Velhas amizades não morrem

Nesses últimos dias aprendi, sentindo na pele e no coração, que a morte não é coisa dos velhos. A morte é coisa dos vivos. Fazia dois anos que minha amiga brigava bravamente contra um câncer já com metástase e sua vida passou a ser regida por dores físicas que contorciam seu corpo que definhava com a doença.

 

Ao fechar a porta, chorava copiosamente. Desta vez o adeus se consumava e o que era anunciado se fez verdade. Isso não faz sentido! A vida segue como um rio cujas margens sinuosas nos provam que o viver é irregular. Há quem pense controlar o curso das águas numa tolice atroz quando a vida faz questão de desmanchar, ao longo dos anos, toda e qualquer ilusão de um fluxo que seja harmônico. Ultimamente a vida resolveu ser dura ao levar embora a minha amiga da vida por um fio. Nesses últimos dias aprendi, sentindo na pele e no coração que a morte não é coisa dos velhos. A morte é coisa dos vivos. Ao receber o telefonema do seu único filho, logo imaginei que algo havia acontecido. Fazia dois anos que ela brigava bravamente contra um câncer já com metástase e sua vida passou a ser regida por dores físicas que contorciam seu corpo que definhava com a doença.

Injustas essas existências desprovidas de vida. Pra que isso? Eu me perguntava incansavelmente toda vez que a via, mas ao vê-la desta vez, foi como um soco no estômago. Por telefone fui informada que o momento da despedida havia chegado quando o médico avisou a família que a morte seria questão de horas. Não pensei duas vezes quando saí correndo de casa para vê-la, sentindo meu coração quase sair pela boca.

A família teve o bom senso de optar por trazê-la ao quarto, livrando-a dos tubos e da solidão da UTI que seria absolutamente fora de propósito.

Minha amiga gostava de gente a sua volta para rir ou para chorar. Ela sentia um enorme prazer em compartilhar a vida, aliás, diga-se de passagem, a vida por ela compartilhada assemelhava-se a um dramalhão mexicano daqueles bem absurdos. Com ela aprendi que viver pode ser dolorido e muito cruel. Tive que guardar minhas ilusões em algum canto escondido daquilo que sou e não sei mais se poderei resgatá-las um dia. Sofri demais ao ver sua vida ir se desmanchando aos poucos, enquanto ela via suas mágoas se transformarem em doença incurável.

Naquele dia, ao me despedir, vivi a cena mais triste de toda minha vida. Não foi fácil vê-la indo embora, inconsciente num respirar barulhento e angustiado, apesar do médico ter jurado que ela não sentia mais as dores físicas. Foi um momento, creio, onde sua alma gemia a dor de ter que deixar a vida e o único filho para enfim partir. Triste demais, e ainda não consigo tirar a cena da cabeça e coração.

Sou uma pessoa de muitos amigos, verdadeiramente queridos e quem me conhece sabe a importância que dou a cada atitude e conselho vindo deles. Com essa minha amiga dividi um viver repleto de conversas gostosas que aconteciam na porta da escola dos filhos pequenos, nas caminhadas pelo parque e nos momentos de um café forte e gostoso que só ela sabia fazer. Era a minha amiga do cafezinho e foi com ela que eu verbalizava a necessidade que tinha de buscar algo que, até então, desconhecia.

Um dia, juntas resolvemos fazer o curso introdutório de Arteterapia para tentar conhecer o campo de atuação desta, ainda nova, área. Foi neste instante que percebi que ali estaria um trajeto possível de ser trilhado e hoje, em meio à dor da sua ausência, percebo que foi ela quem, com firmeza, me acompanhou até a porta do caminho e como uma boa amiga que era, agiu como uma mãe que acompanha seu filho pequeno até a porta da escola e na hora de entrar, apenas com o olhar, consegue dizer: Vai.

E foi assim que segui em frente, desbravando um novo percurso que já se anunciava como algo potente em minha vida.

Nos cafés seguintes, ela demonstrava uma amizade capaz de me acompanhar, inclusive nos percursos que não eram dela.

Éramos diferentes e isso era muito divertido. Acho que nunca tive uma amiga tão autêntica e desbocada como ela. Sonhávamos envelhecer juntas com as conversas tomando sempre novos rumos.

Compartilhávamos o cansaço e as descobertas que fazíamos com esse novo papel que nos havia sido dado: Éramos mães e quando nos conhecemos, fazia poucos anos que exercíamos esse árduo e prazeroso trabalho.

Ao longo da nossa amizade, nossos temas de conversa iam se modificando conforme nossos filhos cresciam e quando chegou o momento de voltar a pensar na minha vida profissional, ela foi fundamental ao me ajudar a recuperar a confiança em mim mesma. Ser mãe de três filhos pequenos exigiu uma renúncia gostosa da vida que era só minha. Ela me entendia e com seu apoio fui, aos poucos, me recompondo como profissional. Pensávamos um dia, poder conversar sobre as alegrias e dificuldades de envelhecer. Teríamos netos? Conseguiríamos viver a velhice com bom humor e sabedoria? Como perceberíamos a certeza de que somos finitos? A cafeína iria nos fazer mal? Daria azia? Conseguiríamos levantar os pés a uma altura suficiente para não tropeçar nos galhos caídos ao chão do parque? Pintaríamos os cabelos para esconder os fios grisalhos?

