A condição dos idosos depois da pandemia

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Documento da Pontifícia Academia para a Vida aborda que, durante a primeira onda da pandemia, uma proporção considerável de mortes pela COVID-19 ocorreu nas instituições para idosos.

Davide Dionisi e Mariangela Jaguraba (*)


A velhice: o nosso futuro. A condição dos idosos depois da pandemia” é o título do documento recém publicado, com o qual a Pontifícia Academia para a Vida (PAV), de acordo com o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, propõe uma reflexão sobre os ensinamentos a serem extraídos da tragédia causada pela difusão da Covid-19, sobre suas consequências para hoje e para o futuro próximo de nossas sociedades.

O documento da Pontifícia Academia para a Vida aborda que, durante a primeira onda da pandemia, uma proporção considerável de mortes pela COVID-19 ocorreu nas instituições para idosos, lugares que deveriam proteger a “parte mais frágil da sociedade” e onde a morte atingiu desproporcionalmente mais em relação à casa e ao ambiente familiar. “O que aconteceu durante a COVID-19 impede de descartar a questão com uma busca por bodes expiatórios, por culpados individuais. Por outro lado, é necessário que se levante um coro em defesa dos excelentes resultados daqueles que evitaram o contágio nos asilos. Precisamos de uma nova visão, de um novo paradigma que permita à sociedade cuidar dos idosos”, aborda o texto.

O documento também evidencia que “do ponto de vista estatístico e sociológico, homens e mulheres têm geralmente hoje uma expectativa de vida mais longa. Esta grande transformação demográfica representa, de fato, um desafio cultural, antropológico e econômico”. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, em 2050, haverá dois bilhões de pessoas com mais de 60 anos no mundo: uma a cada cinco pessoas será idosa. “Portanto, é essencial tornar nossas cidades lugares inclusivos e acolhedores para os idosos e, em geral, para todas as formas de fragilidade”.

Ser idoso é um presente de Deus

No texto, a Pontifícia Academia para a Vida afirma que em nossa sociedade, prevalece muitas vezes a ideia da velhice como uma idade infeliz, sempre entendida apenas como a idade da assistência, da necessidade e das despesas para o tratamento médico.

“Ser idoso é um presente de Deus e um enorme recurso, uma conquista a ser salvaguardada com cuidado, mesmo quando a doença se torna incapacitante e surge a necessidade de cuidados integrados e de alta qualidade. É inegável que a pandemia reforçou em todos nós a consciência de que a riqueza dos anos é um tesouro a ser valorizado e protegido”, ressalta o documento.

Um novo modelo para os vulneráveis

Quanto à assistência, a PAV indica um novo modelo especialmente para os mais frágeis, inspirado na pessoa:

“A implementação deste princípio implica uma intervenção articulada em diferentes níveis, que realiza um cuidado contínuo entre a própria casa e alguns serviços externos, sem cesuras traumáticas, não adequadas à fragilidade do envelhecimento”, especifica o documento.

O material observa ainda que “as casas de repouso devem se requalificar num contínuo sociosanitário, ou seja, oferecer alguns de seus serviços diretamente nos domicílios dos idosos: hospitalização em casa, cuidando da pessoa individual com respostas de assistenciais moduladas nas necessidades pessoais em baixa ou alta intensidade, onde a assistência social e sanitária integrada e o cuidado domiciliar continuam sendo o pivô de um novo e moderno paradigma”.

Em substância, espera-se reinventar uma rede mais ampla de solidariedade “não necessariamente e exclusivamente baseada em vínculos de sangue, mas articulada de acordo com as pertenças, amizades, sentimentos comuns, generosidade recíproca na resposta às necessidades dos outros”.

O encontro entre gerações

Quanto ao confronto com os jovens, o documento evoca um “encontro” que possa levar para o tecido social “aquela nova seiva de humanismo que tornaria a sociedade mais solidária”. Muitas vezes o Papa Francisco exortou os jovens a ficarem perto de seus avós, acrescentando que “o homem que envelhece não se aproxima do fim, mas do mistério da eternidade. Para entender isto ele precisa se aproximar de Deus e viver na relação com Ele. Cuidar da espiritualidade dos idosos, de sua necessidade de intimidade com Cristo e de partilha da fé é uma tarefa de caridade na Igreja”. O documento deixa claro que “é somente graças aos idosos que os jovens podem redescobrir suas raízes, e é somente graças aos jovens que os idosos recuperam a capacidade de sonhar”.

A fragilidade como magistério

Segundo o documento, o testemunho que os idosos podem dar através de sua fragilidade também é precioso. “Ele pode ser lido como um magistério, um ensinamento de vida”, observa a reflexão, esclarecendo que “a velhice também deve ser entendida neste horizonte espiritual: é a idade propícia do abandono a Deus. À medida que o corpo enfraquece, a vitalidade psíquica, a memória e a mente diminuem, a dependência da pessoa humana de Deus parece cada vez mais evidente.”

A mudança cultural

Por fim, um apelo: “Toda a sociedade civil, a Igreja e as diversas tradições religiosas, o mundo da cultura, da escola, do voluntariado, do espetáculo, da economia e das comunicações sociais devem sentir a responsabilidade de sugerir e apoiar medidas novas e incisivas, para que seja possível acompanhar e cuidar dos idosos em contextos familiares, em suas próprias casas e, em todo caso, em ambientes domésticos que mais se assemelham a uma casa do que a um hospital. Esta é uma mudança cultural a ser implementada”.

Pontifícia Academia para a Vida, saiba mais
Trata-se de uma academia científica criada em 11/02/1994 pelo Papa João Paulo II, através do Motu proprio Vitae Mysterium. Tem por objetivo estudar, informar e formar sobre os principais problemas de biomedicina e de direito, relativos à promoção e à defesa da vida, sobretudo na relação direta que estes têm com a moral cristã e as diretrizes do Magistério da Igreja. Para realizar estes fins, em outubro de 1994 foi instituída uma fundação denominada Vitae Mysterium. A Pontifícia Academia para a Vida goza de autonomia e mantém relações com o “Pontifício Conselho para a Pastoral dos Agentes de Saúde” e com vários outros dicastérios da Cúria Romana envolvidos com o serviço à vida humana. A Academia tem caráter supra-nacional, a ela pertencem setenta membros, todos nomeados pelo Papa, representantes dos mais diversos ramos das ciências biomédicas e daquelas relacionadas com os problemas que dizem respeito à promoção e defesa da vida humana. Possui também três outros membros “ad honorem” e membros correspondentes que trabalham em institutos e centros de estudo sobre a cultura da vida. (informações extraídas do Wikipédia)

(*) Davide Dionisi e Mariangela Jaguraba – Vatican News.

Foto de Brett Sayles/Pexels


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