A cuidadora

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Celina Maria Street Bacellar Monteiro se diz muito urbana. Gosta da cidade de São Paulo, onde nasceu em 26 de dezembro de 1926, no mesmo dia do aniversário de seu avô materno, Sr. Jorge Street, do qual fala com muito orgulho e carinho.

Marisa Feriancic e Ricardo Micheli

 

Quando pequena, morou num palacete, na casa dos avós maternos. Seu avô era um rico industrial que perdeu as propriedades na crise de 1929.

Não conhecia Celina. Eu a vi pela primeira vez no dia da entrevista. Ela me recebeu em seu apartamento e mostrou-se uma pessoa bem humorada e risonha, contou a sua história de uma forma fluente e muito agradável. Professora de história aposentada, casada com o Sr.Moacyr. Tem 8 filhos e 17 netos. Administra sua casa, a casa de sua mãe que está com 101 anos e a casa de uma tia muito querida de 97 anos.

Celina começa sua história.

Sempre morei em São Paulo, apesar da poluição gosto muito desta cidade. Gosto de natureza, gosto de campo, mas de vez em quando. Para morar é São Paulo mesmo. Nem penso em sair daqui. Moro no mesmo prédio há 45 anos. Quando me mudei para cá, morava no 2° andar, depois mudei para o 7°andar. Quando a família cresceu, compramos um apartamento no 6° andar, fizemos uma comunicação interna e ficamos com os dois. Tenho muitas lembranças da infância, mas não me lembro do endereço da primeira casa que eu morei. Lembro que meus pais se mudaram para a casa dos meus avós maternos, na Alameda Glete, era um palacete. Nesse tempo meu avô era muito rico. Eu nasci em 26 de dezembro de 1926, justamente no aniversário desse meu avô, que eu chamava de vovô Street. Era um casarão que passou por várias reformas.

Eu visitei novamente esse casarão quando foi transformado na Faculdade de Física e Mineralogia da USP. Acho que a Botânica também funcionou lá durante um tempo. Fiz geografia e história, e fui visitar o setor de mineralogia. Fui rever a casa, mas não deu para reconhecer muita coisa não, estava muito diferente. Guardo na memória muita coisa desta casa. Meu avô Jorge Street era industrial e com a crise de 1929, perdeu tudo. Perdeu as indústrias e propriedades. Ele fez um trabalho social muito interessante. Foi pioneiro. Ele fundou uma vila operária. Chamava-se Vila Maria Zélia..Tudo por conta dele. Tinha as casas, ambulatório médico, creche e duas escolas: uma para meninas e uma para meninos. Minha avó ajudou muito. Ela se chamava Zélia. Infelizmente durou pouco tempo. A Vila Maria Zélia existe até hoje, e até pouco tempo tinha moradores lá que conheceram meus avós. Encontrei uma vez, uma antiga operária da fábrica que morou lá. Quando ela nos viu, eu e a minha mãe, foi muita emoção. Ela nos abraçava e falava: “ele era tão bom patrão, nós gostávamos muito dele e da sua avó”. A filha dessa operária mora até hoje lá na Vila. A fábrica de juta,[1] chamava-se Fábrica Maria Zélia. Esse era o nome de uma tia que eu não conheci, irmã da minha mãe. Ela morreu com 16 anos, teve tuberculose e morreu em poucos meses. Meus avós moravam no Rio. Meu avô tinha a fábrica em São Paulo, mas ele viajava sempre do Rio para São Paulo. Meus avós ficaram muito abalados com a morte da filha. Eles estavam em São José dos Campos para cuidar dela. Depois que ela morreu, não quiseram mais voltar para o Rio, vieram direto para São Paulo. Foi nessa época que compraram uma casa na Alameda Glete. A Vila e a fábrica receberam o nome de Maria Zélia em homenagem à filha deles. As pessoas pensavam que era em homenagem à minha avó, que tinha o mesmo nome. Com a perda de dinheiro do meu avô, a família toda se abalou, eu tinha três anos e a nossa vida mudou muito.

