2020… não é um ano perdido!

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O vírus nos relembrou quão delicados são nossos idosos e quanto eles precisam de cuidados. Vejo que se não tivesse este tempo para tantas reflexões eu não teria amadurecido e evoluído como pessoa e aprendido muito para ajudar no meu negócio, meus familiares, amigos e para mim mesma. Definitivamente, 2020 não é um ano perdido.

Rosana Gaudie Ley (*)


Em meados de 2019, apesar de aposentada e com alguns dias preenchidos com trabalhos de consultoria em alimentação, aceitei uma proposta de duas amigas para montarmos um centro dia para idosos. Este serviço tem por objetivo o suporte familiar com atendimento especializado ao idoso, e como forma alternativa, um asilamento em dependência parcial para atender as necessidades de assistência multidisciplinar e multiprofissional, evitando sua exposição a situações de risco. Para mim seria algo novo, pois nunca havia trabalhado com idosos, só vivenciado experiências pessoais, junto aos meus familiares. Avaliei a proposta e verifiquei que seria um bom negócio, pois minhas sócias tinham uma boa experiência com este segmento e este negócio estava em plena ascensão, já que o número de idosos no  e Brasil crescia a cada ano.

Além de ser um bom negócio, me atraía estudar o envelhecimento e formas de melhorar a qualidade de vida, então decidi entrar de cabeça nesta sociedade, afinal, o país tem mais de 30 milhões de pessoas nessa faixa etária, número que representa 14% da população total do Brasil. E esse percentual tende a dobrar nas próximas décadas.

Conforme projeções das Nações Unidas (Fundo de Populações) “uma em cada 9 pessoas no mundo tem 60 anos ou mais e em 2050 pela primeira vez haverá mais idosos que crianças menores de 15 anos. Projeta-se que em 2050, alcançará 2 bilhões de pessoas ou 22% da população global”.

Muitas vezes ouvia falar sobre o envelhecimento da população do Brasil e meus familiares mais próximos já estavam idosos e foi isto que me despertou o interesse em estudar mais o envelhecimento e, também fazer algum trabalho com esta população. Estava motivada com este novo projeto e precisava ocupar mais ainda meu tempo, pois tinha acabado de ter o meu maior impacto emocional que foi a perda da minha mãe de 86 anos.

A implantação do centro dia ocorreu em julho de 2019 e foi dentro do planejado. Trabalhamos muito na prospecção de clientes e, também, na inclusão de atividades que despertasse interesse e melhoria nas condições cognitivas e físicas.

Enfim, 2019 estava passando rapidamente e foi na época do Natal que começamos a ouvir nos noticiários, sem dar muita importância, sobre uma estranha doença, que matava pessoas de pneumonia, em uma remota província da China. Não achamos que este vírus fosse chegar ao Brasil e atingir em cheio o nosso negócio.

Estávamos prospectando e achávamos que depois do carnaval conseguiríamos o sonhado equilíbrio financeiro, porém o vírus chegou e com ele o isolamento social tornou-se obrigatório.  O comércio fechou, as escolas fecharam, os clubes, as academias de ginástica e os restaurantes fecharam. Só ficaram em funcionamento os serviços essenciais. As pessoas, as que podiam, passaram a trabalhar em casa. Para uma crise econômica que já estava ruim, tudo piorou. Mas esta era a melhor saída para enfrentarmos a doença ainda desconhecida.

Na metade de março resolvemos fechar o centro dia, com muita dor no coração e com alguns familiares clamando para que mantivéssemos abertos. Porém era muita responsabilidade e fechamos por tempo indeterminado.

Isto mexeu muito comigo, não porque tinha investido uma parte das minhas economias, mas, também porque já estava inserida dentro do negócio e tinha me afeiçoado aos nossos idosos e presenciado a evolução cognitiva e física de muitos deles.

Em março fomos todos para o isolamento. Época de reflexão e olhando para o primeiro semestre de 2020, três eventos me fizeram ponderar sobre a importância dos vínculos sociais, amizades e em se traçar metas, não só no processo de envelhecimento, mas também em todas as fases da vida:

Evento 1 – Centro dia de idoso

Em 2019/início 2020 participei, no centro dia, de muitas atividades junto aos idosos e percebi como é importante a conexão deles com outros idosos e, também com a equipe de cuidadores. Relacionar-se com outras pessoas é uma necessidade constante, ou seja, na vida toda e auxilia para o bem-estar psíquico e físico. 

Presenciei idosos, iniciando no centro dia, que tinham dificuldades para se comunicarem e depois de algumas semanas já estavam mais ativos e participativos. Lendo alguns textos selecionei a frase abaixo que se articula com minha reflexão:

“O indivíduo isolado não existe, mesmo quando estamos sós os outros nos acompanham internamente”, de acordo com a psicóloga Nelma Aragon, diretora do Instituto de Psicologia Social Pichon-Rivière. 

