Vida eterna, será mesmo?

O Jornal “O Estado de S.Paulo”, divulgou recentemente uma reportagem sobre um estudo realizado por cientistas de Albert Einstein College of Medicine em Nova York, nos Estados Unidos, que aponta que a atividade de uma molécula no hipotálamo (uma região do cérebro) é responsável por sinalizar o começo do envelhecimento. A pesquisa em questão foi publicada no dia 1 de maio na revista especializada “Nature”. Segundo os cientistas, a descoberta pode levar a novos tratamentos para doenças envolvendo a velhice.

Luciana H. Mussi *

 

O impacto da notícia foi tanto que a reprodução se deu de forma imediata em vários sites e blogs brasileiros, sem contar os internacionais. Esse fenômeno não ocorre por acaso, principalmente num momento em que o envelhecimento e seu almejado longeviver virou tema de conversas de bares e estudos científicos. Mas se pensarmos com um pouco mais de profundidade, chegaremos na chave da questão que é esse controverso e sedutor “viver para sempre”.

Sobre isso, João Pereira Coutinho, colunista do Jornal Folha de S.Paulo deu seu recado de forma competente, pessoal e realista na matéria “Quem quer viver para sempre?”. Como só bons escritores sabem fazer, João chama seu leitor com a intrigante pergunta que, a princípio, todos responderiam que sim. Mas ele vai além.

“Eu já deveria estar morto. Ou a caminho de. Para alguns leitores, nunca uma frase soou tão verdadeira. Mas eu falo de história, não de afetos. Se tivesse nascido em Portugal cem anos atrás, já haveria lápide e caixão. Dá para acreditar que, em inícios do século 20, a esperança média de vida para os homens portugueses rondasse os 35-40 anos?”.

“Hoje, andará pelos 80. O que significa que, com sorte e algum bom humor do Altíssimo, eu estou apenas no meio da viagem”.

Como cidadão português, João bem sabe dos problemas que enfrentamos em decorrência do acelerado envelhecimento, não só da população local como também de toda Europa. Talvez daí venha seu interesse pelos questionamentos desse “viver eternamente”.

“Se juntarmos os progressos da medicina no futuro próximo, é possível que a viagem seja alargada mais um pouco. Cem anos, cento e tal. Nada mau”.

Comentando com seu habitual humor ácido a pesquisa feita com os sempre disponíveis roedores, João com dentes e unhas afinadas, mas claro, com apropriada elegância, diz: “Falamos de ratos, por enquanto, o que significa que a descoberta só terá aplicação imediata entre a classe política”.

Em seguida, seguindo uma correta evolução, surge, no seu texto, o ponto central: a imortalidade: “Mas o leitor entende onde eu quero chegar. E eu quero chegar à maior promessa de todas: o dia em que seremos finalmente imortais”, revela o escritor.

“Na história da cultura ocidental, esse dia pode estar no passado distante (ler o poeta grego Hesíodo, ler a Bíblia). Ou pode estar no futuro, como garantem os “transumanistas”. Falo de uma corrente bioética perfeitamente respeitável que se dedica a essa causa: o destino da humanidade não está em morrer aos cem. Está em viver indefinidamente depois dos cem. Como? Através dos avanços da tecnologia, claro. Porque só a tecnologia permitirá aos homens suplantar a sua infantil condição mortal”, ele explica.

A explicação é pertinente. Mas, pergunto: Será que nos transformaremos, num futuro, talvez, bem próximo em vampiros pós-modernos que atravessam séculos rompendo as rígidas barreiras do Senhor Tempo? Bem, da minha parte, confesso que passo a “bola” para o seguinte da fila.

Provocativo, João dá continuidade a seu pensamento “imortal”: “O nosso corpo é apenas a primeira casca de todas as cascas que estarão para vir. E quem, em juízo perfeito, não gostaria de viver para sempre?”.

“Curiosamente, há quem não queira. (…) Certo, certo: ninguém ama a doença e, tirando casos extremos, ninguém deseja morrer. Só que esse não é o ponto. O ponto é que, sem a doença e a morte, a vida não teria qualquer valor em si mesma”.

A vida não é o avesso da morte, é aí que as pessoas, na sua maioria, se enganam. Quem nasce, deve morrer. Esses são os extremos, polos da mágica régua da existência.

João finaliza seu texto com cinco reflexões que poderiam ser a minha, a sua e até daqueles que nada acreditam. Mas João decide partilhar suas opiniões pessoais, expectativas e confissões e, nós, agradecemos:

– Os projetos que fazemos; as viagens com que sonhamos; os amores que temos, perdemos, procuramos; e até a descendência que deixamos –tudo isso parte da mesma premissa: o fato singelo de não termos todo o tempo do mundo.

– Vivemos, escolhemos, amamos –porque temos urgência em viver, escolher e amar. Se retirarmos a urgência da equação, podemos ainda viver eternamente.

– Mas viveremos uma eternidade de tédio em que nada tem sentido porque nada precisa ter sentido. Sem a importância do efêmero, nada se torna importante.

– Mas esse mundo, até pela sua própria definição, será um filme diferente. Não será um filme para seres humanos tal como os conhecemos e reconhecemos.

– Viver até os cem? Agradeço. Cento e vinte também servem. Mas se me dissessem hoje mesmo que o meu futuro duraria uma eternidade, eu seria o primeiro a pular da janela sem hesitar.

Sobre as dificuldades da existência, lembramos as palavras do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski: “Desde os meus primeiros filmes, sempre tenho contado a história do homem que, por achar difícil se orientar neste mundo, não sabe como viver”.

Será por isso que o homem deseja tanto a eternidade? Parece que por não saber o que fazer com a própria vida, esse homem acaba postergando seu próprio viver.

Referências

COUTINHO, J.P. (2013). Quem quer viver para sempre? Disponível Aqui. Acesso em 08/05/2013.

UOL (2013). Estudo decifra o processo de envelhecimento. Disponível Aqui. Acesso em 08/05/2013

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