Velhice: um “mal necessário”?

Adaline Bowman nasceu na virada do século XX. Ela tinha uma vida normal até sofrer um grave acidente de carro. Desde então, ela, milagrosamente, não consegue mais envelhecer, se tornando um ser imortal com a aparência de 29 anos. Ela vive uma existência solitária, nunca se permitindo criar laços com ninguém, para não ter seu segredo revelado […]. 

 

O filme “A Incrível História de Adaline” apresenta uma visão sobre o envelhecimento bastante diferente do que vemos todos os dias nas mídias.  Hoje, as pessoas tendem a negar o envelhecimento, como se o processo fosse sinônimo de prejuízo. Na corrente desse “estranhamento”, chega a indústria da estética e do padrão de beleza com produtos que reduzem ao máximo os efeitos do passar dos anos.  Aqui, ao refletir sobre a história da protagonista, Adaline, é possível observar as desvantagens dessa juventude eterna tão cobiçada por muitas pessoas.

Sant’anna (2006, p. 105) reforça essa questão quando afirma que “A partir da época contemporânea, os tratamentos e produtos destinados a amenizar a distância entre velhos e jovens tornaram-se cada vez mais eficazes e diversos. Juntamente com o desenvolvimento da medicina especializada no rejuvenescimento e no embelezamento das aparências, inúmeras transformações sociais e econômicas promoveram novos significados ao avanço da idade”.

Atualmente, envelhecer é percebido como algo negativo. Diante disso, as pessoas fazem tudo que podem para “ocultar” supostas fraquezas e respectivas marcas deixadas pelo tempo. Para isso, usam roupas, adereços, produtos de beleza, cirurgias plásticas e todos os meios para negar o avanço da idade. A atenção da indústria da estética está voltada a essa parcela da população que é diariamente estimulada pelas mídias a esconder os sinais de envelhecimento.

O filme nos obriga a pensar sobre duas questões fundamentais: os prejuízos da juventude eterna e o envelhecimento como um ciclo natural da vida. Adaline Bowman nasceu em 1908, mas, após um acidente, curiosamente, para de envelhecer, permanecendo com a aparência que tinha aos 29 anos.

Então, o que normalmente seria o desejo da maioria das pessoas, “a juventude eterna”, gera, para Adaline, inúmeros prejuízos: constantemente ela se vê obrigada a trocar de identidade para preservar o seu segredo. Com o tempo, o suposto “ganho” na aparência se torna um problema, um crime de falsificação de identidade – tudo para não virar objeto de estudo científico.

Outro problema são os vínculos afetivos. A protagonista sabe que não deve criar laços com ninguém, não se apaixonar. Sem alternativa, a mudança de cidade se torna sua única saída.

Talvez, a questão mais delicada em tudo que Adaline enfrenta, seja a relação com a filha que, claro, é mais idosa na “aparência” do que ela, o que inverte a ordem do ciclo natural da vida. Mais uma vez, a distância se faz necessária. Como consequência, a protagonista se vê impedida de acompanhar o crescimento da filha, condenada a ver todas as pessoas queridas morrerem, fadada a viver solitária, além de, todo tempo, ter que se esconder para não ser considerada uma espécie de “aberração”.

Pela história de Adaline, deixamos para reflexão do leitor a pergunta: seria a velhice um “mal necessário”?

Outro filme sobre a fascinação humana pela passagem do tempo e a inevitabilidade da morte é “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Tanto em Adaline, como em Button conhecemos personagens que mantêm uma relação “conturbada” com a “seta do tempo”, e nos fazem pensar nas vantagens e desvantagens do envelhecer.

Referências

KIMMEL, S.; TAUBER, J.; KRIEGER, L, T. A Incrível História de Adaline. Produção de Sidney Kimmel e Jim Tauber, direção de Lee Toland Krieger. EUA, 2015. 1h53min

MARSHALL, S.; KENNEDY K.; FINCHER, D. O Curioso Caso de Benjamin Button. Produção de Frank Marshall e Kathleen Kennedy, direção de David Fincher. EUA, 2009. 2h35min

SANT’ANNA, D. B; Entre o Corpo e os Incorporais. Velhices – Reflexões Contemporâneas, São Paulo, SESC/PUCSP, p.101-112, 2006.

Escrito por  Mariana Bastos Delgado e Ruth Gelehrter da Costa Lopes. Texto escrito na disciplina eletiva – A concepção de saúde-doença da velhice pelas mídias, ministrada pela professora Ruth Gelehrter da Costa Lopes, no curso de Psicologia Social, 5o período, biênio 2015-2016, na PUC-SP.

Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde e Programa de Gerontologia. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

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