“Vovozinha morreu de velhice”

Meus pais casaram-se cedo. Minha mãe se chamava Celina, como eu. Tinha 20 anos quando casou. Meu pai tinha 21 anos. Ele se chamava Paulo. Depois de dois anos de casados, eu nasci. Ele casou-se com minha mãe, foi trabalhar com meu avô. Quando meu avô faliu, meu pai ficou desempregado.Tentou fazer de tudo; fez perfume, foi corretor, mas sempre foi uma coisa precária. Lá em casa eu sempre ouvia falar de falta de dinheiro. Pelos hábitos da minha mãe, todos pensavam que éramos ricos, muito acima do que nós possuíamos. Nós vivíamos sempre naquele “aperto”. Eu só tenho um irmão. Quando ele nasceu, o parto foi muito difícil e ele teve um traumatismo craniano. Isso deixou algumas seqüelas, como uma deficiência auditiva. Conseguiu estudar um pouco e hoje mora com minha mãe, que tem 101 anos. Até os 100 anos minha mãe estava bem, parece que depois da festa de 100 anos, desencadeou um processo de perda de memória. Ela não sabe muito das coisas, não é mais ela, é outra pessoa. Mora com meu irmão e tem uma pessoa que ajuda a tomar conta dela. Eu tenho lembranças da minha bisavó, que morreu na casa da Alameda Glete. Eu tinha dois anos, são lembranças bem antigas. Eu me recordo no colo da minha mãe, em uma cadeira de balanço, em um quarto bem escuro e eu perguntava para minha mãe: “O que a vovozinha tem?”. E minha mãe respondia: “é velhice” e foi assim que ela morreu. Eu me lembro da casa da Alameda Glete, dessa minha bisavó, da quadra de tênis que ficava no fundo da casa. Tinha uns bancos, um vestiário da piscina, e uma casinha nos fundos. Essa casinha tinha umas janelinhas em cima e de lá “saía uma menininha” imaginária, em miniatura, que vinha brincar comigo. Tudo da minha imaginação. Lembro bem dessa menininha, da figura dela. Um dia ela não saiu mais. Mas eu ficava esperando.

Uma das minhas filhas, a mais velha, também tinha uma amiguinha imaginária, a chamava de Bandilha. Essa figura era tão presente para ela, que na hora de atravessar a rua, a gente chamava “Ana, venha, vamos atravessar”, e ela respondia:

– Não, preciso esperar a Bandilha” (risos). A Bandilha estava atrasada e precisávamos esperar (risos). A minha segunda filha ficava furiosa. Dizem que isso é comum. Mas eu via mesmo, eu me lembro um pouco da figura dela, era magrinha, uma menininha que parecia uma mocinha… não sei. Nessa época meu avô tinha uma chácara, em Santo Amaro, onde hoje é a Hípica Paulista. A chácara também foi vendida, foi “perdida” quando meu avô faliu. Eu devia ter três anos, no máximo, brincava muito com meus primos nessa chácara. Eu era a única mulher aqui em São Paulo, tinha só uma prima, que morava no Rio. Era só eu de menina e o resto era tudo menino. Lembro bem quando meu irmão nasceu, em julho de 1929. Tinha que por as mãos “atrás das costas” para olhar ele no berço, não podia mexer nele.

Admiração e agradecimento – a avó

A minha avó materna teve muita influência na minha vida. Era uma pessoa muito boa, discreta, muito humana. Nunca interferiu na minha educação, nunca pretendeu substituir minha mãe. Ela tinha muita irradiação, era excepcional. Todos gostavam dela. Quando meu avô faliu, fomos para o Rio num Hotel. O nome do Hotel era Washington, se não me engano. Ficamos lá durante um tempo. Depois fomos morar na Praça das Guianas, na Avenida 9 de Julho, em São Paulo. Na verdade, não existia ainda a Avenida, ela foi construída muito tempo depois. Lembro do Getúlio Vargas a inaugurando. Era um fim de mundo. A praça só estava delineada, era tudo mato. Todas as manhãs vinha um pastor com carneirinhos e cabras para pastar ali na praça. Eu ouvia aquele sininho e ficava louca para tomar o leite de cabra que ele vendia, mas minha mãe não deixava. Falava que fazia mal, que não era esterilizado. Imagine na avenida 9 de Julho vendendo leite de cabra. Dessa casa mudamos para a Rua Baronesa de Itu, em Higienópolis. Fiquei lá até sete anos, até ir para a escola. À tardezinha eu ficava na janela e vinha um cara para acender os lampiões da rua, com uma vara. É interessante lembrar que existiu isso em São Paulo. Hoje essa rua é cheia de prédios. Nossa casa era muito grande. Nessa época eu tive uma governanta que era francesa, e ela me ensinou francês. Eu aprendi francês quando tinha cinco a seis anos e nunca mais esqueci. Aos seis anos fui para a escola Elvira Brandão. Era um externato. Comecei o primário lá, depois meus pais me transferiram para o “Dês Oiseaux“ na Rua Caio Prado. Era um colégio de freiras, um colégio caro, mas eu tinha bolsa. A gente sempre viveu meio apertada. Nesse colégio eu era semi-interna. Entrava às 8 horas da manhã e saía às 16 horas. Eu gostava muito do colégio, não tinha irmãs, não tinha primas. Naquele tempo era só de meninas. Os colégios de meninos eram o São Luiz e o São Bento, e o “Dês Oiseaux“ e o “Sion” eram de meninas. Eram considerados de elite. Nesse colégio eu fiz amizades, que tenho até hoje.

