A contribuição da velhice para o ajuste ao isolamento social

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O isolamento que vivemos se assemelha a aposentadoria, parte do envelhecimento social. Assim, estamos todos vivenciando a velhice. E, assim, contribuindo para a compreensão do isolamento social e seu enfrentamento.

Evaldo Cavalcante Monteiro (*)


O propósito do texto é trazer uma reflexão da articulação velhice e epidemia, tomando como tema o isolamento social. Partimos do pressuposto que o isolamento se assemelha a aposentadoria, parte do envelhecimento social. Assim, estamos todos vivenciando a velhice. Assim, almejamos contribuir para a compreensão do isolamento social e seu enfrentamento.

A velhice seria processual e entre os episódios significativos dela, está a aposentadoria. A palavra viria de aposentar, alojar, abrigar, do aposento como morada. O ganho pecuniário com o afastamento do trabalho teria etimologicamente a mesma origem, alojar e abrigar. O duplo sentido parece-nos articulado. O afastamento do trabalho traria um retorno ao aposento, a morada. Assim em época de isolamento social ser-nos-ia possível considerar que estamos todos aposentados, retornamos a casa, nos tornamos TODOS VELHOS.

Na aposentadoria, por pandemia ou por trabalho, a volta à casa se dá de forma abrupta, interrompendo a rede de relações, as trocas afetivas e perda da rotina que dá sentido ao tempo vivido. Desta maneira, trazer à baila a questão da aposentadoria poderia nos ajudar a entender as dificuldades e a lidar com o ajuste ao isolamento social vivido, por todos, em graus variados.

Para entendermos a transição da condição de trabalhador para aposentado, julgamos que seria necessário entender o sujeito no contexto do trabalho. Teríamos que considerar que viveríamos o mundo como num fluxo contínuo, do qual só nos aperceberíamos dele quando interrompido. Este modus operandi é estabelecido sócio culturalmente com suas regras. O fluxo se bastaria, não teríamos que atribuir um sentido, um significado a ele. Neste fluxo, estaria incluído o trabalho que fixaria a rotina do nosso cotidiano.

A rotina perduraria pelo tempo dedicado ao trabalho, no qual ficamos, usualmente, até nos aposentarmos, um tempo bastante considerável. Ante todo esse tempo, qualquer modificação na costumeira rotina poderia advir um estranhamento.

Subjetividade

A vivência desse fluxo contínuo tem o lado objetivo, o qual o trabalho imprimiria, mas poderíamos, também, viver a nossa subjetividade que passaria pela escolha da profissão.

No trabalho viveríamos como homem ou mulher, companheiro, amigo ou inimigo, estabelecendo relações com pessoas, a socialização. Assim, iríamos conhecendo e categorizando as pessoas: o chato, o mau caráter, o do bem etc. Mapeando a rede de relações saberíamos a quem poderíamos nos abrir, falando de nossas dificuldades; a quem poderíamos, mas não deveríamos; e a quem nem poderíamos e nem deveríamos. Assim poderíamos fazer alianças duradouras ou eventuais e as que nunca a faríamos.

Teríamos que considerar que as relações do mundo do trabalho estariam perpassadas pela nossa subjetividade, a qual dirigiria nossas escolhas, as aproximações ou distanciamentos. Desta forma afetaríamos os outros e seríamos por eles afetados. Construiríamos relações de amizades e inimizades, mobilizadoras de nossos afetos. Porém, a saída do trabalho implicaria na perda dessas trocas afetivas, uma vez perdidos os depositários dos afetos. O mundo do trabalho seria, ainda, um locus de reconhecimentos e de gratificações advindas dele.

Então, a saída do trabalho implicaria: na perda da rotina que, com sua fixidez, nos dá segurança, além de atribuir um sentido ao tempo; na perda das trocas afetivas com amigos e desafetos, além das satisfações advindas do trabalho em si.

Desafios

Os desafios postos aos aposentados, mesmo os provisórios decorrentes do isolamento social, são: ter que lidar com o tempo demais e o significado de menos que se instaurou com a retirada do trabalho e perda dos depositários do afeto; como toda perda, deve ser pranteada e elaborado o luto até poder conseguirmos novos depositários dos nossos afetos; transformar o isolamento social em distanciamento físico, mas não em afetivo; suportar a insegurança sobrevinda com a aposentadoria, forjar individualmente às próprias expensas um sentido para esse vazio de significado decorrente da perda da certeza dada pela rotina; ante as restrições do tempo de covid-19, refletir no estilo de vida que temos tido, confrontando com as modificações advindas; verificar: o que nos é, realmente essencial? 

O retorno à casa, ao aposento é um convite de retorno a si mesmo, a casa por excelência, você; o retorno  pode ser atemorizador, mas também é um reiniciar, situação da qual pode se sair mais fortalecido.

A aposentadoria decorrente do covid-19 implica, como todo aposentado, em uma reestruturação: evitar a contaminação; um cuidado com o corpo por meio de exercício; fazer um investimento afetivo, o teleinvestimento nas relações antigas e/ou de novos depositários; refazer a rotina com outras atividades, contudo há que se preservar um tempo para você estar consigo mesmo, para prantear o perdido e viver o luto, por mais doloroso que possa parecer; o desenvolvimento da espiritualidade pode ser um fator protetor, dando suportabilidade aos desafios e mantendo a fé no futuro.

A situação, também, atual, exige criatividade, novas formas de fazer, inventar, se reinventar; decidir se queremos ser o mesmo de antes ou não? BOM TRABALHO NOVO aos recém aposentados e ao antigos.

(*)Evaldo Cavalcante Monteiro – Terapeuta Ocupacional, Especialização em Gerontologia Social, Administração Hospitalar, Abordagem Sistêmica da Família e Método Terapia Ocupacional Dinâmica, Mestrado em Gerontologia Social e Doutorado em Educação e Professor da Especialização em gerontologia da Universidade de Fortaleza – UNIFOR. Texto publicado inicialmente no blog da Unifor.

Foto destaque: Andrea Piacquadio/Pexels


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