A catarata ainda é a maior causa de cegueira

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Apesar da evolução lenta na grande maioria dos casos, a catarata ainda é a maior causa de cegueira reversível em todo o mundo. Entre 50 e 70 anos, a cirurgia é bem mais fácil, tem uma recuperação rápida e um risco muito pequeno.

Lúcia Guimarães (*)


Quem está chegando perto dos 50 anos consegue explicar muito bem os efeitos do tempo sobre a qualidade da visão. É a hora em que a presbiopia, conhecida popularmente como vista cansada, já está dificultando aquelas atividades que exigem visão de curta distância. A gente percebe que ler, usar o celular ou fazer trabalhos manuais exigem um esforço maior. Não raramente, começamos a afastar o braço ou apertar os olhos para enxergar melhor. Especialmente para as pessoas que nunca tiveram nenhum problema nos olhos, esse momento é de grande impacto, porque é chegada a hora de usar óculos pela primeira vez. Se, para alguns, a novidade até agrada, a grande maioria tem bastante dificuldade para se adaptar.

Diferente da presbiopia, com sintomas bem claros e palpáveis, outra consequência do efeito do tempo na visão é bem mais silenciosa: a catarata, que nada mais é do que o envelhecimento normal do cristalino, a lente natural dos olhos. Esse processo, que provoca o embaçamento gradual da visão, acomete 100% das pessoas, começa por volta dos 50 anos e evolui lentamente, sem grandes prejuízos no seu princípio. O tratamento é cirúrgico, com a substituição do cristalino por uma lente intraocular.

Mas vale a pena pensar em catarata quando está no início, se ela só vai começar a incomodar mais tarde? São várias as respostas, mas talvez a mais importante esteja diretamente ligada à tendência cada vez mais observada na medicina atual: agir antes mesmo que os sintomas apareçam. Isso porque, apesar da evolução lenta na grande maioria dos casos, a catarata ainda é a maior causa de cegueira reversível em todo o mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Outra resposta, bem mais fácil de entender é que a cirurgia de catarata pode significar o passaporte definitivo para a uma visão perfeita, e, quiçá, a independência dos óculos. Isso porque, com a alta tecnologia aplicada no desenvolvimento de lentes intraoculares, a cirurgia de catarata pode eliminar de vez a presbiopia, além de outros problemas, chamados refrativos, como o astigmatismo e a hipermetropia.

E não foram somente as lentes que evoluíram. A própria cirurgia, em si, está muito longe daquela imagem antiga de um procedimento complicado, pontos nos olhos, colocar tampões e amargar um longo período de recuperação. Hoje, uma cirurgia de catarata, com toda a alta tecnologia em equipamentos e insumos que envolvem o procedimento, leva minutos, sem necessidade de pontos e de onde a pessoa sai enxergando perfeitamente.

Como saber qual o momento certo para fazer a cirurgia?

Aqui, a resposta é uma só: se você tem 50 anos ou mais, é hora de consultar o seu oftalmologista. Apenas ele será capaz de determinar o momento certo e o procedimento a ser utilizado. Esta observação deveria ser óbvia, mas a realidade mostra que não é exatamente assim.

Conduzida pelo Ibope, a pedido da Alcon, empresa que é líder mundial em cuidados com a visão, a pesquisa Saúde Ocular no Brasil mostrou que 34% dos brasileiros nunca foram ao oftalmologista. E entre os 66% que já foram, a maioria (53%) declarou ir ao oftalmologista menos de uma vez a cada dois anos. A mesma pesquisa mostra também que, dos 93% que afirmaram já ter ouvido ou conhecer a catarata, 53% não sabem como tratá-la.

Entrevistando o especialista
Com 21 anos de profissão, o Dr. Francisco Porfírio Neto Jr., um dos principais especialistas em cirurgia de catarata do Brasil, esclarece as principais dúvidas sobre o tema. Ele já realizou mais de 40 mil cirurgias de catarata. Vamos à entrevista:

Os sintomas da catarata não são perceptíveis para a pessoa quando ela ainda está no início. Como, então, saber se já há ou não catarata?
Realmente, os sintomas são quase imperceptíveis para o paciente no estágio inicial da catarata. Eles, na verdade, começam a incomodar em uma fase mais adiante, em que a catarata já está mais madura, mas, nem sempre são associados a ela. Nessa fase, com o embaçamento gradativo da visão e o aumento da perda de contraste, é comum acontecerem acidentes domésticos, especialmente quedas. Se a pessoa dirige, pode sofrer acidentes de trânsito. E ela não percebe que o problema é a visão, porque a catarata evolui lentamente e acabamos nos acostumando com ela. O meu conselho então é não esperar que os sintomas cheguem a esse estágio. Ao completar cinquenta anos, é necessário fazer uma consulta oftalmológica, mesmo que não esteja sentindo nada, para que o oftalmologista possa verificar se há ou não catarata, avaliar o estágio em que ela se encontra e recomendar a melhor forma de agir.

Como o oftalmologista faz o diagnóstico de catarata? Que tipo de exame é feito?
Basicamente, os exames são a lâmpada de fenda, o teste da acuidade visual e a biometria. Também levamos muito em consideração as queixas do paciente. Por exemplo, se ele enxerga bem durante o dia, mas tem mais dificuldade para enxergar no final da tarde, isso já pode indicar um começo de catarata.

Existe algum parâmetro que determine o momento certo de fazer a cirurgia de catarata?
A definição do momento certo de fazer a cirurgia não é tomada a partir de um único parâmetro. Ela pode variar, porque envolve também muitos aspectos subjetivos. Um deles é a própria experiência de cada cirurgião, a capacidade que ele tem de avaliar o estágio de cada paciente. Além disso, cada caso deve ser tratado individualmente, levando em consideração as necessidades e expectativas do paciente, sua saúde ocular e até mesmo o seu estilo de vida. A partir da minha vivência, o que posso afirmar é que, normalmente, entre 50 e 70 anos, a cirurgia de catarata é bem mais fácil, tem uma recuperação rápida e um risco muito pequeno. Acima de 70 anos, isso começa a mudar, com a evolução da catarata ano a ano e o seu consequente amadurecimento. Por isso, acredito que não se deve deixar o paciente com catarata ir postergando. Se demorar demais e a catarata endurecer, a cirurgia exige mais tempo e, em muitos casos, é necessário utilizar uma anestesia mais significativa. Por outro lado, um paciente de 60 e poucos anos, com uma catarata em estágio inicial, é possível operar em poucos minutos, utilizando apenas um colírio anestésico.

Como o senhor vê a evolução da cirurgia de catarata e a resposta dos pacientes em termos de satisfação?
Há 16 anos o índice médio de satisfação dos pacientes após a cirurgia era algo em torno de 75%. Hoje em dia, este índice já chega a 92%. Eu acredito que boa parte desse resultado se deve aos altos investimentos feitos pelas empresas no desenvolvimento de tecnologias de equipamentos e lentes, que melhoram cada vez mais a experiência dos pacientes. Em cirurgias realizadas com lentes de alta tecnologia, o índice de satisfação beira os 100%.

(*) Lúcia Guimarães escreve para a Agencia Truly

Foto destaque de Kindel Media/Pexels


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