Irene Cruz Anne da Silva, 64 anos, jornalista

O Grande Conselho do Idoso surgiu da necessidade de um órgão de representação dos idosos junto à Administração Pública Municipal. Criado em setembro de 1992 e oficializado por meio da Lei 11.242/92, o Conselho está atualmente vinculado à Secretaria de Participação e Parceria e à Coordenadoria do Idoso, e tem a finalidade de propor políticas de proteção e assistência a serem prestadoras aos idosos do Município de São Paulo.

Marisa M. Feriancic

 

O Grande Conselho Municipal do Idoso atua, principalmente, na área da preservação e afirmação da identidade do idoso. O Conselho existe para defender a causa dos idosos de forma abrangente, entre outros, nos campos de Governo, Habitação, Saúde, Transporte, Assistência Social, Segurança e da Cultura, recebendo sugestões e recomendações quanto ao funcionamento de asilos e casas especializadas em abrigar idosos, orientando a população idosa sobre seus direitos e procurando restabelecer a história dos idosos no país e no mundo.

O Conselho é composto por 30 representantes dos idosos titulares e 15 suplentes, todos eleitos, mais 15 representantes da Administração Municipal e respectivos suplentes que trabalham voluntariamente. Possui uma secretaria executiva, formada por cinco representantes dos idosos, escolhidos entre os mais votados de cada uma das regiões do município de São Paulo. Todos os cargos eletivos do conselho têm um mandato de dois anos.

Irene me recebeu em sua sala, no Conselho Municipal do Idoso. Sua agenda estava lotada de compromissos e particularmente naquele dia, ela terminava de organizar a primeira Assembléia Geral de sua gestão, com a finalidade de definir políticas, programas e projetos.

Conversamos sobre sua trajetória pessoal, profissional, suas metas e seus desafios na Presidência do Conselho Municipal do Idoso.

Estou no movimento do idoso há pelo menos 10 anos.

Depois que criei meus filhos, cuidei da minha sogra, eu me vi precisando fazer alguma coisa mais além de ser dona de casa. Sou jornalista formada pela faculdade Cásper Libero. Na época que eu me formei o diploma era da PUC, então também sou “Puquiana”. Quando resolvi que precisava fazer alguma coisa, achei difícil voltar ao mercado de trabalho. Trabalhei na área de publicidade, uma área muito dinâmica e também achei que não teria condições de acompanhar aquela meninada recém formada.

Eu não me aposentei. Parei de trabalhar quando me casei. Há pouco, quando participei de um seminário na Associação Israelita para falar sobre minha experiência, com idosos, eu disse que eu descobri que tenho uma terceira vocação. Acredito que todos temos uma vocação na vida. O que é muito bom, graças a Deus.

Minha primeira vocação era ser dona de casa, mãe, esposa e eu briguei muito com meu pai que me obrigava a estudar. Ele, muito avançado para a época me dizia: Ótimo minha filha, esta é sua vocação mas você precisa ter uma profissão. Mulher independente é mulher que tem profissão. Isso há 50 anos. Nesta ocasião li no jornal falando sobre a Faculdade de Jornalismo, na época era a única que tinha em São Paulo, pensei que seria ótimo unir o útil ao agradável: estudar jornalismo e trabalhar com música que era uma área que me interessava bastante.

Ele dizia que a mulher independente tinha que ter independência financeira. Meu pai dizia: Você pode casar, e se o marido morrer o que você faz? Se a mulher não tiver independência financeira, vai ficar sempre dependendo de um homem. Com tudo isso, descobri que minha segunda vocação era ser jornalista. Quando terminei a faculdade fui convidada para trabalhar na área de divulgação no departamento de televisão da Mac Cann Erickson. Trabalhei três anos nessa empresa, depois fiquei noiva e com 25 anos me casei. Nessa época eu parei de trabalhar e nunca me arrependi.

Tenho uma família maravilhosa, meu marido sempre foi um homem que me deu total independência dentro de casa, e ele citava muito meu pai. Tenho Dois filhos homens, um é engenheiro aeronáutico o outro é biólogo. Meu filho está fazendo pós em poluição ambiental. Meu filho, engenheiro, é casado e me deu dois netos. Eu sou muito feliz. E dessa forma cumpri minha segunda vocação.

Comecei a freqüentar os grupos de terceira idade, mas sempre tive uma atividade comunitária. Quando meus filhos fizeram escotismo eu me envolvi com o movimento e assumi a chefia do grupo, sempre tive um gosto pelos trabalhos comunitários. Em 1998, através do grupo da terceira idade, comecei a me preocupar com as questões dos idosos.

