A Arte do Esquecimento: expressão para além do individualismo

A Arte do Esquecimento é uma instalação audiovisual e intergeracional. É também uma reflexão sobre a função da Arte como instrumento de valorização do sujeito velho e esquecido, não só pela patologia que o aflige, mas por uma sociedade que o afasta do convívio social. 


Impossível controlar a emoção ao vê-la observar, com certa estranheza, a bela composição das obras ali expostas.

Em sua face de 90 e lá vai pedrada, como ela mesma diz, a nítida surpresa de quem não lembra bem ao certo aquilo que foi feito, aos poucos, vai dando lugar ao orgulho por cada parabéns recebido.

Ao lado da sua cuidadora, ela vivia a certeza de ter feito algo importante, afinal, sua arte estava lá, exposta com toda pompa das galerias de Arte em plena Faculdade de Belas Artes de São Paulo.

A Arte do Esquecimento é uma instalação audiovisual e intergeracional. É também uma obra de arte revolucionária por sugerir uma mudança no conceito estético e no pensar criativo vivido pelo artista plástico.

Mariana Lopes Teixeira fez com nobreza o seu Trabalho de Conclusão de Curso de Bacharel em Artes Visuais. Sob a orientação da Profa. Dra. Fabíola B. Notari, expôs uma arte capaz de ir além da individualidade como processo, a qual foi apresentada à banca de defesa composta por Emerson Rodrigues de Brito e Cristiane T. Pomeranz, no dia 18/6/2019.

De maneira altruísta, a artista uniu o seu pensar e o seu sentir às reações que a arte proporciona ao grupo de senhoras com problemas de esquecimento, participantes do Faça Memórias, projeto que acontece há 10 anos no Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia, o MuBE, em São Paulo. 

Ao se envolver com as idosas, Mariana pode refletir sobre a função da Arte como instrumento de valorização do sujeito velho e esquecido, não só pela patologia que o aflige, mas por uma sociedade que o afasta do convívio social. 

Notou a evidência da Arte que tira o protagonismo da doença e a devolve ao idoso por meio de expressões artísticas que falam muito além das questões plásticas.

Com uma energia pulsante como resultado plástico, o pensamento artístico da jovem Mariana, de 26 anos, se desdobrou ao encontro da arte capaz de reascender desejos de vida de cada uma daquelas senhoras que, semanalmente, encontram nas atividades artísticas um meio de potencializar suas velhices, nem que por um instante.

Como uma faísca capaz de ascender histórias de vida esquecidas, a estética proposta por Mariana escancara o poder modificador da Arte.

Enquanto a obra de arte ia se constituindo, Mariana observava as diversas velhices que lhe ensinavam algo além da arte, suas teorias e estética.

Vai viver a vida, Mariana! Vai viver tua arte compartilhada capaz de modificar a tua e outras vidas.

Siga adiante que o caminho você descobriu!

No mais, vai ser velha! A velha que carregará no coração estes meses imersos no teu TCC.

Teu caminho está em você e você, Mariana, bem sabe que a felicidade só é verdadeira se for coletiva.

Carinho e orgulho enorme de quem estará sempre ao teu lado como companheira de caminhada.

Serviço

EXPOSIÇÃO BA CREATIVE COLLECTIBLES

Local: Museu Belas Artes de São Paulo (muBA) – Sede

seg. a sex., das 10h às 20h / Sáb., das 10h às 16h

Até 18 de agosto

Endereço: Rua Dr. Álvaro Alvim, 76, Vila Mariana, São Paulo – SP

Fotos: Cristiane T. Pomeranz


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Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. Idealizadora do Faça Memórias em Casa que propõe o contato com a História da Arte para tornar digna as velhices com problemas de esquecimento. www.facamemoriasemcasa.com.br E-mail: crispomeranz@gmail.com.

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