A amante

“A amante” é um filme extremamente sensível, humano que traz esperança e possibilidade de revermos nossas escolhas, não apenas nas questões do amor, mas na forma de condução dos dias.

 

Hedi (Majd Mastoura) é um homem introvertido, que não espera muito da vida. Ele permite que todos tomem decisões por ele, como sua autoritária mãe, que planeja seu casamento; seu chefe, que o faz trabalhar em datas comemorativas; e seu irmão, que sempre diz como ele deve se comportar. Em uma viagem profissional Hedi conhece Rim (Rym Ben Messaoud), com quem inicia uma relação amorosa. Agora, durante o tempo em que os preparativos do matrimônio acontecem, Hedi é forçado a finalmente tomar uma decisão.

A vida sempre surpreende, principalmente quando dela mais nada esperamos. Passa um dia, passa outro e tudo igual, a monotonia impera – claro, resultado de nossas escolhas, você poderia dizer. Falta coragem, ânimo, iniciativa, disposição e, acima de tudo, um sentimento legítimo pelo novo caminho.

Ufa! É preciso um fôlego emocional diferenciado para tamanha guinada, diria o angustiado Hedi (Majd Mastoura) no drama romântico tunisiano “A amante” (2018), filme escrito e dirigido por Mohamed Ben Attia com coprodução da França e Bélgica.

Então, vamos lá. Nosso protagonista é um sujeito com postura passiva diante de tudo que se apresenta: trabalho, amor, vida social, família e mais um bocado de coisas que claramente conseguimos supor, seja pelos seus silêncios ou omissão, seja pelo olhar vazio e resignado. Hedi seria uma daquelas pessoas que se cutucássemos o ombro e perguntássemos: “Tem alguém aí dentro?” Provavelmente ele nem entenderia a questão.

De casamento marcado com a delicada Khedija (Omnia Ben Ghali) e um razoável emprego numa fábrica de automóveis arranjado pelo pai da noiva, lá está o introvertido jovem sem qualquer reação. Para piorar o cenário e pressionar mais ainda o pobre, está a matriarca, Baya (Sabah Bouzouita) – sempre tomando as rédeas das situações, tudo pela reputação e bom nome da família –, um suposto irmão “bonito e perfeito” e um chefe tirano.

Hedi não parece viver sua vida, ele apenas assiste passivamente momentos vazios, sem emoção ou qualquer energia, como se estivesse no piloto automático dos dias. Porém a angústia o consome e, ironicamente, o conduz ao desejo de mudança. Claro, tudo um pouco desajeitado, mas, de qualquer maneira, o movimento se impõe.

Era só isso o que importava e, por que não dizer, uma ajudazinha do destino em boa hora. Cenário: um resort. Assim, uma inocente viagem de trabalho abre a cortina do amor e permite que o calor do sol conquiste o coração frágil e desejante de Hedi.

Se você ainda tem dúvida quanto a identidade dessa emoção é porque ainda não conheceu a jovem Rim (Rym Ben Messaoud), uma mulher que vive de forma descompromissada, de bem com a vida – apenas um dia por vez.

O encontro entre Hedi e Rim é intenso, é troca constante, é pele que arde, é sensual e, mais que tudo, afetuoso.

A liberta Rim apresenta possibilidades e uma avassaladora coerência com valores e princípios. Sim, porque para ela viver pode ser simplesmente bom.

Com Rim, Hedi se sente homem, vivo, pronto para realizar o desejo de se tornar um desenhista. Ela diz: “Não é sonho, é projeto, acredite.”

Resumindo, a grande questão da história são os extremos que se apresentam: de um lado, emoção, calor e imprevisibilidade; de outro, segurança e monotonia. Hedi sabe que são caminhos opostos.

Conhecer Rim, desviar-se do “caminho” faz com que Hedi passe a questionar as tradições, a noiva (seus desejos) e toda uma sociedade que reprime e castra a liberdade de escolha e de sentimentos.

“A amante” é um filme extremamente sensível, humano que traz esperança e possibilidade de revermos nossas escolhas, não apenas nas questões do amor, mas principalmente na forma de condução dos dias… que deveriam ser plenos, leves e coerentes com o que acreditamos.

Mas, se mesmo assim, a escolha for pelo comodismo, inércia ou medo do inesperado, lembre-se: até que alguém volte e nos diga que existe outra vida, o que temos para hoje é essa.

Portanto, desfrute-a da melhor maneira que puder e delicie-se com o acaso. Com certeza, uma surpresa o espera.

Existe alguém aí dentro de você?

 

 

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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