Meu marido é médico oncologista. Na nossa vida comum a gente sempre conversou muito, sobre o envelhecimento, inclusive, entre familiares e amigos que precisam de proteção e cuidados. Sempre tivemos uma preocupação com essas questões. Poucas são as famílias que podem cuidar do idoso em casa. Muitas vezes você desestrutura uma família toda para cuidar de um idoso. Com a ajuda dele, fui procurando trabalhar com essas questões. Lia bastante, freqüentava seminários etc. Um dia fui participar de um seminário, na Sociedade Israelita, cujo tema era como as religiões vêem o idosos. Lá estavam representantes: do budista, da igreja luterana e da israelita. A coordenação era das Profas. Dras. Elisabeth Mercadante e Suzana Medeiros.[1] A Dra. Suzana fez a abertura do evento, ela foi fantástica. Aliás, é pleonasmo dizer que aquela mulher é fantástica. Fiquei encantada com a fala dela. Aquilo me tocou profundamente. Nessa época, eu tinha 58 anos. Eu não poderia pensar só em mim. Pensei em fazer uma coisa mais concreta, ter uma participação política mais ativa, atuar mais nas questões dos idosos e fazer algo por eles. Comecei a participar de todos os grupos de discussão que dissessem respeito ao idoso, na região do Butantã. Comecei também a freqüentar a Universidade Aberta da Terceira Idade da USP, e os contatos aumentaram.

Um dia fui convidada pelo Fórum do Cidadão Idoso da região oeste para participar do orçamento participativo de 2001. Esse grupo se reunia na Casa de Cultura, e era formado por técnicos e grupos de terceira idade. Eles acharam que eu tinha o perfil para ser a conselheira do Butantã no orçamento participativo. Fiquei um pouco assustada, mas aceitei. Fizemos um projeto onde íamos apresentar as prioridades para a população idosa na área de Saúde e Educação. Tínhamos todos os dados em mãos. Pinheiros é a região que tem a maior população de idosos da cidade de São Paulo. Lapa, Vila Mariana, Jabaquara, e Mooca são também regiões com grande concentração de idosos. Nós, do Butantã, fizemos um trabalho: eleger em cada distrito um idoso. Fomos para a Assembléia para a escolha dos novos conselheiros. Tínhamos um trabalho em cada distrito. Isso já era um começo. Fui eleita conselheira do Butantã. Durante um ano e meio estive à frente do orçamento participativo. Trabalhei muito com os subprefeitos da região e o que é mais importante, fui ganhando visibilidade com as questão do idoso. Encerrando minha participação no orçamento participativo, vieram as eleições 2004/2005 e fui uma candidata natural. Realmente tive uma votação expressiva. O mais votado é o que vai para o segundo turno compor a executiva: o presidente, o vice, 1º secretário, 2 º secretário e a vogal. No segundo turno me elegi 1ª Secretária Executiva do Grande Conselho Municipal do Idoso 2004/2005. Fiz um trabalho importante e nesta eleição consegui meu intento de ser Presidente do GCMI 2006/2007.

Pode-se perguntar: por que ser presidente?

Eu percebi que dentro da filosofia brasileira, da representatividade, quem dita os rumos é o presidente, o que está no comando. Não temos um regime parlamentarista que dê conta. Apesar do combinado na executiva que todos têm o mesmo poder, todos têm voz, que o trabalho é em conjunto, de certo modo quem vai ditar o rumo é o Presidente. Penso que estou no caminho certo. Percebi isto neste pouco tempo de mandato. Todos os dias o idoso vem ao Conselho, o conselheiro também. Temos conselheiros experientes no movimento.

Nosso conselho é formado pelos idosos conselheiros, que ocupam 2/3 do conselho; e os outros 1/3, são representantes do governo indicados pelas secretarias. Após a assembléia geral onde colhemos todas as reivindicações da população idosa, vamos para o conselho de representantes onde discutimos com os representantes do governo os encaminhamentos.

Ante o grande número de pessoas que vem ao GCM, pedindo orientações, ajuda, sinto a necessidade de um maior número de funcionários para um bom atendimento. Idosos que pedem orientações sobre maus tratos, extorsão, abandono etc., inclusive técnicos da área de assistência social das sub-prefeituras, vigilância sanitária, zoonoze pedindo esclarecimentos. Eu preciso dar retorno para essa demanda toda. Outro dia veio uma idosa com um problema do IPTU. Ela foi à prefeitura e foi mal atendida. As pessoas não têm paciência com os idosos.