Tinha um jardim enorme e muitas goiabeiras. Quando faziam goiabada o colégio inteiro sabia que ia ter uma sobremesa gostosa. A gente tinha aula até as 10 horas, depois um primeiro recreio e outro depois do almoço. Eu era muito ruim para esporte, mas assim mesmo eu jogava “barrabol” e queimada, que a gente chamava de “brilhê” (risos), que seria do francês, com outra pronúncia. Minha mãe corrigia, mas eu dizia “não, lá no colégio é brilhê” (risos), era pronunciado assim. Nos dias que chovia uma freira reuni todas nós e contava muitas histórias para a gente. Era muito gostoso. Tinha outra que eu gostava muito. Era chamada de Prefeita, encarregada da minha classe. Morreu este ano. Morava em uma casa para idosos e eu sempre ia visitá-la. Foi uma amizade que conservei a vida toda. Eu sempre fui boa aluna, mas não gostava de matemática e gramática, e salvava minhas notas com as composições. Eu era meio endiabrada, enfrentava muito os professores e as freiras. Apesar disto elas gostavam de mim, acho que porque era leal, o que eu tinha que dizer, eu falava mesmo. Minhas amizades sempre foram muito importantes para mim, acho que as amigas substituíram as irmãs que eu não tive. Minhas amigas são daquelas que participam de tudo. As mais recentes são de 40 anos atrás.

A espiritualidade

A parte religiosa sempre foi importante para mim. Eu evoluí muito em matéria de religião. Tive grande influência do colégio católico e de minha avó materna que era muito religiosa, mas não aquela coisa de “beatice”, ela tinha muita espiritualidade, era uma pessoa com o pé na terra, muito humana, muito prática, tinha muito bom senso. Eu fiquei nesse colégio durante muito tempo. Depois que eu me formei fiquei lecionando lá. Estudei Geografia e História no “Sedes Sapientiae“ que era ligado às freiras. Lecionei até o colégio acabar. Quando era pequena tive uma pajem, a Alba. Era da Letônia, e eu gostava muito dela. Ela era protestante e era proibida de falar comigo sobre religião, mas de vez em quando me contava histórias da Bíblia. Isso foi na época da Alameda Glete e da chácara. Desse tempo veio meu interesse pela Bíblia. O colégio reforçava isso. As matérias que eu mais gostava eram: religião, história e geografia. No começo da minha formação religiosa acreditava em tudo que diziam que era para acreditar. Depois fui mudando, fui percebendo uma igreja oficial muito retrógrada. Hoje em dia eu me digo católica, mas dentro de uma abertura. Esses dogmas e regulamentos morais que a igreja manda, não tem mais nenhum significado para mim. Continuo pertencendo à igreja católica, acho que é minha formação, minha vivência, mas hoje tenho independência diante de padres e bispos que se acham donos da verdade e são homens como nós. Demorei a evoluir até aqui.

Quando eu tinha uns nove ou dez anos, meus pais conseguiram comprar uma casa na Rua Atlântica, nos Jardins, entre a Avenida Brasil e a Estados Unidos, foi a primeira casa nossa, onde a gente morou sem os avós. Essa casa era térrea, naquele tempo era fim de mundo, tinha acabado de abrir o Bairro. Nós moramos lá bastante tempo. Essa casa tinha um jardim, era bem gostosa. Eu andava muito de bicicleta pelo bairro, lá passei um bom tempo da minha vida. Tinha um ônibus amarelo que passava lá e que vinha até o colégio. Tinha um ônibus bonde camarão e o bonde aberto. O camarão ficava lotado e a gente se espremia para entrar. Às vezes a gente resolvia vir a pé. Quando me formei no colegial prestei vestibular no Sedes, que é aqui perto, na Marquês de Paranaguá, e entrei na faculdade de Geografia e História.

A educação formal

Na Faculdade éramos um grupo pequeno, só cinco alunas em Geografia e História. Apesar de eu gostar mais de história, aproveitei mais o curso de geografia. Nós tínhamos um professor excelente, Aroldo de Azevedo. Ele tinha sido meu professor no ginásio e no colegial. Era muito metódico, e a gente fazia uns trabalhos de campo que eram muito interessantes. Fizemos trabalhos em Pirituba, Embu, Itapecerica da Serra, etc. Para mim foi uma descoberta. Minha mãe me prendia muito. Ela não deixava eu fazer nada. (risos). Certa vez fui fazer um trabalho de campo na faculdade e íamos viajar com o grupo. Minha mãe fez a ex-pajem do meu irmão ir junto. Eu já tinha 19 anos!