Outro dia, conversando sobre amizade em um Centro Dia onde trabalho, uma senhora, em uma gostosa conversa de comadres, me contou da amiga de uma vida que ela teve.

Até que em um dia qualquer da sua velhice, ela viveu a morte daquela companheira de amizade. Senti na sua voz a saudade se expressar. Já aquele outro senhor, incapaz de sorrir, segue os caminhos de uma velhice amarga e solitária onde os profissionais do Centro Dia trabalham a seu favor para reconstituir as relações que ele, ao longo da vida, não soube cultivar. Creio que entre todos os objetivos do trabalho do Centro Dia público esse suporte à rede de convívio seja o principal.

Portanto, se pudesse dar um único conselho diria: Invista nas amizades, afinal a vida só faz sentido quando compartilhada. E não digo isso como tentativa utópica de unir as pessoas. O ser humano é um ser social e esta é a nossa condição. Desejamos viver em grupo e compartilhar nossa existência. Sem essas relações não é possível nos estruturarmos integralmente como sujeitos sociais que somos.

Sair para um bate-papo e contar com os conselhos amorosos de quem nos quer bem traz benefícios indescritíveis. Amigos, quem os tem, tem tudo, mas, por favor, não se contente apenas com as amizades virtuais já que, até onde sei, não há aplicativo que simule o aconchego de um abraço. Compartilhem a vida fora das redes sociais. Os ganhos serão enormes.

Na arte encontramos diversas histórias de amizade. O pintor do romantismo francês, Delacroix (1798-1863) teve o compositor Chopin (1810-1849) como um grande amigo. Delacroix admirava tanto o músico que chegou a colocar um piano em seu atelier apenas para ouvi-lo tocar a cada visita que Chopin fazia ao pintor.

A amizade entre os dois nasceu através de Aurore Dupin, escritora do movimento romântico que conquistou os leitores da primeira metade do século 19 com suas obras literárias. Usava o pseudônimo de George Sand, fumava charutos, usava roupas masculinas e escandalizava com suas ideias feministas e com seus casos amorosos, entre eles, a relação com Chopin. O retrato de Frédéric Chopin e George Sand, pintura inacabada de Delacroix feita em 1838 mostra Fréderic Chopin tocando piano enquanto a escritora George Sand o escuta e fuma charuto. Logo após a morte de Delacroix, o retrato foi partido ao meio numa tentativa de ser valorizado ao tornar-se dois.

Chopin debilitou-se com a tuberculose e ao morrer dilacerou o coração do amigo pintor que foi partido ao meio em uma alusão ao que aconteceria mais tarde com sua obra.

Esta semana tive meu coração dilacerado, assim como a senhora do Centro Dia e tantos velhos e velhas que assistem seus amigos partirem.

Minha amiga não pode esperar envelhecer. Não poderemos juntas e com as mãos trêmulas, segurar nossa xicrinha de café num bate papo gostoso sobre nossas velhices.

Delacroix ficou deprimido com a perda do amigo que enchia sua vida de música. Estou triste e com uma enorme vontade de desistir de tudo.

Minha amiga se foi e deixou em mim uma falta que jamais irá ser preenchida. Faz uma semana que não tenho vontade de continuar. A vida me assusta, afinal até ontem mesmo, andávamos no parque.

Fecho os olhos e choro ao ver a imagem da sua despedida. Sinto-me estarrecida. Petrificada.

As lágrimas que rolam em minha face embaçam a visão que tenho da vida. Tropeço nas desilusões desenhadas por este instante.

Penso em Delacroix, em Chopin, na senhora do Centro Dia, no senhor que não tem amigos e no tanto de amigos que ainda tenho.

A vida é um rio que segue irregular e cujas águas ultrapassam barreiras. Terei que ultrapassá-las. As águas pedem.

Volto da missa onde oramos o teu nome. Nossa história de amizade passava em minha cabeça como um filme.

Chego em casa e no celular escolho uma música. Deixo Chopin me guiar com sua melodia dos céus. Sua música parece uma oração à vida e a você. Ao fundo o piano, no coração nossa grande amizade permanece.

Sigo em frente e pretendo ficar velha. Com ou sem azia, tomarei cafés pensando na nossa amizade.

Vá em paz que olharei por teu filho e estarei presente como uma representante sua.

No mais, obrigada por compartilhar a vida comigo.

Sentirei tua falta, mas a vida segue como um rio em busca do mar.

Chopin permanece vivo e seu piano serve como fundo musical para sua voz que continua ecoando em mim. Em meio às notas musicais, claramente posso ouvi-la dizer: Vai.

Enxugo as lágrimas, sigo em frente.

A vida segue como um rio.

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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