A Campanha da Fraternidade tem uma oração que eu achei fantástica onde pede para se ter paciência com idoso. Tem esse lado que me comove muito. Eu vejo isso todos os dias. Isso é papel do conselho. Nas Assembléias Gerais damos a palavra ao idoso. Fizemos uma ficha de reivindicação para termos um registro consistente. Aparecem muitos problemas na área da saúde, do transporte, idoso abandonado, aposentadoria… Uma coisa que está surgindo com muita freqüência são os empréstimos consignados. Tendo em mãos tudo isso de forma mais concreta, poderemos atuar, para que os idosos não sejam ludibriados.

Na Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa vamos ter que brigar pela criação do fundo nacional para essa rede de atendimentos. Acho que precisamos pensar em como vamos financiar? Quem são esses parceiros? Espero que da conferência saiam subsídios para que a Rede Nacional de Proteção ao Idoso (RENADI) se concretize e possamos ter respostas às nossas indagações.

Foi aprovada em 2005 a Política Municipal do Idoso, mas ela precisa ser implementada. Precisamos pensar no transporte, na saúde, estamos com problemas sérios na área da habitação. Os idosos vão em romaria em todas reuniões que falam de idosos, na Câmara Municipal, na Assembléia Legislativa e nas Assembléias do GCM, achando que com isso receberão uma casa. Isso está preocupando demais. O que se prevê é a locação social no Município de São Paulo para idosos que tem rendimentos até três salários mínimos.

O Dr. Wilson Jacob, em palestra na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, discutindo o crescimento populacional dos idosos no Brasil, informou que a faixa etária que mais crescerá é a dos 80 anos, e que boa parte desta faixa etária apresentará alguma demência. Não estamos preparados para isso. No meu discurso de posse do GCMI eu disse: O idoso é o futuro. Antigamente o futuro era a criança, o jovem, daqui a 15 anos, o Brasil será o sexto país com o maior número de idosos e não temos nada preparado em políticas públicas para receber esse contingente de idosos. Isso me assusta. Temos que preparar a criança e o jovem para envelhecer, para ter um idoso em casa ou na comunidade.

Eu quero trazer a academia, entidades como o SESC, todos que trabalham com idosos para trabalhar conosco e trazer subsídios para pensarmos. O Conselho tem posição privilegiada para fazer essa ponte com o governo. Pretendemos trabalhar mais de perto com o Conselho Estadual do Idoso. Fazer um pool de cabeças pensantes porque a situação é muito complexa. Queremos dar um passo importante: conscientizar, preparar bem os conselheiros por meio dos Fóruns. O idoso também precisa participar dessas mobilizações.

Precisávamos encerrar nossa conversa porque Irene já tinha outras pessoas aguardando atendimento. Quando perguntei se ela teria algo mais para falar, se dispôs a deixar uma mensagem.

Quero deixar uma mensagem para os idosos: envelhecer é bom e o idoso é o agente de sua própria libertação.

Informações

O Grande Conselho Municipal de Idosos (GCMI-SP) funciona na Rua Líbero Badaró, N. 119, 3° andar, Sé. Telefones: (11) 3113-9635/33. E-mail do Conselho Municipal do Idoso: gcmidoso@prefeitura.sp.gov.br

Funcionamento:
O Conselho abrange as seguintes instâncias:

Assembléia Geral: Tem o papel de definir políticas, programas e projetos, além de promover eleições a cada dois anos.

Compõe as Assembléias Regionais: São as cinco alçadas do Conselho, responsáveis pelas discussões das questões dos idosos em cada uma das regiões do Município e posterior encaminhamento ao Conselho.

Reuniões:
Os membros do Grande Conselho Municipal do Idoso reúnem-se sempre na primeira terça-feira do mês, na Câmara Municipal de São Paulo, localizada no Viaduto Jacareí, 1º andar, às 15h30. As reuniões são abertas ao público em geral e todos os idosos podem expor suas idéias.

Conselheiros(as) – biênio 2006/2007:

Secretaria Executiva:
Presidenta: Irene Cruz Annes da Silva
Vice-Presidente: Antônio Santos Almeida
1º Secretário: Eivas Garcez
2º Secretária: Daisy Aparecida Bincoletto Lisbôa Barbante

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