Velhice sem dentes

A crença de que a perda dentária é algo natural na velhice, associada à tardia fluoretação da água e aos altos custos do tratamento bucal, são algumas causas que explicam a precariedade da saúde dental dos idosos brasileiros. O resultado de uma pesquisa realizada na Unesp mostra que, entre a população com mais de 60 anos, o número médio de dentes cariados, perdidos e obturados varia de 25 a 31 por pessoa.

Andrea Guedes

Coordenador do estudo, o cirurgião-dentista Rafael da Silveira Moreira, da Faculdade de Medicina da Unesp, chegou a esse dado explorando os principais estudos nacionais que quantificaram os problemas bucais dos idosos em diferentes cidades brasileiras. A idéia era ter um conhecimento objetivo baseado na literatura científica.

“A pesquisa consistiu em uma revisão sistemática sobre estudos epidemiológicos de saúde bucal de idosos, bem como o acesso aos serviços de saúde bucal por parte dessa população. O período de análise foi entre os anos de 1986 e 2004. Dessa forma, foi feita uma descrição dos principais problemas bucais e das principais barreiras no acesso aos serviços odontológicos”, explica Rafael. O trabalho contou com a colaboração da cirurgiã-dentista Lucélia Silva Nico (FSP-USP), Profª. Drª. Nilce Emy Tomita (FOB-USP) e Profª. Drª. Tânia Ruiz (FMB-UNESP).

Durante a pesquisa, Rafael observou o número médio do índice CPO-D (que informa a média de dentes cariados, perdidos ou restaurados devido à cárie, por indivíduo), as condições da gengiva, prevalência de edentulismo (porcentagem de pessoas com ausência de todos os dentes) e o uso e a necessidade de próteses. Os resultados foram alarmantes. O número de dentes com problemas devido à cárie varia entre 25 e 31 (índice CPO-D). Em média, esse grupo etário apresenta apenas de 1 a 7 dentes livres de cárie. “Os dados demonstram a severidade da cárie e suas conseqüências entre os idosos”, ressalta o cirurgião- dentista.

Rafael identificou ainda grande necessidade de uso de prótese total, devido ao edentulismo, e problemas na gengiva. Com relação ao acesso aos serviços odontológicos, na maioria dos artigos foram identificados que a baixa renda e escolaridade, associadas à escassa oferta de serviços públicos de atenção à saúde bucal dos idosos, se configuram como os principais obstáculos para o acesso a estes serviços.

Para Rafael, a precariedade da saúde bucal dos idosos tem muitos fatores. Um deles é a fluoretação da água, que foi iniciada no Brasil somente em 1950. “Nesta época vários indivíduos que hoje têm mais de 60 anos já estavam com seus dentes comprometidos pela cárie”, completa o pesquisador. Outro aspecto importante é a histórica escassez de atenção odontológica para essa faixa-etária. “A assistência odontológica era privilégio de quem podia pagar caro,e em muitos casos era praticada por falsos dentistas. Além disso, havia todo um imaginário sobre a perda dentária como algo natural da velhice, o que sabemos que não é verdade”, aponta.

Diante desse cenário, o próprio indivíduo não percebia a importância da saúde bucal em sua qualidade de vida. Logo, sem uma demanda espontânea para os serviços odontológicos, o próprio Estado se sentia desobrigado de oferecer este tipo de serviço a esta população.

Segundo Rafael, a universalidade do acesso aos serviços de saúde bucal ainda parece uma realidade longínqua. O acesso à atenção odontológica necessita ser ampliado para grupos populacionais que têm como porta de entrada apenas os planos de saúde ou consultórios particulares, opções economicamente determinadas e socialmente excludentes.
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Fonte: Maisde50 – 19/09/2006. Acesse Aqui

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