retenção de professores e alunos. Enfim, na mudança de realidades.

Para finalizar, entendo que também se constrói um saber na compreensão desta inquietação interna que opera silenciosamente e anseia por mais, pelas histórias, reais ou fictícias, sempre atenta, curiosa naquilo que “passeia” diante dos olhos do espírito.

Como bem lembra Aldous Huxley: “O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura”.

Graças a minha mãe, uma admirável professora primária, posso hoje estar aqui, viva, saudável, apaixonada e agradecida por todo saber que ela, com tantas dificuldades, conseguiu me proporcionar.

Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1996.
BOFF, Leonardo. Tempo de Transcendência. São Paulo: Ed. Vozes, 2006.

Atualização às 18h26


mediação familiar

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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