A arte na alma

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Picasso usava a linguagem da arte como expressão, mas, na sua bem vivida jornada, experienciou também muitos lutos e a dor do próprio fim. Para ele ser livre é ter a arte na alma.


Pablo Picasso (1881-1973) é sinônimo de gênio da arte moderna, um homem que escapa ao desgaste do tempo, não se rendendo aos caprichos da atualidade. Em Málaga, no dia 25 de outubro de 1881, a parteira de Picasso o deu como morto, mas seu médico soprou o fumo do charuto na cara do futuro gênio, fazendo com que o pequeno Pablo começasse a chorar. Com este fato, verdadeiro ou não, Picasso costumava dizer que desde pequeno encarou a morte.

Na escola, Picasso interessava-se apenas pela forma como o professor desenhava os números no quadro, parecia-lhe a única maneira adequada de se exprimir. Segundo Gertrude Stein, sua amiga, Picasso não desenhava na infância desenhos de crianças, pois já tinha nascido pintor.

Quando desenhava um adulto, sempre mantinha algo infantil. O fato de desenhar a criança como

um adulto e desenhos do adulto com características infantis, revelou importantes referências à sua genialidade, percebidas desde muito cedo em suas produções, quando as fases se mesclavam.

Fases e cores: luto, solidão e leveza

A fase azul (1901-1906), anuncia-se com “A bebedora de Absinto”, no qual uma mulher sentada à mesa, sozinha, dialoga com o copo a sua frente. Era o destino que se revelava na solidão e se desenrolava no isolamento.

Mas a verdadeira obra prima da fase é “Evocação – O Funeral de Casagemas”, que representa o fim da amizade entre ele e seu amigo Carlos Casagemas que se suicidara num café em Paris.

Foi na pintura que Picasso se conscientizou da morte do amigo, era uma forma de compreender e apreender o mundo. A compreensão significava a observação e percepção, dando sentido à sua frase citada por Plazy (2007, p. 43): “Foi pensando que Casagemas estava morto que passei a pintar em azul”.

A morte é o tema de toda a fase azul. Para o amigo, fez uma homenagem digna de um santo, mas sua versão foi bem diferente, mais profana e ateísta. No lugar de anjos pintou prostitutas cobertas apenas com meias. Picasso concede à alma do amigo, na esfera celeste, as alegrias paradisíacas que lhe foram negadas na terra. O azul era para Picasso a forma de exprimir o sentimento de luto e dor. Utilizou esta cor durante quatro anos, tornando-a uma característica de seus quadros e sua primeira marca.

Kovács, ao falar sobre perdas e processo de luto afirma: O luto é o processo de elaboração diante de uma perda de uma pessoa com quem vínculos foram estabelecidos. É a vivência da morte consciente, é como se uma parte nossa morresse. Faz parte de nossa existência e nos configura como humanos, e dela nos recordamos, todos temos histórias de perda para contar, e às vezes é mais sofrida do que a própria morte. É um vínculo que se rompe de forma irreversível, quando se trata de morte concreta (2009, p. 217).

Em 1903, já com novo entusiasmo, Picasso pinta “A Vida”. Aqui nada é por acaso. A certeza do artista transforma-se na incerteza do observador. Picasso expressou nesta tela quatro diferentes formas de existência. O solitário, o abandonado, o casal de namorados abraçados e a mãe que ama o filho encaram-se numa configuração de amor carnal. Entre a perda do amor e sua realização, define-se a vida, tudo entre intensos tons azuis que exprimem a miséria corporal da idade e as doenças.

Com o fim do período azul, o fundo melancólico sai de cena e torna-se rosa, Picasso saboreia sua habilidade celebrando a beleza. Entretanto, sente-se ainda um sopro de melancolia. A dor deixa de ser amarga e torna-se mais adocicada.

No final da década de 1930, quando o impulso criativo de Picasso parecia finalmente estar enfraquecendo, os acontecimentos o levaram a criar o seu quadro mais famoso: “Guernica”. Esta obra foi uma resposta aos horrores da Guerra Civil Espanhola. Foi a expressão máxima não só do sofrimento espanhol como do impacto devastador dos armamentos modernos de guerra sobre suas vítimas em todas as partes do mundo.

Plazy (2007, p. 149) citando Picasso, comenta que: “A arte moderna tem que ser morta. Isso significa também, que temos de nos matar a nós próprios, se queremos continuar a realizar alguma coisa”.

