A vida após a morte do cônjuge

Amor e O Exótico Hotel Marigold – filmes que tratam o envelhecimento e a morte de maneiras bem distintas: o primeiro relacionando envelhecimento à morte, à finitude do corpo; o segundo revelando a velhice como uma fase de possibilidades onde viver a perda/solidão depende fundamentalmente da maneira como a pessoa encara sua própria velhice.

 

A ideia que me trouxe a esse texto foi pensar como a morte de um parceiro(a) de longos anos afetava e transformava a vida daquele que ficava, entender como cada um lida com o fato de “recomeçar” sozinho, principalmente quando já se acostumou a uma vida em comum por um longo período.

Pensando nisso, para investigar de que maneira a mídia passa essa nova situação, escolhi dois filmes profundamente contrastantes – Amor (2012, Direção: Michael Haneke) e O Exótico Hotel Marigold (2012, Direção: John Madden) – e suas respectivas resenhas (críticas do leitor e imprensa). A ideia era analisar as mensagens transmitidas pelos filmes e de que forma elas chegam às pessoas.

“Amor” retrata a história de um casal que se depara com a proximidade da morte. Georges acompanha diariamente a piora no estado de saúde de sua esposa, Anne, que, após um AVC, vai, lentamente, se tornando cada vez mais dependente do marido. Com um final que permanece “em aberto”, o filme deixa algumas indagações. O que representou a morte de Anne? Será que poderíamos pensar em assassinato e/ou ato de misericórdia? E as imagens que navegam pela mente de Georges, seriam apenas alucinações?

“O Exótico Hotel Marigold” conta a história de um grupo de aposentados que decide viajar para a Índia. Como todos se hospedam no mesmo hotel, suas histórias acabam se cruzando ao longo dos acontecimentos. Uma personagem, em especial, chama atenção: Evelyn, a narradora do filme. Após a morte do marido, ela é surpreendida com a necessidade de ter que vender a casa em que mora para pagar as dívidas deixadas por ele. Otimista e determinada, Evelyn decide fazer, pela primeira vez, uma viagem longe da família. Assim, ela redescobre a si mesma, vivendo intensamente cada momento, reaprendendo a apreciar o mundo por outra perspectiva.

A partir das resenhas dos dois filmes citados, pude pensar nos mais variados conceitos e ideias que se tem sobre a velhice. Na primeira história, temos o tema “morte” como uma espécie de “condenação”, tanto para quem se vai, como para aquele que fica. É a velhice vista apenas como uma fase, cujo tempo antecede a morte, onde não há nada mais a se fazer, a não ser sofrer a angústia de estar cada dia mais próximo do próprio fim e daquele que se ama.

Para quem adoece, resta o definhamento e, para quem fica, a estagnação, o olhar voltado para um passado sem perspectiva de futuro. Dessa forma, a morte torna-se a única realidade possível sobre o envelhecer.

Sobre as resenhas de “Amor”…

“Sublimemente triste. Não é um filme fácil de assistir. Expõe escancaradamente a realidade da velhice de forma brutal e direta. Por isso, fica na memória.”

“É desesperador pensar que cada um de nós pode ter que passar por esse tipo de realidade algum dia. Acompanho (ainda que de longe), hoje, com a minha bisavó, e sei o quanto deve ser trabalhoso e angustiante para os mais próximos, que observam aos poucos a imagem da pessoa forte e cheia de história se transformando num apanhado de sofrimento.”

“Justamente por me ver, no futuro (espero que bem distante), vivendo uma situação parecida com alguém muito importante, esse filme me pegou em cheio.”

“É um retrato muito singelo e terrivelmente real sobre a tragédia da vida.”

“[…] O filme é lento exatamente por retratar a vida de dois idosos. Quem convive com seus avós sabe como o sentimentalismo é lento e tocante. Sabe como a dor é lenta e angustiante, e sabe como é sentir-se humilhado por tudo ser lento demais […].”

