Velharias e afins

“A vida espremida numa mala de mão. Deixaram para trás a longa teia de delicadezas, as décadas todas de embate entre anseio e possibilidade. A família, os móveis, a vizinhança, as ranhuras das paredes, um copo na pia, o desenho do corpo no colchão. Reduzidos a um único tempo verbal, o pretérito, com suspeito presente e um futuro que ninguém quer”, Eliane Brum.

 

Por Elisa Diaz. Texto e fotos *

Envelhecer não é um estado, mas sim um processo.

Acontece a todos os seres vivos, independente de vontade. É algo progressivo, diferente para cada um. O organismo vai se apagando aos poucos, impossível datar exatamente quando começa, em que velocidade e qual seu nível de gravidade.

Em política, o indivíduo conserva durante toda sua vida os mesmos direitos. O código civil não faz qualquer distinção entre um centenário e um quadragenário. Os velhos não são considerados uma categoria a parte e, nem gostariam.

A jornalista Eliane Brum, sobre sua matéria “A casa de velhos”, diz que perambulou por vários asilos em São Paulo e em uma frase que denota uma imagem simples e exata, resume as quase dez mil palavras que usou em seu texto: “A vida espremida numa mala de mão. Deixaram para trás a longa teia de delicadezas, as décadas todas de embate entre anseio e possibilidade. A família, os móveis, a vizinhança, as ranhuras das paredes, um copo na pia, o desenho do corpo no colchão. Reduzidos a um único tempo verbal, o pretérito, com suspeito presente e um futuro que ninguém quer”.

Todo ser humano tem fases e isso não se trata de humor, de dinheiro ou de amor. Todos passam pela fase de crescimento, desenvolvimento, reprodução e senescência, caracterizada pelo declínio.

Recusamo-nos a nos reconhecer no velho que seremos: De todas as realidades, (a velhice) é, talvez, aquela de que conservamos por mais tempo ao longo da vida, uma noção puramente abstrata”. Proust

Todos os homens são mortais e eles pensam nisso…um grande número deles fica velho, mas quase nenhum encara com antecedência este avatar. Nada deveria ser mais esperado e, no entanto, nada é mais imprevisto que a velhice.

Mesmo sem planejamentos, o mundo torna-se um lugar envelhecido. O peso dos velhos nas estruturas populacionais cresce exponencialmente, considerando-se o aumento da expectativa de vida e, isso exige políticas sociais que façam frente a essa realidade, da mesma forma em que se exige a reformulação da saúde, as reformas na economia e serviços especializados, sem mencionar a necessidade de também se considerar a exclusão social, pobreza e solidão dos velhos.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a dita terceira idade inicia-se entre 60 e 65 anos – idade definida para fins jurídicos e de pesquisa – considerando-se que o processo de envelhecimento leva em conta os fatores biológicos, psíquicos e sociais, os quais podem acelerar ou retardar o aparecimento e instalação de doenças e demais sintomas da velhice.

Vale lembrar que o ponto de vista fisiológico depende do estilo de vida que a pessoa levou na infância ou adolescência. O organismo envelhece como um todo, enquanto seus órgãos, tecidos, células e estruturas sub-celulares tem envelhecimentos diferenciados.

Na tentativa de explicar o processo de envelhecimento muitas teorias biológicas foram pensadas, como por exemplo, a Teoria que explica o envelhecimento baseado em fatores genéticos, cuja crença professa que as células do organismo se encontram programadas para morrer após determinado número de divisões celulares e uma vez atingida a meta, o processo de morte seria desencadeado, variando o momento final de pessoa para pessoa, ou, a Teoria dos radicais livres, cuja proposta é a de que as células envelhecem em consequência de danos acumulados face às reações químicas que ocorrem no interior das células, produzindo toxinas que as danificam, destruindo enzimas cujo mal funcionamento leva à morte. Esta Teoria aponta inúmeras evidências científicas de que os radicais livres estão envolvidos em praticamente todas as doenças da idade, como doenças coronárias, arteriosclerose, catarata, hipertensão, doenças neurodegenerativas, dentre outras.

Há também estudos relativos ao desempenho intelectual que demonstram que a cognição atinge seu pico aos 30 anos, continuam estáveis até os 50, 60 anos e, a partir de então, começam a diminuir, culminando com o declínio por volta dos 70 anos.

Evidências apontam que as alterações cognitivas surgidas com o avançar da idade relacionam-se ao declínio de três recursos primordiais: a velocidade em que a informação pode ser processada, a memória de trabalho e as capacidades sensorial e perceptual. Há também decréscimos da acuidade visual e auditiva. Somadas as alterações, nota-se que os recursos de processamento se tornam lentos e limitados.

Isto posto e considerado, percebe-se o quanto o envelhecimento é inevitável e o quão ideal e necessário seria torná-lo um processo positivo, uma vida longeva acompanhada de oportunidades na saúde, na vida social, na segurança e no afeto.

Segundo a OMS (2002), à medida que um indivíduo envelhece, a sua qualidade de vida é fortemente influenciada pela sua habilidade de manter a autonomia e a independência. O conceito de qualidade de vida, incorpora de forma complexa a saúde física do indivíduo, seu estado psicológico, seu nível de dependência, suas relações sociais, suas crenças e a relação com o contexto onde se encontra inserido.

O conceito de envelhecimento ativo está em sua maioria centrado no exercício físico, relacionado ao incentivo de atividade física e qualidade de vida, onde são reconhecidos os efeitos benéficos inseridos no cotidiano da pessoa velha envolvida, não se excluindo os aspectos emocionais e sociais.

Associa-se envelhecimento à experiência, valorização, respeito, aposentadoria e também osteoporose, reumatismo, problemas na coluna e eufemismos como melhor idade, idosos, terceira idade. Representações estas construídas socialmente. Os aspectos subjetivos ficam por conta do imaginário capaz de mobilizar ou não, práticas sócio afetivas como diversão, conforto, prazer.

O bem viver depende não só de fatores internos como também externos e o êxito se configura à medida em que há adaptação às mudanças que se sucedem.

O envelhecimento é realmente afetado pelas perdas e carências inerentes, porém o afeto depende do significado atribuído, muitas vezes relacionado a si mesmo e de seu valor junto aos outros.

A velhice, marcada por acontecimentos repetitivos é o que acaba por dar concretude à vida esvaziada de si mesma, absurda no mundo.

Concluo minha reflexão com Simone de Beauvoir, dizendo: “Paremos de trapacear; o sentido de nossa vida está em questão no futuro que nos espera; não sabemos quem somos se ignoramos quem seremos: Aquele velho, aquela velha – reconheçamo-nos neles.”

 

* Eu sou uma escriba carioca, adotada por S.Paulo, sempre em busca de palavras & significados, apaixonada por velhos e por suas histórias, memórias, risos e afetos. Vez ou outra fotografo na tentativa de transformar o momento efêmero em registro eterno. Nas horas vagas, rabisco entrelinhas pra colorir a vida alheia e saio em busca de novos personagens para encantar meus textos e preencher espaços, chamar atenção e dar ao velho a visibilidade e respeito que lhe são devidos e raramente pagos. Já ensinei a ler e escrever, aprendi a contar até três e descobri que minha paixão mora mesmo é na palavra escrita. Trabalho de Conclusão do Curso de Extensão – Fragilidade na Velhice. Gerontologia Social e Atendimento, da PUC-SP (COGEAE), primeiro semestre de 2017. E-mail: elisayule.dz@gmail.com

 

 

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