A Covid-19 e a necessidade emergencial de se pensar sobre como se deseja o próprio fim

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Informar-se e deixar registrado o que se quer ou não para si é ter mais segurança de vida e não apenas o amparo a uma morte digna, tão iminente a todo aquele que vive, como tem se visto e sentido nos últimos tempos. É dar segurança ao profissional que fará ao seu paciente o que foi por ele escolhido, de maneira esclarecida, em respeito aos valores e à biografia de cada um.


A pandemia da Covid-19 trouxe ao mundo uma necessidade emergencial sobre se pensar a respeito de como se deseja o próprio fim. Falar de morte é algo difícil, ainda que seja esta a única certeza que todo ser humano carrega consigo desde o nascimento com vida. Não se pode falar de morte perto de crianças porque as traumatiza, perto dos mais velhos porque é de extremo mau agouro, socialmente se evita abordar o tema porque é uma postura de gente vista como infeliz e/ou desequilibrada. Mas, se pararmos para refletir, nunca foi tão necessário se falar de morte, sobre como se deseja morrer, sobre como se pensa o próprio fim. Se você, caro leitor(a), nunca parou para pensar nisso, seja por qual motivo for, o convido a fazer isso neste momento. E se não estiver preparado, agradeço por sua atenção até aqui. Até o final deste texto acredito que será inevitável imaginar a si próprio como alguém que é humanamente finito.

Ainda que os tempos sejam difíceis, que uma grande maioria de pessoas esteja buscando dentro de seus universos particulares, leituras leves, entretenimentos e diversão nas poucas horas que sobram após as longas e árduas atividades diárias e que falar de morte seja a última coisa que se pretenda fazer, principalmente se ela for a própria, peço que pare e reflita.

Sugiro que faça isso para que ninguém escolha por você, para que sua autonomia seja respeitada até o seu último suspiro, para que sua dignidade humana seja efetiva e eficaz até o último dia de sua vida terrena, para que você tenha respeitada na maior integralidade possível sua identidade biográfica, e por mais todas as razões que você possa se permitir levantar.

Os últimos dias vividos pela humanidade, mundo afora, em virtude da pandemia do Coronavírus, colocaram em xeque a continuidade da vida com dignidade.

Inúmeros são os casos de pessoas que por conta da pandemia se viram longe do que esperavam, do que tinham planejado, projetado e perseguido para si quando se viram diante de uma grande catástrofe que ceifou sonhos e que vitimou milhares de pessoas que nunca se imaginaram sendo hospitalizadas e submetidas às técnicas mais invasivas, contrárias à tudo o que elas acreditavam, que não queriam ter morrido em hospitais, que não se imaginaram, nem no seu pior pesadelo, ser um número, de um corpo, dentro de um caminhão que carregava centenas deles para um enterro coletivo e sem despedidas.

Ausências de vagas em centros de terapia intensiva, usos de medicamentos sem efetiva comprovação científica, intubações, enterros aos que desejaram uma cremação, mas que não tiveram tempo de deixar isso registrado ou de dizer isso para alguém, ausências de despedidas das famílias e dos amigos, etc..

Independentemente da idade, de onde ou de como se vive, do uso das mais variadas técnicas que buscam amenizar os problemas decorrentes do Coronavírus, o que se sabe é que, uma vez que ele é detectado e a pessoa diagnosticada com Covid-19, surge a necessidade de um isolamento, seja hospitalar ou doméstico, e, que, em alguns casos, é seguida por uma repentina e igualmente isolada morte, precedida de técnicas que foram aplicadas sem que ninguém perguntasse ao doente se ele as aceitava ou não, seja porque ele já não tinha mais condições de responder à qualquer pergunta, seja porque anteriormente não deixou nada consignado a respeito do que desejaria ou não para si em situações similares. Ou seja, para quando não pudesse se manifestar sozinho.

Esta pessoa a quem nada se questiona porque ela está impossibilitada de se manifestar é alguém que anteriormente não falou nada a respeito do que desejaria para si próprio diante da iminência da morte: se aceitaria o uso de medicamentos ou de técnicas sem comprovação científica, se aceitaria ser intubado, se desejaria um sepultamento ou uma cremação ou qualquer coisa relacionada à própria finitude.

Bem provavelmente alguém que, por evitar pensar a respeito da própria morte, jamais disse, por consequência, a quem quer que seja, sobre o que fazer se ela, por si, estivesse impossibilitada de decidir em uma situação médica/hospitalar na qual há técnicas disponíveis para se tentar salvar ou prolongar a vida, mas que implicam em uma escolha na qual a vida, para aquela pessoa, já não é mais a vida no sentido do que ela acredita.

Muitas vezes, esta mesma pessoa, se quer soube que isso era possível, já que a morte é algo tão nefasto e negado por ela que nem a respeito da legalidade das escolhas nesta hora ela quis saber, que dirá, de se aprofundar e decidir a esse respeito ou dizer sobre isso a alguém, já que jamais se imaginou e se conscientizou de que é um ser finito.

Um infinito número de leigos que desconhecem terminologias técnicas, que não encontram justificativa para que possam dizer aos seus médicos o que fazer ou não diante da morte, com medo de julgamentos ou do desconhecido, e que não sabem tantas outras vezes, que isso pode e deve ser feito por ele e considerado pelo profissional, a ponto de que o médico deve fazer constar em cada prontuário a vontade de cada paciente, após esclarecê-lo sobre as consequências de suas escolhas e repassar a ele todas as orientações possíveis.

