A comunicação eficiente na velhice e no processo de envelhecimento

Possibilitar que pessoas que vivem a velhice possam ter uma comunicação eficiente é um dever de quem se preocupa com as relações em todas as fases da vida.

Samuel Barros Leal Karagulian (*)

 

Há um consenso entre as ciências que tratam do ser humano e de suas relações, de que a fala é agente de melhora e cura emocional e psicológica, e consequentemente de melhora e cura física. E o contrário também é aceito. Há um ditado que diz: “Quando a boca cala o corpo fala, mas quando a boca fala o corpo sara”.

Observamos que pessoas que podem e conseguem falar são mais equilibradas emocionalmente e mais assertivas em comparação àquelas que não podem falar.

Não se trata de um falar qualquer, mas um falar como comportamento de inclusão, participação e que possibilita as mudanças desejadas. Um falar qualitativo e não quantitativo. E é possível afirmar que não se trata apenas da fala como comunicação verbal, mas de uma metacomunicação, ou seja, de uma comunicação global que inclui a verbal, mas é muito mais abrangente com gestos, tom de voz, comportamento corporal e até mesmo o silêncio.

Possibilitar que pessoas que vivem a velhice possam se comunicar de maneira eficiente é um dever de quem se preocupa com as relações em todas as fases da vida.

Ao falar de comunicação podemos identificar que existem alguns ramos científicos que se dedicam aos fundamentos e conceitos. Existem muitas teorias sobre a comunicação, porém, não é o objetivo desta reflexão discorrer sobre essas teorias devido à sua complexidade e por ser, cada uma, a tese defendida por seus autores. O objetivo aqui é refletir na intenção de criar possibilidades para pessoas que vivenciam a velhice, de encontrarem espaço de comunicação onde possam ouvir e serem ouvidas, e assim fazer reflexões sobre si e sobre o mundo que as rodeiam, para viverem suas singularidades dentro de toda pluralidade social.

De acordo com Littlejonh (1988), um importante aspecto da comunicação interpessoal é o estabelecimento de relações que se dá pela percepção recíproca dos envolvidos.

Estabelecer relações, com a possibilidade de comunicação efetiva, é complexo e trabalhoso, pois são histórias de vida se encontrando dentro de um momento específico. Pessoas que vivem suas vidas e que se entrelaçam com outras vidas ao longo de sua existência, que influenciam e são influenciadas umas pelas outras.

Segundo Barnlund (1968), o estudo da comunicação interpessoal ocupa-se da investigação de situações sociais relativamente informais em que as pessoas, em encontros face a face, sustentam uma interação concentrada através da permuta recíproca de pistas verbais e não verbais.

É possível afirmar que nos discursos as pessoas apresentam seus significados, suas crenças, suas realizações e suas frustrações, dentre outros itens, então é possível afirmar que nos discursos as pessoas apresentam suas vidas.

Relacionamentos interpessoais, sejam numa abordagem informal, entre amigos, familiares, etc., ou em uma abordagem formal, consultas, terapias psicológicas, entre outras, são fundamentais para pessoas em qualquer fase de suas vidas.

A proposta desta reflexão, que surgiu ao participar do curso de extensão Fragilidades na Velhice: gerontologia social e atendimento com enfoque no sujeito, é a possibilidade de ampliar um projeto, ainda experimental, que se nomeia “Contos e Crônicas de Pessoas que Vivem”. São encontros em que as pessoas contam e ouvem histórias de vidas numa proposta de relacionamento interpessoal para reflexão sobre a possibilidade de singularidade na velhice e no processo de envelhecimento. Ou seja, a possibilidade de sermos nós mesmos em mais essa fase de nossas vidas.

Esses encontros têm a pretensão de que as pessoas possam criar comportamentos de pensar e agir como atores de seus sentimentos e vontades e não reatores ao que o sistema social lhes impõe. Se na velhice há fragilidades, há também experiência suficiente para superar essas fragilidades, ou lidar com elas. Se há limitações, é possível pensar em como agir nessas limitações sem se entregar emocionalmente numa paralisação de frustração e tristeza.

