Velhos no cinema: fim de semana em Paris

Nick (Jim Broadbent) e Meg (Lindsay Duncan) são professores universitários na faixa dos 60 anos que estão próximos de comemorar 30 anos de casamento. Vivendo sem emoções em Birminghan, na Inglaterra, Meg sugere que eles voltem para Paris e se hospedem no mesmo hotel em que passaram a lua-de-mel. Mas um encontro casual com ex-aluno de Nick pode significar mudanças na vida do casal.

 

Decididamente os velhos estão no cinema: “E se vivêssemos todos juntos”; “Amor”; “Elsa e Fred”; “Os belos dias”; “O amor é estranho”, são apenas algumas das obras, recentes, que trazem velhos como personagens principais.

Presentes as paixões intensas, solidão, fragilidade, insegurança, amor,  solidariedade, morte, enfim, a vida!

Neste “Fim de semana em Paris” acompanhamos Nick e Meg, dois professores por volta dos 60 anos – moradores de Birminghan, Inglaterra – que voltam a Paris, onde passaram sua lua de mel, para comemorar o aniversário de 30 anos de casamento. “Fim de semana…” nos leva a partilhar momentos íntimos desse casal e nos defrontarmos com um estimulante exame de uma longa relação.

A princípio a impressão é que o pacato professor, cheio de boas intenções, não consegue alcançar os desejos de sua companheira sempre contrariada e raivosa. Diálogos mordazes e sarcásticos expõem uma tensão constante entre as personagens – Meg, dinâmica, sedutora e Nick, tranquilo, um pouco inseguro – e faz-nos supor, em certo momento, que a comemoração pode ser, também, o fim do relacionamento.

De forma sensível e verdadeira – com muitos momentos de humor – essa relação de 30 anos é exposta com todos seus desgastes e frustrações. A presença de um casal de velhos como protagonistas permite, mais uma vez, refletir sobre alguns mitos do envelhecimento: de que nos tornamos sábios e seguros na maturidade, da ausência do desejo sexual, que não há mais nada a descobrir e/ou experimentar na velhice.

Um forte ponto de tensão evidencia-se durante um passeio por um ponto turístico de Paris. Nick recebe um telefonema do filho adulto, casado, que deixou recentemente a casa dos pais. Enquanto Meg sente-se aliviada por isso, quer estar só com o companheiro, Nick advoga por um possível retorno do filho e da nora.  Para seu espanto e surpresa, Meg o questiona se tem medo de viver “apenas” com ela. Meg quer o “ninho vazio”!

Deparamo-nos com uma mulher que apesar de saber-se ainda sedutora, foge de todo contato sexual a ponto de confessar-se constrangida ao ser observada, pelo marido, envolta em uma toalha enxugando-se após o banho. Desconfianças, de ambos os lados, sobre possíveis traições no passado deixam entrever suas marcas.

Em certas situações Nick e Meg mostram-se completamente imaturos, inseguros e perdidos na relação o que nos sugere que, afinal, a velhice não carrega em si certezas e verdades absolutas.

Dúvidas e mágoas são aos poucos escancaradas e, no entanto, é o percurso conjunto de três décadas que possibilita, por meio da tensão instaurada, o reencontro do casal.  No conflito estão presentes, também, o desejo e a disposição para olhar o outro, para sua escuta, para abrir-se a novas experiências que se torna, afinal, a chave da conciliação.

Nick permite-se acompanhar Meg em suas peripécias por Paris. Instalam-se em um luxuoso hotel, mesmo sem ter condições financeiras para tal. Fogem de um restaurante sem pagar a conta e, em um telefonema, anuncia ao filho que não pode voltar a morar com eles. Já um encontro fortuito, com um antigo discípulo de Nick, é que proporciona a Meg o momento para escuta do companheiro, para percebê-lo em toda sua simplicidade, modéstia e discrição.

Este filme sensível nos faz refletir sobre as relações – não necessariamente felizes ou infelizes – mas repletas de nuances, mal entendidos, dificuldades de comunicação, incertezas e que, mesmo longas, precisam ser redescobertas a todo momento.

Escrito por Celina Dias Azevedo – possui graduação em Biblioteconomia e Documentação pela Escola de Comunicações e Artes (1983). Especialização em Literatura Brasileira, pela PUC São Paulo (1997). Especialização em Gerontologia Social, pelo Instituto Sedes Sapientiae (2000). Mestre em Gerontologia pela PUC SP (2009). Atualmente é doutoranda do Programa de Ciências Sociais na PUC São Paulo. Email: celinazevedo@gmail.com

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