As atividades realizadas no centro dia, como dança, pintura, artesanatos, fisioterapia, ginásticas faz com que os idosos se socializem uns com os outros, não permitindo que todos os dias sejam iguais, fazendo com que trabalhe a mente e criatividade.

Segundo o professor Anderson Amaral, secretário geral da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz), o nosso cérebro adora uma rotina. Porém essa rotina está associada a diversas complicações, inclusive às doenças degenerativas, como o Alzheimer e o Parkinson. Além disso, outras doenças podem ser acarretadas por conta do isolamento que sofrem, como a Depressão.

Evento 2 – Curso Fragilidades na velhice

Em janeiro de 2020, resolvi me inscrever no curso “Fragilidades na velhice” para me conectar mais com o tema e enriquecer meus conhecimentos e poder contribuir no dia-a-dia do centro dia para idoso.

Os conhecimentos passados me enriqueceram tanto para ajudar no meu negócio, assim como pessoalmente. Hoje consigo refletir que as pessoas, conforme mais velhas vão ficando, mais problemas no organismo vão aparecendo. Além dos cuidados com a saúde física, é necessária uma atenção especial com a saúde neurológica, psicológica e, também, espiritual das pessoas da terceira idade.

O curso foi importante para adquirir conhecimentos em vários assuntos sobre envelhecimento e, também, interagir com pessoas de várias profissões. Além do conhecimento específico do curso, devido a pandemia, tivemos que nos adaptar com a nova forma de aprendizado, ou seja, o curso ocorreu de forma não presencial e isto requer atenção, disciplina e dedicação.

Durante o curso tive a oportunidade de ler alguns livros, artigos, ver alguns vídeos e participar das aulas que reiteraram, ainda mais a ideia da importância dos vínculos sociais e amizades no processo de envelhecimento.

Um dos livros que li e me trouxe muitas reflexões foi o “Tentativas de fazer algo na vida” (2016), com o personagem Hendrik Groen, 83 anos, sem família e vivendo em uma casa de repouso, na Holanda, sendo que retrata a realidade dos idosos de lá. O personagem, numa tentativa de deixar o tempo que lhe resta mais proveitoso, começa a escrever um diário. De forma divertida, irônica e criativa, ele escreve sobre o dia-a-dia na casa de repouso e fora dela, pois os idosos independentes podiam sair para desfrutar o dia.

No segundo mês do ano, em um evento da casa de repouso, Hendrik se conectou com 5 idosos, que tinham alguns objetivos semelhantes e criaram o clube Tô-velho-mas-não-tô-morto (Tovemantomo).

Este clube tinha algumas regras e pretendia tornar a velhice mais agradável por meio de viagens, passeios e mostrar toda a vitalidade do grupo. Era uma forma também deles cuidarem um do outro. A partir daí a vida de Hendrik se torna mais leve e já pensa no dia seguinte e até compra um quadriciclo para aproveitar mais ainda o tempo.

O grupo tinha um objetivo: a cada mês um participante organizava um programa, isto preenchia o mês do organizador, pois o mesmo tinha que organizar todo o evento, desde o transporte, o local, as atividades e o valor.

Hendrik e seus amigos aprontavam muito e já sentiam a vida mais atrativa a partir da formação do clube, os vínculos se estreitam e passam mais tempo juntos.

Este livro reiterou minha certeza sobre a importância dos vínculos sociais, amizades e, também, de manter metas, independentemente da idade. A velhice não impede que se faça, em outro ritmo, tudo o que a pessoa sempre fez na vida. Apesar que de outra forma com dores, às vezes fraldas, às vezes com problemas de visão, ou sobre uma cadeira de rodas, temos que ser motivados e apoiados por quem nos cerca.

O último dia do ano, fim do livro, Hendrik finaliza com o seguinte: “… tenho que fazer novos planos. Enquanto houver planos, há vida.”

Evento 3 – Desenrolar da pandemia

Desde o início da pandemia permaneci em home office e procurei ajudar alguns vizinhos, que não tinham seus filhos por perto, com as compras e, também bate papo pela janela que ajudava a aquecer o coração e a mente.

Nesta fase me envolvi mais, ainda, com minha vizinha mais longeva, Vera, de 80 anos, e que mora sozinha. Conheço-a há mais de 40 anos e desde o início da pandemia a única aventura de Vera fora de casa foram as poucas idas à farmácia e às vezes ao mercado, acompanhada de um sentimento infrator e de um medo constante que povoaram sua cabeça com pensamentos como “Será que eu estou a uma distância suficiente?” ou “Será que eu estou me protegendo da forma certa?”

Vera é uma pessoa esperta, ativa e independente. A única deficiência que ela adquiriu com o envelhecimento foi uma doença que a deixou com pouca visão, sendo que para ler, passar cartão e outros eventos, ela utiliza uma lupa. Isto não a impediu de continuar coordenando o grupo de mulheres voluntárias. Curiosa e com sede de conhecer mais sobre o envelhecimento fui pedir para que Vera falasse sobre o trabalho deste grupo. Segundo seu relato, o grupo é composto por senhoras e foi criado há 50 anos, recebendo o nome de“Grupo central de senhoras voluntárias de Guarulhos”.