“Um filme doloroso, tanto quanto você acompanhar um ente querido definhando e morrendo aos poucos. Desagradável, mas sincero.”

“Um filme que doi na alma tanto pelo seu contexto ligado à velhice e morte quanto à carga emocional que vem junto, querendo ou não você se coloca no lugar dos personagens e imagina a dor e sofrimento que Georges deve estar sentindo em ver Anne nesse estado onde o corpo dela a trai e se degrada por culpa da idade, e também no lugar de Anne onde você só imagina o sentimento de incapacidade, raiva e angústia de não poder mais ter a liberdade de antes.”

No segundo filme, através da história de Evelyn, temos a velhice como uma fase da vida. Velhos: nem sábios, nem derrotados e sim pessoas que também erram, sonham, se descobrem e se refazem constantemente. Vemos um envelhecimento como uma fase de possibilidades, onde a perda afetiva não necessariamente representa incapacidade, dependência e submissão aos filhos. Todos podem e tem o direito de seguir em frente e, assim, fazer coisas incríveis, não apenas por si mesmos, mas principalmente pelo(s) outro(s).

Sobre as resenhas de “O Exótico Hotel Marigold”…

“Que filme leve e simpático, passa uma grande lição de que nunca é tarde para começar e que idade e velhice é uma condição, não uma regra.”

“Um filme reflexivo sobre o que é de fato chegar à velhice e qual sentido você vai dar para a mesma dependendo da forma que você a encara e a aceita.”

“O filme traz um apanhado de clichês, que só prejudicam o resultado final. Também incomoda a falta de comprometimento com os próprios personagens. Alguns mudam totalmente sua personalidade, numa tentativa falha de dizer que a jornada mudou suas vidas, enquanto que outros irritam pela passividade. Vários dos personagens têm as ‘decisões de suas vidas’ tomadas por outro. A trama tenta apontar o tempo como vilão da história, mas o verdadeiro vilão aqui é o roteiro.”

“É muito bom assistir um filme que não trata os aposentados como pessoas incapazes de aventuras.”

Escolhi dois filmes que tratam o envelhecimento e a morte de maneiras bem distintas: o primeiro relacionando envelhecimento à morte, à finitude do corpo; o segundo revelando a velhice como uma fase de possibilidades onde viver a perda/solidão depende fundamentalmente da maneira como a pessoa encara sua própria velhice.

Referências

ADOROCINEMA. Amor – 66 CRÍTICAS DO LEITOR. Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-188067/criticas/espectadores/. Acesso em: 08 ago. 2016.

ADOROCINEMA. Amor – 22 CRÍTICAS DA IMPRENSA. Disponível em:  http://www.adorocinema.com/filmes/filme-188067/criticas/imprensa/. Acesso em: 08 ago. 2016.

COLLING. L. O Exótico Hotel Marigold, uma passagem para Índia. Disponível em:  http://lounge.obviousmag.org/pelicula_criativa/2012/07/o-exotico-hotel-marigold—uma-passagem-de-ida-para-a-india.html. Acesso em: 08 ago. 2016.

FILMOW. Amor. Disponível em: https://filmow.com/comentarios/6206633/. Acesso em: 08 ago. 2016.

GOMES, L; LOUREIRO, A.M.L.; ALVES, V.P. O velho e a morte. Disponível em:  http://revistas.pucsp.br/index.php/kairos/article/viewFile/17040/12646. Acesso em: 08 ago. 2016.

SALGADO, L. O Exótico Hotel Marigold. Disponível em:  http://www.adorocinema.com/filmes/filme-186338/criticas-adorocinema/. Acesso em: 08 ago. 2016.

Escrito por  Patricia Leal e Ruth Gelehrter da Costa Lopes. Texto escrito na disciplina eletiva – A concepção de saúde-doença da velhice pelas mídias, ministrada pela professora Ruth Gelehrter da Costa Lopes, no curso de Psicologia Social, 5o período, biênio 2015-2016, na PUC-SP.

Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde e Programa de Gerontologia. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

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