A Maria era uma portuguesa muito especial. Ficou conosco até morrer. Maria ia junto, e o pessoal nem ligava. Era uma pessoa muito pitoresca, contava histórias, coisas do tempo dela em Portugal. Ela se adaptou bem ao grupo. Eu não sei o que os professores achavam (risos). Ela ficava muito à vontade, todos gostavam dela, mas eu morria de vergonha. Isso foi só no primeiro ano, depois fiquei mais independente. Fui educada muito à antiga mesmo. Para assistir um filme, meu pai tinha que assistir primeiro e eu não ia sem uma censura prévia, mas não adiantou muito não.

O casamento

Depois que eu saí da faculdade, tive o meu primeiro namorado. Hoje é meu marido. Eu tenho uma tia que tem 97 anos. Essa que eu cuido dela. Quando era moça, ela trabalhava num ambulatório dentário do SESI. Comecei a tratar os dentes lá. Foi assim que conheci meu marido. Ele era dentista lá, mas era dentista de criança, não atendia a gente. Ele tinha um amigo que ia viajar para a França e pediu para minha tia dar umas aulas de francês para o amigo dele. Ela disse que não podia, mas que tinha uma sobrinha que poderia. Falei que não era minha especialidade, que eu ia arranjar alguém, e fui procurar uma amiga que era francesa. Minha amiga estava em Santos, então disse que enquanto ela não voltasse eu daria essas aulas. Ele vinha junto com o amigo para ter aulas. O amigo viajou para a França e ele continuou com as aulas. Após algum tempo começamos a namorar. Ele tem dois anos mais que eu. Já estávamos formados, fizemos umas economias, e dois anos depois casamos. A gente era muito pé rapado, tinha que fazer um bom pé de meia. Em 30 de maio de 1952 nós casamos. Ele continuou trabalhando no SESI e também na USP, como assistente da cadeira de histologia, assistente do Professor Barroso do Amaral, uma pessoa muito interessante. Eu continuei lecionando no colégio em que estudei; mesmo antes de me formar na faculdade já lecionava. O Sedes era das freiras do colégio, elas que fundaram. Depois passou para a PUC.

Fomos em lua de mel para Caraguatatuba. Naquele tempo só tinha uma igreja, uma pracinha, um hotel, uma pensão e umas casinhas. A prainha que era boa para tomar banho era a Prainha dos Pescadores, estava sendo grilada e eu me lembro da gente ter ficado indignado com aquilo. Estavam tirando dos pescadores para lotear. Não tinha prédio, não tinha casa, não tinha nada lá, era muito gostoso. A Rio-Santos ainda não existia. Só existiam umas “picadas”, se chovesse não passava. Nós não tínhamos carro, alugamos um táxi para irmos até Ubatuba por essa estradinha. Era tudo selvagem, muito bonito. Quando voltamos, alugamos um apartamento pequeno na rua Antonia de Queiroz, meus pais já tinham mudado da Atlântica e moravam na Martins Fontes. Nesse apartamento eu tive quatro filhos, era um prédio sem elevador, tinha que subir três andares (risos), com barrigão e com bebê no colo. Casei em 1952 e a primeira filha nasceu em janeiro de 1954, aí engatou, quase todo ano tinha um filho. As minhas alunas apostavam, “tá grávida, não tá grávida” (risos). Ou eu estava grávida, ou amamentando. Hora crescia a barriga, hora cresciam os peitos, assim eu passei 10 anos.

Ela tem muito orgulho da família. Elogia a alegria e o bom humor do marido. Celina tem muitas fotos da família na parede do escritório. Ela mostra a foto de seus oito filhos reunidos. São seis mulheres e 2 homens.

Minha filha mais velha tem 51 anos e a mais nova 41. Eu tive uma empregada que me ajudou muito, foi muito dedicada. Essa moça era mineira e ficou comigo durante muitos anos. Ficou muito doente, eu cuidei dela até falecer. Criou todos os meus filhos e atualmente a sobrinha dela está comigo, tem cuidado de mim. Eu, com os pés assim, fico meio limitada.

Celina está com o pé imobilizado e andando de bengala. Há dois meses fraturou os dois pés caminhando na rua.

