Vida por um fio

Resta a nós humanos, encontrar uma forma de viver que seja legítima e que esgote a vida em toda sua essência. É preciso agir e ao mesmo tempo aceitar os olhos dela [a morte], que buscam sempre, qualquer oportunidade de ação para induzir ao fim toda e qualquer existência.
Enfim, viver é pouco perto da essência que nos constitui. Viver é nada perto da certeza da nossa insignificância. Vamos viver e torcer para experimentar a velhice em toda sua potência.
Incontestável o fato. Incontestável a vida e a morte.

 

Não se iluda! A morte está ao lado e nos observa em todos os momentos, inclusive naqueles onde nossa vida, parece pulsar em toda sua potência.

A Vida é frágil e está sempre ameaçada. E eu me sinto tonta com toda essa constatação.

Tonta e viva! E de tão viva, tão tonta.

“Escrevo e pronto.

Escrevo porque preciso
preciso porque estou tonto.”

E é assim com a poesia Razão de Ser de Paulo Leminski que começo a escrever este texto.

Escrevo porque preciso. Escrevo porque estou tonta. Escrevo porque não está fácil constatar que vidas são interrompidas por um fim súbito, como a do acidente de avião que matou os jogadores do time de Santa Catarina, o Chapecó. Tragédia que me fez pensar nas mocidades que são impedidas de virarem velhices sem nenhuma autorização.

Passamos a vida buscando uma existência que possa fazer sentido e que nos traga, com a velhice, a possibilidade de uma realização subjetiva. Mas a morte nos observa o tempo todo e parece estar sempre pronta para dar o bote.

Recordo a dor que senti ao ouvir a notícia. Recordo a dor que senti ao estar ao lado de uma grande amiga que luta para que sua vida não seja interrompida pela doença maldita que parece não querer perder a batalha. Escrevo, então, para não sufocar já que do sofá, ao lado dela, via a terceira bolsa de sangue gotejar em seu pulso numa tentativa de repor a vida que se esvai.

Penso na vida e tudo, absolutamente tudo me parece sem sentido. Tento entender porque muitas vezes priorizamos coisas absurdas como sendo essenciais. Tento compreender, mas a vida é um grande mistério e segue rápido.

Suas injustiças compõem nossa história e não poder envelhecer é uma delas. Desta forma, sinto um desprezo enorme pelas pessoas que tem aversão a essa fase da vida e negam a velhice a todo custo. Pobreza de alma!

A minha amiga sente nas dores causadas pela doença a vida se esvaindo, mas faz questão de nutrir esperanças e ignorar a morte a observando.

Gustav Klimt, pintor austríaco nascido em 1862 nos arredores da Viena Imperial, soube representar esse jogo de espia e esconde feito pela Morte.

Em sua pintura de 1911, intitulada Vida e Morte, o artista retrata a morte, escura e fria, observando um conjunto de pessoas coloridas, vivas e unidas enquanto representam os diversos estágios da vida. Vê-se a maternidade, a infância, a juventude, a velhice; a dor e a felicidade pintadas em pessoas de olhos fechados como se estivessem mergulhadas em si mesmas.

A vida embolada nos corpos é retratada com toda característica do talento do pintor.

À sua volta tudo é sombrio e a Morte, de tocaia, observa todos os momentos como se estivesse pronta para agir a qualquer instante, mostrando que ela é uma possibilidade autêntica que acompanha o homem ao longo de toda sua existência.

Resta a nós humanos, encontrar uma forma de viver que seja legítima e que esgote a vida em toda sua essência. É preciso agir e ao mesmo tempo aceitar os olhos dela, que buscam sempre, qualquer oportunidade de ação para induzir ao fim toda e qualquer existência.

Enfim, viver é pouco perto da essência que nos constitui. Viver é nada perto da certeza da nossa insignificância.

Vamos, portanto nos lançar em altos voos que possam engrandecer nosso viver. Vamos bater asas e voar alto. Voar a favor do vento para sermos arremessados numa velocidade descontrolada, afinal o controle da vida não é nosso. É dela que nos observa. É dela que dita as regras.

Vamos viver e torcer para envelhecer, para experimentar a velhice em toda sua potência.

Incontestável o fato. Incontestável a vida e a morte.

Seguimos em frente. Secamos as lágrimas pelos jovens mortos de Chapecó. Enxugo as lágrimas pela amiga da vida por um fio.

Viver não é fácil. Envelhecer não é para todos.

Rumo à velhice sem medo da solidão. Seja qual for o caminho, não estaremos sozinhos. Seja qual for a vida, a morte estará sempre presente.

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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