Velhices diversas

O documento da Organização Mundial da Saúde, ao problematizar o envelhecimento ativo, toma por base o conceito de atividade, o qual está atrelado a quatro pilares, sendo estes; saúde (bem-estar biopsicossocial), participação (social – cidadania – cultural, espiritual), segurança/proteção e aprendizagem ao longo da vida (aprendizado formal ou informal). Importante ressaltar que tais pilares podem acontecer simultaneamente, na medida em que estão interligados; essa divisão é apenas conceitual.

Ana Célia Soares Gomes, Cibele Sales da Silva, Izadora Di Natale Nobre e Nélio Fernandes*

 

Refletir sobre o conceito de Envelhecimento Ativo, proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2002, à luz de relatos de pessoas com idade acima de 60 anos consistiu no objetivo do evento promovido pelo NEPE (Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento) da PUC-SP, que ocorreu no dia 31 de maio de 2017, chamado “Velhices exitosas”. Participaram do debate Roberto Lage – diretor de teatro, Marielza Silva Andrade – participante e atuante de atividades sociais da UBS Jardim Nakamura, Maria Aparecida de Souza Santos – universitária, Maria Helena Villas Boas Concone – antropóloga e professora dos Programas de Pós-Graduação em Gerontologia e Ciências Sociais da PUC/SP e José Paulo Fonseca – psicólogo. As mestrandas Flora Karat e Tânia Rodrigues destacaram que a Política de Envelhecimento Ativo da OMS reconhece a necessidade e recomenda a otimização de oportunidades para fomentar bem-estar físico, psicológico e social. Uma das funções da política é ampliar o olhar da sociedade para a questão do envelhecimento e da velhice, considerando a qualidade de vida e autonomia do idoso, respeitando o contexto e a singularidade de cada um. O objetivo das políticas públicas é fornecer recursos e subsídios, para que os sujeitos possam ter acesso aos direitos assegurados constitucionalmente de forma difusa e coletiva.

Tais oportunidades mencionadas são primordiais em uma sociedade que dá valor à vida em qualquer idade. Investigar o seu alcance na dinâmica da sociedade brasileira é um desafio que está em consonância com o compromisso de um Programa de Pós-Graduação cuja área de concentração é a Gerontologia Social, como é o caso da PUC/SP.

O documento da OMS ao problematizar o envelhecimento ativo toma por base o conceito de atividade, o qual está atrelado a quatro pilares, sendo estes; saúde (bem-estar biopsicossocial), participação (social – cidadania – cultural, espiritual), segurança/proteção e aprendizagem ao longo da vida (aprendizado formal ou informal). Importante ressaltar que tais pilares podem acontecer simultaneamente, na medida em que estão interligados; essa divisão é apenas conceitual.

No diálogo com os convidados foi discutido que a vida ativa não se restringe à atividade física ou à participação na força de trabalho. Ser ativo compreende também o engajamento significativo na vida social, cultural, espiritual e familiar, bem como no voluntariado e em causas sociais. A concepção de atividade considerada no contexto do envelhecimento ativo se aplica às pessoas de todas as idades, inclusive idosos fragilizados, que necessitam de cuidados, ou mesmo dependentes, assim como os idosos independentes.

O debate discorreu sobre algumas questões direcionadas aos convidados, relacionadas aos pilares do envelhecimento ativo.

Em relação ao tema da saúde surgiram algumas considerações. Além do cuidado em manter a saúde física, foram mencionados como fatores relacionados à saúde a importância de frequentar espaços sociais e o exercício da atuação profissional que consequentemente obriga a estar ligado à contemporaneidade. A saúde foi considerada holisticamente, com uma visão sistêmica, integrando todas as facetas da vida para se viver bem. Mesmo quando há uma doença presente pode-se ainda sentir-se saudável ou considerar outros aspectos, como foi levantada a concepção de que a doença diagnosticada como crônica seria uma crônica da vida do sujeito, ou seja, trazendo a importância de sua história e experiência de vida.

Sobre os temas do aprendizado de vida e espiritualidade, as considerações apontadas foram a busca por Deus; a conexão com o sagrado como fundamental, fonte de aprendizagem espiritual; as crenças influenciando as nossas atitudes e escolhas cotidianas (“somos o que cremos”); as práticas esportivas e meditativas como o Ioga; o poder do pensamento positivo; o estudo como fator importante para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social, além de auxiliar para nos manter atualizados; os modos de atuação profissional alternativos; e oportunidade de realizar sonhos como o caso da Maria Aparecida que apontou “a importância de voltar a estudar e que está realizando um sonho ao cursar graduação em serviço social”. A convidada Maria Helena nesses aspectos também relata sobre “a importância de continuar a lecionar, pois o convívio com os alunos é muito satisfatório se baseando em uma relação intergeracional, porém têm os limites institucionais da idade”.

Na categoria da participação social foram levantadas questões sobre a parceria com o próximo; o modo de se comportar consigo e com o mundo; os desafio em relação às novidades do mundo; a necessidade do conhecimento para fazermos escolhas e a capacidade de adaptação frente aos limites.

Em relação aos temas da segurança e relações inter-relacionais, alguns convidados referiram não terem preocupação por acreditarem que buscar a segurança traz certo aprisionamento e que na vida seria necessário correr riscos para manter o dinamismo. O convidado Roberto Lage referiu “que o medo interfere nas novas descobertas pelo novo e que não costuma ter esse tipo de sentimento”. Foi mencionada a postura diante da vida e das pessoas, a atenção ao outro no que diz respeito ao relacionamento interpessoal, porém também a importância da relação intrapessoal, de como nos sentimos, como lidamos com os limites que a vida coloca, o grau de insegurança e como fazemos nossas escolhas em relação às decisões da vida. Também se levantou a temática sobre a insegurança social pelo grande número de violência em nosso país e a percepção de que não parece haver um esforço individual e coletivo em respeitar as pessoas, portanto a importância de evitar situações e ambientes que possam trazer riscos.

Concluindo os convidados foram questionados sobre as possíveis barreiras para viver bem o envelhecimento, os relatos concentraram-se nas seguintes temáticas: o cuidado da melhor forma possível; o usufruir da vida; o direito ao ócio; a utilização do tempo de uma forma considerada útil para cada um; a importância em parar diante da barreira para refletir a fim de lidar com ela da melhor forma possível; a disponibilidade para a mudança; a realização pessoal; o convívio pela vida interior ativa; apostar em mais de um pilar da política e a profundidade histórica que advém com o passar dos anos.

* Ana Célia Soares Gomes, Cibele Sales da Silva, Izadora Di Natale Nobre e Nélio Fernandes – Mestrandas em Gerontologia Social PUC/SP.

 

 

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