Os meus amigos diziam que eu não estava grávida, diziam que eu “era grávida (risos)”. Era até mais fácil. Tirava a roupinha de um, lavava, guardava, se não servia mais já guardava para o próximo. Quatro filhos nasceram na Antonia de Queiroz e quatro neste prédio onde moro hoje. Este prédio tinha um terraço, ainda tem, mas no tempo que mudei tinha uma piscininha para criança e um quadrado de areia, então ótimo. Quando morávamos na Antonia de Queiroz, a gente usava o colégio para as crianças brincarem. As freiras permitiam. As crianças chamavam de colégio de brincar, por que freqüentavam o outro colégio das freiras; o “Madre Alix ” e depois passou para Nossa Senhora do Morumbi. Depois que mudamos para cá tinha um terraço em cima e eles ficavam moreninhos de apanhar o sol no terraço. Parecia que tinham ido à praia e era só de brincar aqui. Foi uma mudança bem positiva para a gente, pois de um prédio muito simples passamos para este, que não era um prédio de luxo, mas tinha mais recurso. Era um apartamento no segundo andar e só tinha dois quartos. Um quarto era o nosso. No outro, tinha oito caminhas (risos). Parecia cama de anãozinho, o quarto era pequeno. Nós colocamos armários “pendurados”, onde eu guardava as roupinhas deles. Embaixo as caminhas deles distribuídas. O bercinho da mais nova, e as caminhas dos outros. Tudo apertadinho, tinha um espaço no meio, para a gente entrar, mais nada. Quando a mais nova fez três anos nós mudamos.

Conseguimos um financiamento da Caixa Econômica e compramos este apartamento aqui, no sétimo andar. Tinha três quartos, onde era o nosso quarto foi transformado em sala hoje. Dormiam quatro em cada quarto. Para eles terem mais espaço nós derrubamos a parede do nosso quarto e juntamos com a sala. Colocamos uma porta de correr. De noite a gente fechava a porta. De dia abria e a sala ficava grande. Os filhos foram crescendo, e precisávamos de mais espaço. O apartamento de baixo estava à venda, mas a gente não tinha dinheiro para comprar, aí fomos conseguir outro financiamento, mas não tínhamos como pagar e resolvemos que íamos comprar e depois alugar. O dinheiro do aluguel ajudaria a pagar. Fizemos o negócio. Mas nesse meio tempo aconteceu uma tragédia, os meus cunhados tiveram um acidente em que morreram os dois, a irmã do meu marido, o marido dela e o filho mais novo. Ficou a filha de 18 anos e um filho de 20 anos. Esses sobrinhos vieram morar conosco. Resolvemos não alugar mais o apartamento. Recebemos uma ajuda financeira de uma amiga e assumimos a dívida. Abrimos uma escada comunicando os dois apartamentos e aí deu para caber todo mundo, então ficaram 10 filhos. Isso foi há 31 anos. Esse meu sobrinho casou-se com minha filha, hoje, além de sobrinho, é meu genro, e um pouco filho também. Em nossa festa de 50 anos de casados ele escreveu uma mensagem muito bonita para nós em que diz isso. Eles têm três filhos. Meus dois netos mais novos estão com oito meses, nasceram no mesmo dia. Tenho 17 netos. Já podia ser bisavó, mas meus netos, não querem nem saber (risos).

Ficamos com os dois apartamentos e com os “dez filhos”, esses dois que chegaram, já eram grandes. Ele estudava em São Carlos e só os finais de semana passava aqui, ele é biólogo. Minha filha que é casada com ele é fonoaudióloga. Em casa está cheio de biólogos, meu marido é dentista, mas nunca trabalhou como dentista mesmo, atuava na área da biologia na faculdade. Quando as crianças eram pequenas ele as levava para o Morumbi, naquele tempo era mato; ele explicava as plantas, os insetos, e com isso as crianças pegaram muito gosto pela biologia.Tenho duas filhas e um genro biólogos. A mais velha mora na Escócia, os outros no Brasil. Quanto aos outros filhos, um é psicólogo, uma é educadora e três são artistas.

As transformações

Ficamos com os dois apartamentos e acabamos de criar os filhos. Minha sobrinha que ficou conosco estava no carro, tinha quebrado os dois fêmures, foi uma época muito difícil, ela teve que ficar em cama hospitalar. A minha empregada tão dedicada teve um câncer no seio, foi tudo junto, as coisas são assim, vem de montão. Foi um período difícil, minha empregada operada, ficou ainda dois anos comigo e depois ela teve metástase e faleceu. A sobrinha da minha empregada veio para ajudar e acabou ficando comigo até hoje.

