Velhice: entre destino e história

Tanto no passado quanto no presente, prevalece uma ambivalência típica de quem pensa sobre a vida dos velhos e de quem busca compreender a velhice: essa fase da vida, que pode ser longa ou curta, assemelha-se a uma multiplicidade de perdas das capacidades outrora firmes e fortes, mas também é nela que se espera encontrar uma serenidade e um entendimento do mundo, difíceis de serem reconhecidos durante a juventude. 

Denise Bernuzzi de Sant’Anna*

 

Velhice é uma palavra pouco utilizada pelos meios de comunicação de massa da atualidade. Em seu lugar, usa-se com maior assiduidade a expressão “terceira idade”, ou o otimista atributo de “melhor idade”. Da mesma maneira, em vez de “velho”, prefere-se dizer “idoso”.

Tais mudanças no vocabulário não resultam simplesmente de modismos ou de uma evolução limitada à linguagem. Elas exprimem transformações sociais bastante amplas, ocorridas ao longo das últimas décadas e que influíram diretamente nas maneiras de conceber e de lidar com os velhos ou idosos. Assim, por exemplo, antes de meados do século XX, quando “velhice” era um termo relativamente comum em revistas e jornais brasileiros, dizia-se que vários problemas da velhice podiam ser amenizados com o uso de xaropes, licores, entre diferentes medicamentos destinados à recuperação das forças físicas.

Era comum chamar alguém com 30 anos de “pessoa madura”, tanto quanto era usual designar aqueles que haviam passado dos 40 de “gente velha”.

As cirurgias estéticas eram raras e as mulheres que recorriam a tais procedimentos tendiam a ser consideradas excessivamente vaidosas e moralmente suspeitas. A menopausa feminina era considerada o fim da vida sexual das mulheres. A expectativa de vida estava longe de ser a mesma vigente em nossos dias, assim como eram diferentes as possibilidades científicas e tecnológicas para melhorar a saúde e obter alguma jovialidade.

A partir de 1950, a sociedade brasileira tornou-se mais urbana que rural, ao passo que, nas grandes cidades, a família nuclear iniciou uma rotina dependente de automóveis e eletrodomésticos, além de roupas, remédios e alimentos industrializados. Progressivamente, um crescente mercado voltado a produtos para a saúde e o rejuvenescimento ganhou força mundial e sua publicidade não cessou de difundir a ideia de que era possível melhorar sempre um pouco mais o desempenho físico de todos os jovens e idosos.

Em 1945, conforme a Organização Mundial da Saúde definiu, saúde devia ser entendida também como sendo sinônimo de bem-estar. E este deveria fazer parte de todas as idades da vida.

Mas, desde os anos de 1980, quando a expectativa de vida dos brasileiros estava em torno dos 62 anos, o termo “velhice” deixou de ser comum na mídia. Foi quando, em vários países, surgiram campanhas em prol do aumento da consciência dos direitos dos idosos, da necessidade de reconhecê-los e cuidar de seus problemas, atendendo as suas carências.

Em 2003, depois de alguns anos de tramitação no Congresso Nacional, o Estatuto do Idoso, referente às pessoas acima de 60 anos, foi finalmente aprovado no Brasil. Desde então, as atividades de lazer, turismo e cultura para a terceira idade ganharam uma visibilidade inédita no país, contribuindo para mudar antigos significados do envelhecimento e da velhice.

Contudo, nada mais arriscado que concluir que após essa história repleta de avanços sociais, rapidamente mencionada acima, teríamos alcançado, enfim, uma tranquila aceitabilidade da velhice, seja ela própria ou alheia. Tanto no passado quanto no presente, prevalece uma ambivalência típica de quem pensa sobre a vida dos velhos e de quem busca compreender a velhice: essa fase da vida, que pode ser longa ou curta, assemelha-se a uma multiplicidade de perdas das capacidades outrora firmes e fortes, mas também é nela que se espera encontrar uma serenidade e um entendimento do mundo, difíceis de serem reconhecidos durante a juventude.

Leia a matéria na íntegra em: https://www.sescsp.org.br/files/artigo/459587d4-a3ce-4d2b-ab62-4f005dff841d.pdf

*Denise Bernuzzi de Sant’Anna é professora livre-docente de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: dbsat@uol.com.br

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