Picasso ficou exilado da sua terra natal para o resto da sua longa vida. Durante a segunda Guerra Mundial, ele ficou proibido de expor, mas sem que ninguém o molestasse seriamente. Como uma espécie de consequência de Guernica, Picasso pintou em outubro de 1937 a “Mulher Chorando”. A temática do sofrimento da época está aqui condensada numa imagem de um país ferido, da dor, desse luto que é preciso portar quando, como escreveu Michel Leiris nos Cahiers d’arts, citado por Plazy (2207, p. 136), “tudo o que amamos vai morrer”.

Se os quadros do cubismo eram conhecidos pelo contraste entre a banalidade do motivo e a destruição da forma que o motivo comporta, trata-se neste caso de um duplicar da destruição. A forma, cuja destruição é uma característica da arte de Picasso, tem agora também que comportar o motivo da destruição, do desequilíbrio e da dissolução.

Em 1944, Picasso vive de pintar, rir e amar. Para ele ser livre é ter a arte na alma. Plazy (2007, p. 155) citando o pensamento de Picasso escreve: “Rir é resistir ao desespero. Amar é dizer não a guerra. Pintar é viver. O homem que ri, que ama e que pinta, é um homem livre que escapa à história”.

No verão de 1945, tudo o que Picasso desejava era continuar a pintar e desenhar, mas o seu receio era o público. Picasso teve que pagar com a solidão e quanto mais se isolava, mais crescia o respeito pelo gênio. A sua obra do pós-guerra é uma grande manifestação de privação, reflete a sua própria existência, ou seja, a existência de um artista que se transformou em propriedade pública.

Em 1955, Picasso compra uma imponente moradia do século XIX situada em Cannes. Ele amava a sua desordem, os seus quadros amontoavam-se. Três anos depois compra o palácio de Vauvenargues. Picasso complementa: “Terminar uma coisa significa matá-la, significa tirar-lhe a vida e a alma”. Nessa época pinta de forma quase maníaca, passa a datar os seus quadros, cria uma obra final de contínuas repetições, cristalizações de um momento de felicidade atemporal na consciência da inutilidade final.

A produção dos últimos anos não é uma herança, pelo contrário, é uma luta constante contra a morte. O “Nobre com Cachimbo”, do final de 1968, descreve sob a forma de um Senhor fumando, nobre e nostálgico, a identificação de Picasso com esta figura, que retorna nos últimos anos. Também o pintar excessivo de crianças é a sua resposta pessoal à morte que se aproxima, revelando nas suas últimas obras, mais uma vez o desejo de insubordinação.

Picasso reconhece: “Quando tinha a idade destas crianças, sabia desenhar como Raffael; mas precisei de uma vida para aprender a desenhar como elas”.

Picasso usava a linguagem da arte como expressão, mas, na sua bem vivida jornada, experienciou também muitos lutos; Casagemas, as fases, Guernica e a dor do próprio fim. Mas o que fazer com tanta melancolia e solidão presentes numa fase de um azul sem fim? Quem sabe o gênio tenha escolhido como salvação o rosa por toda sua leveza e simplicidade.

Em tudo nesta imprevisível vida, há que, primeiramente, desconfiar para depois destruir, despedaçar e assim ceder espaço para o novo. E o que dizer, então, do obstinado Picasso, no seu desejo de aperfeiçoar a visão num traçado perfeito, imperioso, exultante de prazer, que se exibe, forte e confiante, mas que continua só.

Para Picasso: “a arte não é uma questão de aprendizagem controlada, mas uma aventura totalmente solitária”. E assim se revela o homem-narciso: “estou mais do que convencido de nada esperar senão de mim mesmo, de traçar sozinho o meu caminho”.

Picasso morre em 08 de abril de 1973 e com ele repousa sua célebre frase: “Chega, não é verdade? Que mais tenho que fazer? Que mais poderia acrescentar? Tudo foi dito”.

Referências
COLEÇÃO FOLHA. Pablo Picasso. São Paulo: Sol, 2007.
CLOUZOT, H.G. O Mistério de Picasso. [Filme-DVD]. França: Magnus Opus, 1956.
KOVÁCS, M.J. “Perdas e o processo de luto”. In: SANTOS, F.S.; INCONTRI, D. (Org.). A Arte de morrer. Bragança Paulista: Comenius, 2009.
PLAZY, G. Picasso. Porto Alegra: L&M, 2007.
PICASSO, P.R. Portifólio. Lisboa: Taschen, 2004.


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Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: [email protected]

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