Os filhos foram casando, descasando, é a vida. Todos foram criados no meu catolicismo, mas hoje em dia eles deixaram, têm espiritualidade, alguns mais outros menos, mas nenhum é “filiado” a nenhuma igreja. As duas primeiras filhas casaram na igreja, mas só pela forma, os outros só juntaram. Várias separações também, outras uniões, mas, enfim, com isso tudo nasceram 17 netos. Quando vêm todos para cá, fica meio apertado, mesmo tendo o apartamento de cima e o de baixo. Em geral as crianças vão lá para baixo, para a televisão, os outros ficam por aqui. Dá para todo mundo. Dá para reunir, não dá para sentar todos à mesa, mas reúne todos.

No aniversário de 80 anos do meu marido minha filha alugou uma chácara para ficar com mais espaço. No Natal junto todo mundo aqui. Até o ano passado a minha mãe ainda veio, mas este ano acho que não vai dar para ela vir.

Os fatos políticos

Na revolução de 32, nós tínhamos ido de férias para o Rio, com isso meu pai escapou do alistamento. O meu tio mais velho sempre morou no Rio e nas férias sempre íamos ao Rio. Em julho, na revolução de 32, estávamos lá e não pudemos voltar para São Paulo. Foi um fato que eu presenciei. Como a gente iria ficar mais tempo no Rio, me puseram no jardim da infância. Eu me lembro desse jardim da infância onde aconteceu um fato engraçado. Lá tinha um outro menino, paulista também, chamado Clóvis, com cinco anos. Eu desenhava bandeiras e quando fui desenhar a Bandeira Brasileira desenhei virada para o lado esquerdo. Porque deveria ser canhota. Essa era a minha tendência. Tudo que reparavam que eu fazia com a mão esquerda (me corrigiam) eu faço hoje com a direita. O que não reparavam eu fazia com a esquerda. A minha gesticulação é com a esquerda, escovo os dentes com a esquerda, penteio cabelo com a esquerda. Escrever, comer é com a direita. Desenhei a bandeira virada para a esquerda, eu me lembro disto. A professora não gostou e falou que eu tinha que desenhar a bandeira para a direita. E eu, com apenas cinco na época, respondi: “bateu um vento e ela virou para esse lado”.

Na época da ditadura, um amigo que era do governo nos preveniu para tomarmos cuidado, pois nosso nome estava numa lista de suspeitos de subversão devido a nossas ligações com setores da igreja progressista. Nosso telefone foi censurado, nossa correspondência era violada. Tivemos amigos exilados, mas conosco não aconteceu mais nada.

Não lembro da Revolução em si, mas lembro-me daquela história de ouro para São Paulo, de darem aliança, mas eu não participei muito disto não. Depois veio a 2ª Guerra Mundial, nós estávamos a uma distancia muito grande. Eu me lembro do “black-out”, que a gente tinha que apagar todas as luzes, meu pai transformou o carro dele em gasogênio, e a gente acompanhava as notícias pelo rádio. Meu pai ouvia muito a BBC. Na juventude, meu pai passou uns tempos na Inglaterra, em Londres. Ele era muito britânico, assim de costumes, modo de vestir. Lembro quando o Brasil entrou na guerra, foi àquela emoção toda. Lembro do suicídio de Getúlio, ninguém era getulista em casa. Depois que comecei a ver que Getúlio tinha umas coisas boas e outras não, mas no tempo dele era todo mundo muito antigetulista. Lembro também dos bailes de carnaval da época da Revolução, em que a gente cantava aquela modinha: “Foi Deus que me fez formosa*…”, não me lembro como continuava, mas a gente cantava: “Foi Deus que me fez Paulista, mas o diabo do chuchu me tornou separatista” (risos) e a gente nem sabia o que era separatista. No baile de carnaval, na hípica, a gente cantava essa modinha, contra o Getúlio, contra o chuchu.

O caminho da aposentadoria

Eu tinha lecionado a vida toda. Quando as freiras resolveram fechar o colégio, eu tive que procurar um emprego. Comecei a lecionar em 49 e saí mais ou menos 30 anos depois. Custou um pouco para conseguir outro colégio, mas aí eu consegui no Sagrado Coração de Maria, era uma freira muito inovadora e queria fazer um curso diferente e ela ficou de me contratar. Estavam contratando professores novinhos, que seguissem método novo, mas no fim acabou me contratando e fiquei lá durante dez anos. Esses 10 anos foram muito bons para mim, porque no outro colégio que lecionava, sempre fui muito filha da casa, coisa meio doméstica. E nesse outro não, eu tive que cavar meu lugar. Os professores gostavam muito de mim, eram muito mais novos, mas eu fiz um ótimo relacionamento com todos, a maioria de esquerda, na época da ditadura, no outro colégio tínhamos tido uns problemas de invasão. Uma vez veio a polícia invadiu, precisou vir o Sodré, que tinha uma filha no colégio para apaziguar a coisa. Nessa época não podíamos falar nada, principalmente professor de história, que era muito visado.