Grupos terapêuticos de “contação de histórias” que podem ser reais ou imaginárias, pois se são reais é possível refletir nas experiências vividas dos fatos narrados, se forem imaginárias é possível refletir no ideal sonhado e como se direcionar para esse ideal, ainda que seja para caminhar em sua direção, mesmo que não seja possível realizá-lo plenamente.

Nesses grupos, os participantes, que podem estar em qualquer fase da vida, porém com enfoque na reflexão do envelhecimento, são incentivados a pensar e a criar um ambiente personalizado e singular para suas vidas e não se conformarem com o modelo massificado de comportamento. É claro que o “sistema” é rígido e forte, e esse processo de mudança do paradigma da velhice e do processo de envelhecimento, não será de uma hora para outra, mas é possível vislumbrar desenvolvimento real por um olhar mais humano e eficiente sobre a velhice.

A “boa velhice” não é a negação de suas características sobrepondo uma juventude forçada e irreal, mas sim o aprimoramento, o desenvolvimento e a prática das vivências possíveis nessa fase da vida.

Porém, em paralelo a projetos como esse torna-se necessário o treinamento de profissionais e de outros envolvidos no cuidado de pessoas que vivem a velhice, pois percebe-se que muitos profissionais e cuidadores, já engajados no trabalho direto com pessoas na velhice, ainda têm muita dificuldade nos discursos e no comportamento frente aos conflitos que encontram. Algumas vezes é possível observar a percepção de discursos pessimistas, com características de crítica e de certa desistência, quando era de se esperar que existisse esperança nas mudanças que se propõem. Se esta esperança for entendida e disseminada, é possível afirmar que ocorrerão transformações.

Mudanças passam pela percepção da necessidade de mudar, seguida pela desconstrução do que está disfuncional, ainda pela ampla discussão e reflexão para se alcançar as melhores maneiras de desenvolver o novo olhar e, em consequência, pelo agir na nova direção, ou nas novas direções encontradas. Ou seja, há um enorme esforço para que se aconteça.

É fundamental que velhas e velhos tenham voz e possam se comunicar sem ter que aceitar as imposições sociais e de um sistema que olha para a velhice no paradigma doença/saúde. Negar essa possibilidade de comunicação a quem já vive a velhice é negar a nossa própria oportunidade no, mais perto do que nunca, futuro que nos espera.

Pode-se verificar que sem a mudança de olhar dos profissionais será impossível a mudança do sistema. Portanto é preciso esperança e esforço, pois, se para alguns poucos a velhice já é vivenciada como uma fase de crescimento e desenvolvimento da vida, ainda para uma grande parte é um momento pesado, de lamentos e murmurações, mais parecido com o “não viver”.

Para concluir, dentro da “comunicação” eficiente e de qualidade que o curso me proporcionou, vejo a possibilidade de ser um integrante mais engajado nessa mudança proposta, com muita esperança em um novo olhar para a velhice e o processo de envelhecimento.

Referências

BARNLUND, Dean. Interpersonal communication: survey and studies. Boston: Houghton Mifflin, 1968. p. 10

LITTLEJOHN, S. W. Fundamentos teóricos da comunicação humana. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

Foto de destaque de Bruno Aguirre

(*) Samuel Barros Leal Karagulian é formado em Arquitetura e Urbanismo pela UnG – Universidade de Guarulhos e em Psicologia pela Universidade Anhanguera. Minha atuação principal nesse momento é como psicólogo clínico com enfoque sistêmico e com grupos terapêuticos com enfoque em psicodrama. Texto escrito no curso de extensão Fragilidades na Velhice: gerontologia social e atendimento, ministrado pela PUC-SP no primeiro semestre de 2018. E-mail: samuelblk@hotmail.com

 

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