Também é verdade que neste momento, não houve muito tempo para estes esclarecimentos. A forma abrupta como o vírus invadiu o mundo e lotou unidades de terapia intensiva, acabou ceifando vidas sem deixar margem temporal para qualquer tipo de esclarecimento ou escolha consciente.

Aqueles que não tinham, até então, pensado, decidido e deixado consignado os desejos para o próprio fim, sofreram e continuam a sofrer, mundo afora, as mais inúmeras espécies de violência, já que os atos praticados contra a vontade e os desejos de qualquer pessoa não pode receber outra denominação.

Você já parou para pensar se aceitaria uma medicação que não tem comprovação científica quando a morte lhe for destino certo? Parou para refletir se quer algum dia na vida ser intubado? Sabe o que cada uma destas coisas significa? Conhece as consequências de suas escolhas? Sabe se quer ser enterrado ou cremado? Já pensou se quer velório, se nele gostaria de ter flores e quais seriam elas ou se acha tudo isso muito desnecessário? Já falou sobre isso com alguém?

Caso tenha feito isso ou não, mas como alguém que tem vivido a realidade que toca ao mundo, já ponderou sobre a extrema relevância de se pensar no próprio fim, principalmente em um momento como esse.

É absolutamente necessário que se fale aos mais próximos a respeito dos desejos finais, que se converse com o médico sobre os medos, para que se tirem as dúvidas e se firmem as certezas, para que se deixe consignado o que se quer para si próprio, escolhendo os caminhos que serão trilhados quando a finitude for algo palpável, de fato, e não apenas uma conjectura oriunda da única certeza que cada ser humano tem desde o seu nascimento com vida.

O Brasil ainda não faz uso das Diretivas Antecipadas de Vontade em um número que seja tão relevante, mas a epidemia já nos mostrou o quanto elas são necessárias.”

São urgentes as necessidades de se compreender sobre a importância dos desejos manifestados por uma pessoa capaz, que os exterioriza e os deixa registrados para quando ela própria estiver na condição de paciente que deixou especificados os cuidados e os tratamentos que desejará ou não receber quando estiver incapacitada de expressar sua vontade e sobre como precisamos falar mais sobre isso, desenvolver estudos, realizar pesquisas, elaborar Diretivas.

Buscar informar-se e deixar registrado o que se quer ou não para si é ter mais segurança de vida e não apenas o amparo a uma morte digna, tão iminente a todo aquele que vive, como tem se visto e sentido nos últimos tempos. É dar segurança ao profissional que fará ao seu paciente o que foi por ele escolhido, de maneira esclarecida, em respeito aos valores e à biografia de cada um.

Ao optar por um Testamento Vital ou por um Mandato Duradouro, aquele que escolhe e que adota uma das espécies das Diretivas Antecipadas de Vontade está solidificando o ser biopsicossocial que é até o último dia de sua vida. A autonomia e a dignidade humana precisam acompanhar a todo aquele que vive até a finitude, e para isso, saber o que se deseja para o próprio fim é a medida mais acertada.

É necessário pensar, falar e buscar por Diretivas Antecipadas de Vontade de maneira urgente, de modo a garantir uma melhor participação social, de acordo com necessidades, desejos e capacidades daquele que vive e que, porque vive, precisa e merece escolher, em respeito à singularidade que cada vida representa.

É preciso propiciar proteção, segurança e cuidados adequados a todo aquele que faz escolhas, para que as faça de maneira convicta e esclarecida sobre o que melhor que parece e que, inegavelmente porque vive, uma hora ou outra se defrontará com a própria finitude.

Converse com seu médico, procure seu advogado, fale com seus familiares e amigos, leia a respeito, reflita, ainda que seja a coisa mais difícil que você fará na vida, e escolha. Decida o que é melhor para você, de acordo com suas convicções, sem a interferência de opinião alguma, sem achismos, suposições, conjecturas. Deixe registrado o que deseja para si para que seja você o autor de sua biografia até o capítulo final. O faça num exercício amplo de sua autonomia, exerça sua dignidade humana e tenha suas preferências respeitadas, de maneira consciente e esclarecida.

Opte pelo caminho que melhor lhe parece e tenha em mente que a finitude é inegável, lembrando-se sempre do quanto a Covid-19 deixou isso muito claro, a todos do mundo inteiro, redundando assim em dizer sobre a necessidade de se pensar a respeito de como se deseja o próprio fim.

Foto: Ray Bilcliff/Pexels


Workshop 

Existe uma grande dificuldade de enfrentamento sobre algo que é inegável: a finitude humana.

Para pensar a respeito desse tema, realizaremos um workshop sobre Diretivas Antecipadas de Vontade, no qual falaremos sobre a possibilidade de escolha do paciente diante de um mal em saúde que o acomete, buscando fazer valer suas vontades quando não puder expressar seus desejos em termos de tratamento e de caminhos a seguir.

Terça-feira: 02/06/2020
Horário: 19h às 21h
Local: Online (Microsoft Teams ou Google Meet)

Maiores informações: cursos@portaldoenvelhecimento.com.br
Inscrições em: https://edicoes.portaldoenvelhecimento.com.br/produto/diretivas/

Natalia Carolina Verdi

Natalia Carolina Verdi

Advogada, bacharel em direito pela Universidade São Judas Tadeus, cursou Especialização em Direito Médico, Odontológico e Hospitalar pela Escola Paulista de Direito, Especialização em Direito da Medicina na Universidade de Coimbra, e Mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. É professora convidada de cursos de pós-graduação e palestrante nas áreas do Direito e da Gerontologia. OAB/SP 237.141. E-mail: nvadvogada@gmail.com

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