No começo foi tudo muito bem, mas essa freira que tinha começado esse curso novo, que era com uma metodologia diferente, saiu do convento e aí vieram outras que quiseram desfazer tudo o que tinha sido feito. Começaram a pressionar esses professores que eram de esquerda. Depois de algum tempo, despediram todos esses e ficaram só com os do ginásio. Nem digo que eram de direita, eram apolíticos, sem muita posição ideológica. Elas não falaram nada, depois que saiu a última aluna da última recuperação é que elas começaram a chamar os professores e despedir um a um. Para cada um elas arrumavam uma desculpa. Comigo não tinham queixa nenhuma. As minhas aulas eram muito boas, os alunos me adoravam, eu era muito popular, com professores, com alunos, só não era com elas, com as diretoras. Aí elas me chamaram e disseram que eu já tinha tempo e deveria me aposentar. Eu tinha 50 anos. Pagaram-me as indenizações todas, foram corretas nessa parte financeira, agora não sei se elas têm consciência que não foram corretas em outras coisas.

Depois que eu me aposentei, formei um grupo em casa com senhoras, que vinham ter aulas de história. Era aula sem preocupação de exame. Isso durou até meu marido ser operado, ele fez ponte de safena. Eram de 10 a 15 alunas. Fui fazer um curso de francês para praticar, e nesse curso às vezes pediam umas opiniões de história para mim. Elas perguntaram porque eu não dava um curso em casa e daí surgiu a idéia. Então eu organizei isso e elas vinham uma vez por semana, eu fiz apostilas, foi muito divertido. Durou uns 10 anos, umas ficaram minhas amigas até hoje e a gente se encontra, sai junto. Tinha parado um pouco antes do meu marido operar, a gente tinha feito uma viagem à Europa, assim que voltamos, ele teve a primeira angina, foi operado e aí eu parei. Depois apareceram os netos, minha mãe mais velha, e eu fiquei por conta da família.

Desde menina sonhava ir para a Europa. Eu lia muito livro em francês e viajava naquelas histórias.

Quando recebi minha indenização, foi para isso. Distribuí os filhos pelos amigos, de dois em dois e fechamos a viagem. A primeira viagem à Europa foi em 1972, ficamos um mês viajando. Foi uma coisa muito gostosa, foi um sonho. Parecíamos duas crianças de tanto que a gente ria. Depois disso teve outras ocasiões. Quando fui despedida do outro colégio também viajei com o dinheiro que recebi. Aproveitava as indenizações para viajar. Guardar dinheiro nunca foi nossa especialidade. Eu conheci muitos países. Minha filha teve um congresso em Cuba, eu estava louca para conhecer, e fui com ela conhecer Cuba. Eu voltei com uma impressão melancólica porque eles não vão consegui manter a experiência, mas ao mesmo tempo acho que é possível haver uma sociedade mais igualitária. Eu tenho álbuns de tudo isso, das viagens e da família.

O fundamental hoje é cuidar da minha mãe, com 101 anos e da minha tia com 97. Minha tia é sozinha, mas tem uma empregada que mora com ela. Minha mãe mora com meu irmão. Tenho que tomar conta de três casas: a minha e mais duas. Minha casa eu não posso dizer que dá trabalho, quando as crianças eram pequenas meu marido sempre ajudou muito, tinha essa empregada e outra que me ajuda. Minha casa tem sempre movimento. Freqüentemente a casa tem 20 pessoas aqui, almoçando, dormindo, lavando roupa, e elas são pessoas ótimas, de uma dedicação total. Minha casa não dá tanto trabalho, mas a da minha mãe e da minha tia dá mais. Com tudo isso eu ainda acho um tempinho para o meu lazer. Tenho uma amiga que tem uma casa em Ubatuba, periodicamente a gente vai para lá. É bom para distrair. Depois que quebrei os pés está mais difícil. Não tenho ido. Aos sábados saímos com os amigos. Gosto muito de cinema, mas acho incômodo ir assim com os pés quebrados.Leio muito.

Celina conta que caiu e quebrou os pés na rua. Foi auxiliada por dois guardas que estavam passando e a ajudaram a arrumar um táxi e ir ara o pronto socorro. No dia da entrevista ela estava há 45 dias a aprendendo a lidar com o “novo corpo”.

