Velhice: superando conceitos

Gerontolescente, portanto, é mais um termo criado para substituir a palavra idoso ou velho, esta por sua vez é associada pela maioria das pessoas a algo negativo, mas todas essas expressões não mudam o principal: o sujeito a que refere.

 

Com a correria do dia a dia, deixo de realizar muitas atividades as quais praticava há alguns anos, porém dedico a primeira hora do meu dia à atividade física. Acordo às 7h00 da manhã e permaneço na academia que frequento por 1 hora. Lá fiz amizade com um casal de velhos muito simpáticos, que vão rigorosamente, todos os dias, exceto às sextas feiras que, segundo eles, são dedicadas para tomar o café da manhã com a filha e o neto. Todos os respeitam muito e percebo que isso não se deve apenas por serem mais velhos, mas também por serem simpáticos e sempre mostrarem gratidão e prazer em viver, por isso são admirados por todos.

Em uma de minhas conversas com a senhora, ela me contou que tenta manter uma vida saudável porque gosta de cuidar não apenas do seu físico, mas também da sua mente. Disse-me, ainda, que tenho sorte por ter nascido em um período no qual temos acesso a tantas informações que nos proporcionam qualidade de vida em âmbito biopsicossocial.

A partir dessas conversas constantes surgiu-me a reflexão acerca de termos que existem para nos referirmos a velhos como esse casal da academia. Talvez você, leitor, estranhe até mesmo quando digo “velhos”, uma vez que para muitos pode soar de forma estranha, com sentido pejorativo e até depreciativo. Meu pai, por exemplo, ao ler um de meus textos questionou justamente esse ponto dizendo: “filha, adorei seu texto, mas não gostei muito do termo “velho”, você poderia usar “idoso”, velho dá a impressão de algo encostado”. E por meio dessa afirmação sincera da parte dele, expliquei-lhe que a questão é justamente essa: vivemos em uma cultura onde criança é criança, adolescente é adolescente, adulto é simplesmente adulto e o velho é “idoso”, “melhor idade”, “terceira idade”, “novo velho”, e tantos outros termos utilizados para se referir aos indivíduos que fazem parte dessa fase da vida.

Dentre todas essas nomenclaturas temos ainda o conceito “Gerontolescência”, termo este criado pelo médico e presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil (ILC), Alexandre Kalache, um dos mais nomeados geriatras do país. Segundo Kalache, esse termo estará nos dicionários daqui a alguns anos assim como temos hoje a definição do termo “adolescência”. Define a expressão como “uma população de 60 anos ou mais que vive mais e melhor, com orgulho da idade e que quer ser produtiva”.

Além dessa definição, o ILC também definiu os gerontolescentes como a geração que lutou contra o racismo, a homofobia e o autoritarismo político, e a favor dos direitos da mulher, do empoderamento dos cidadãos e da liberdade sexual. É uma geração que se sente confortável em se fazer ouvir e está reinventando a forma como se vive e se percebe a velhice. Esse termo não deixa de ser associado ao “Envelhecimento Ativo” e também ao aumento da expectativa de vida, advindo não apenas da área de saúde, tecnologia e políticas públicas, mas também ao perfil dos nossos velhos, que estão cada vez mais em busca de qualidade de vida.

Se levarmos em consideração essas definições, podemos dizer que a maioria de nós conhece algum gerontolescente, eu mesma, além dos meus colegas de academia, tenho duas tias, irmãs do meu falecido avô, e as considero gerontolescentes. Têm mais de 60 anos e são totalmente produtivas, preferem ir à missa, à festa de aniversário da sobrinha, à casa de uma amiga ou ao baile do que ir a um médico. Aliás, vão sim ao médico, mas sempre em busca de prevenção e não em busca de doenças. Recebem-me cheias de disposição e não têm preguiça alguma de fazerem um bolo para tomarmos o café da tarde, não possuem falta de vontade e nem trazem a desculpa de que estão velhas demais para aprenderem a utilizar o whatsapp, o facebook e tantas outras redes sociais. Aproveitam a vida a cada segundo que passa, cheias de disposição, energia e sabedoria, esta última, consequência dos longos anos vividos e, simplesmente, ignoram as marcas do tempo e as limitações naturais que a vida lhes trouxe.

Gerontolescente, portanto, é mais um termo criado para substituir a palavra idoso ou velho, esta por sua vez é associada pela maioria das pessoas a algo negativo, mas todas essas expressões não mudam o principal: o sujeito a que refere.
Dessa forma, o casal que citei no início deste texto pode ser chamado como você preferir: idoso, velho, o casal da terceira idade, gerontolescente… mas nada disso muda quem eles são como seres humanos e, o principal: ter uma velhice como a deles está muito além do que ter uma vida cheia de atividades como ter um trabalho, realizar esportes ou viajar. Não é necessário ter aonde ir todos os dias, mas sim ter disposição, energia e criatividade para fazer o seu dia se tornar produtivo. É ter em mente que passar dos 60 anos não é motivo para os filhos cuidarem de você ou voltar a ser tratado como uma criança.

Chegar aos 60 com qualidade de vida vai além de fazer parte de uma geração que se preocupa com o bem estar e vida saudável. Está na capacidade de envelhecer e não deixar de viver como antes. Está na capacidade de ter gratidão e amor pela vida, de simplesmente querer viver e existir. E já dizia Platão: “Devemos aprender durante toda a vida, sem imaginar que a sabedoria vem com a velhice”, e é justamente nisso que o gerontolescente difere dos demais: vive e utiliza intensamente a liberdade e a sabedoria que conquistou ao longo da vida.

Referências

ILC. “Envelhecimento ativo: um marco político em resposta à revolução da longeividade”. 1ª ed. Rio de Janeiro, RJ: Centro Internacional de Longevidade Brasil. 2015.

 

Ana Beatriz Almeida

Ana Beatriz Almeida

Graduada em Terapia Ocupacional pela Universidade Estadual Paulista – UNESP. Participou do grupo de estudos e supervisão durante a graduação em Neurologia. Atualmente é mestranda em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: graduou-se em Terapia Ocupacional pela Universidade Estadual Paulista – UNESP. Participou do grupo de estudos e supervisão durante a graduação em Neurologia. Atualmente é mestranda em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

anabeatrizalmeida escreveu 6 postsVeja todos os posts de anabeatrizalmeida