Este grupo, atualmente, é composto por 40 senhoras de idades entre 60 a 91 anos, classe média. Vera conta que a ideia da criação do grupo foi de três amigas que há 50 anos se sensibilizaram com a quantidade de pedintes, que na época, tocavam campainha para pedir comida, roupas e dinheiro. As três amigas, tocadas com as condições da cidade em relação ao número crescente de pedintes, decidiram se organizar e ajudar um abrigo para crianças. No início organizavam uma festa por mês, levando comidas e bebidas.

Passado algum tempo, mais amigas quiseram participar do grupo e foram formando mais vínculos e descobrindo as habilidades com artesanatos de cada uma. Daí veio a grande decisão do grupo: cada uma produziria seus artesanatos para venda em bazar e, assim, poderiam aumentar a renda do grupo e ajudar mais algumas instituições.

Os artesanatos feitos durante o ano eram vendidos no bazar das mulheres voluntárias no final do ano e o que sobrava era colocado como prêmio no bingo em maio. Cada uma fazia o que tinha habilidade: crochê, costura, tricot, bordado, pintura em tecido. Com o dinheiro arrecadado o grupo ajudava instituições de idosos e de crianças com o que necessitassem.

Atualmente elas ajudam 13 instituições, com alimentos, roupas, material de limpeza e outros artigos necessários. Não existe um patrocinador, o dinheiro arrecadado é da venda dos trabalhos realizados por cada uma.

As voluntárias se reuniam, na casa da Vera, uma vez por semana para conversar, tomar café/chá, mostrar seus trabalhos e trocar experiências. Neste dia a rua ficava cheia de carros e muitas risadas escutávamos. Iniciavam sempre com uma oração e às vezes convidavam algum palestrante para assuntos de saúde, equilíbrio e outros assuntos que fossem interessantes para o grupo.

Segundo Vera, algumas voluntárias que não tinham habilidade para fazer artesanato, aprenderam a fazer algum trabalho e hoje tem o fruto deste trabalho sendo vendido no bazar. Vera ressaltou que como ela, muitas mulheres do grupo moram sozinhas e outras com a família, com o companheiro, sendo todas independentes.

Com a pandemia, este ano as reuniões aconteceram até começo de março e provavelmente não ocorrerá mais, neste ano, mas Vera não esmoreceu e tratou de passar atividades para que todas as voluntárias preenchessem seus tempos e não se deprimissem com o isolamento social. As senhoras estão muito agradecidas por não ficarem, nesta época tão difícil, em casa e sem fazer nada. De uma forma que gostam, estão preenchendo o tempo. O bazar no final do ano, se poder ocorrer, vai render muito, pois já tem muito trabalho pronto.

Envelhecer não é necessariamente sinônimo de doença e inatividade. Deve-se levar em consideração diversos fatores essenciais para um envelhecimento satisfatório. Por exemplo, pensar na saúde física e mental, na independência da vida diária, no apoio familiar, na interação social, na independência econômica, entre outros elementos influenciadores no processo do envelhecimento (Lima, Silva & Galhardoni, 2008)

De acordo com depoimento de Vera “ela não conseguiria viver sem este trabalho e este convívio social. Isto preenche minha vida e é uma forma de ajudar quem precisa e, também de me ajudar”. Diz ela que este é o sentimento de todas que participam do grupo.

Refletindo sobre trabalho do grupo de voluntárias de Guarulhos reitero minha convicção de que o convívio social, amizades e ter objetivos é muito importante para a qualidade de vida dos idosos. Acrescento neste item a importância do trabalho voluntário como um mecanismo promotor de qualidade de vida destas idosas voluntárias.

Pensei muito e hoje tenho certeza de que este ano, para mim, não foi um ano perdido, ele está sendo um ano muito proveitoso. Todos fomos impactados de alguma forma pela pandemia. Em apenas algumas semanas, o coronavírus se tornou o tópico das conversas. Ele fechou escolas, cancelou grandes reuniões, atrofiou as viagens, abalou o mercado de ações e liderou as manchetes em todo o mundo. Temos novas palavras no vocabulário, como “distanciamento social”. O vírus nos relembrou quão delicados são nossos idosos e quanto eles precisam de cuidados. Vejo que se não tivesse este tempo para tantas reflexões eu não teria amadurecido e evoluído como pessoa e aprendido muito para ajudar no meu negócio, meus familiares, amigos e para mim mesma.

“Não é suficiente ter vivido. Devemos estar determinados a viver por algo.” Winston Churchill (1874-1965)

(*) Rosana Gaudie Ley – Nutricionista. Texto escrito no curso de extensão em Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) no primeiro semestre de 2020. E-mail: rgaudie@uol.com.br

Foto destaque de Markus Winkler de Pexels


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