Ela explica: Foi um mês de aprendizado para lidar com o novo corpo. Não podia por o pé no chão. Precisei de ajuda para ir ao banheiro, tomar banho, etc. Devo ficar com o pé imobilizado ainda 15 dias, depois vou ter que fazer fisioterapia. Antes de cair, eu sempre caminhava, desde que o meu marido operou, o médico recomendou caminhada e eu faço com ele, e desde que caí, ele parou. Deveria fazer sozinho, mas não faz, e ele precisa. Eu tenho que ficar boa para ele ir também, senão a preguiça ganha.

A velhice e o envelhecer

Na verdade, eu não dou bola para a minha velhice. Pela idade sou velha, mas eu não me acho muito velha não, não me considero velha, o corpo da gente vai mudando. Eu engordei, meu cabelo foi ficando com mechas, depois ficou todo branquinho. Eu nunca tingi, o pessoal até achava que eu fazia mechas no cabeleireiro, mas não era. Sou um pouco preguiçosa para essas coisas, não sei se sou pouco feminina para isso. Gosto de estar arrumada, mas não muito sofisticada.

Eu acho que para você envelhecer bem você precisa ter atividades, ter uma vida realizada. Dificuldades você tem, e eu estou passando um momento bem difícil com minha mãe e minha tia. O importante é que eu tenho apoio, do marido, dos filhos, dos amigos. Acho que o que conta é isso. É a afetividade, é o amor que a gente tem na vida, e encarar a coisa positivamente. A espiritualidade também é importante. E eu sempre tive. Existe um sentido para as coisas e às vezes a gente não entende no momento o que acontece e com o tempo vai descobrindo, elaborando. O diálogo com as pessoas, participar da vida, do mundo, do que acontece, acho que isso faz bem. Mas aí vejo minha mãe e minha tia, que eram pessoas ativas, muito participantes e que hoje estão isoladas e dependentes. Estão sós. Minha mãe tem os netos que visitam, mas às vezes ela nem reconhece direito quem são. Todos trabalham, têm suas atividades. Ela fica a maior parte do tempo muito sozinha. Minha tia até 90 anos ainda dirigia. Foi mais ativa que minha mãe. Minha mãe sempre foi muito caseira, nunca trabalhou. Depois que meu pai morreu ela tentou abrir uma doceira, mas não deu muito certo não, ela nunca foi uma mulher de trabalho. Com minha tia foi diferente. Ela separou-se com 23 anos, tinha sido criada como caçula de uma família rica e quando separou meu avô já tinha perdido tudo. Ela foi à luta, foi procurar emprego, trabalhou a vida toda, na Imigração, no SESI, trabalhou até mais de 80 anos, trabalhava em uma garagem, tomava conta de um estacionamento e de repente começou a perder a vista, ouvido, e agora a cabeça está meio atrapalhada, então são coisas irreversíveis que a gente tem que aceitar e não tem o que fazer, não é dizer que porque foi ativa que vai ter uma velhice ótima, não é assim.

Quando a minha mãe começou a ficar dependente, eu vi que precisava colocar alguma pessoa para tomar conta dela, e minha mãe sempre foi maníaca de guardar tudo, aqueles armários antigos, enormes, guardava tudo, aí eu fui fazer ordem nas coisas dela e descobri essas fotos todas.

Celina tem álbuns com fotos belíssimas da família. Tudo organizado. Uma verdadeira preciosidade.

São diversas fotos, um delicioso material para um belo livro. Fotos que ela descobriu há mais ou menos quatro ou cinco anos, quando a mãe começou a precisar de ajuda. Desde a geração do tataravô até as gerações atuais. Tudo documentado com datas e nomes. Depois de muita persuasão, consegui algumas poucas fotos da família para ilustrar esta reportagem.

Descaso com a memória: Fábrica Dona Maria Zélia

Fonte: Acesse Aqui 

[1] Em 1912, o industrial Jorge Street (1863-1939) começou a construção da Companhia Nacional de Tecidos de Juta e depois criou a Vila Maria Zélia. A fábrica original estava instalada na Avenida Celso Garcia, número 1.675. A desativação da indústria, em meados dos anos 30, provocou uma sucessão de acontecimentos e mudanças de uso da vila, que havia sido um modelo de habitação popular. A Vila Maria Zélia foi concebida em 1916 para ser uma confortável moradia dos funcionários de uma indústria de tecido. Na entrada, uma pracinha, uma igreja e dois prédios relembram a época da construção. Poucas casas conservaram a arquitetura original. Mesmo assim, o lugar é procurado para servir de locação para programas de TV e comerciais. Fonte: Acesse Aqui

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Redação Portal do Envelhecimento

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