Vai mais um remédio aí?

Não é difícil encontrar nas prescrições para os velhos remédios com dosagens e indicações inadequadas, interações medicamentosas não recomendadas, associações, redundância de medicamentos, e remédios sem valor terapêutico. Tais usos indevidos da medicação podem ter consequências graves, e até fatais.

Catarine Gracia do Amparo*

A chance de passar a usar medicamentos aumenta conforme a idade, principalmente a partir dos 40 anos. Pessoas que colecionam 60 anos ou mais apresentam aumento da frequência das doenças crônico-degenerativas. Os idosos são o grupo etário que mais faz uso de medicamentos na sociedade. Chegam a constituir 50% dos multiusuários e consumir três vezes mais medicamentos do que indivíduos mais jovens. Não é difícil encontrar nas prescrições para os velhos remédios com dosagens e indicações inadequadas, interações medicamentosas não recomendadas, associações, redundância de medicamentos, e remédios sem valor terapêutico. Tais usos indevidos da medicação podem ter consequências graves, e até fatais.

Acontece que os velhos que são medicados ou se medicam de forma inadequada, seja pela quantidade exagerada, dosagem indevida, remédios suspeitos, entre outros aspectos, podem estar sendo vítimas de um sistema impiedoso que tem como fim o lucro: “máfia” da indústria farmacêutica.

Os médicos são abordados por vários representantes de laboratórios farmacêuticos constantemente, alguns desses propagandistas usam técnicas questionáveis a fim de convencer os médicos a comprarem esse ou aquele remédio. Essa abordagem pode envolver a oferta de brindes, amostras grátis, almoços luxuosos e até convite a viagens para congressos com tudo pago.

O código de ética médica considera inaceitável apenas quando essas propostas envolvem dinheiro vivo. O que, aliás, também acontece, entre outras técnicas, os balconistas e farmacêuticos anotam o nome do médico que receitou para “gratificá-lo” depois. Ou então o médico pode faturar até um terço da quantia de remédios que receita ao tratar direto com o representante.

A manipulação das medicações pode ter início desde a pesquisa, é comum laboratórios serem processados por omitir dados importantes, inclusive efeitos colaterais do remédio lançado para favorecer a imagem do produto.

Apesar dos representantes das indústrias terem o direito legítimo de promover seus produtos, é problemática a forma como isso se dá e as consequências dessa prática. No limite, o que está em risco não é dinheiro desperdiçado com algum produto inútil, é a saúde do idoso. O uso indevido de medicações aumenta as possibilidades de intoxicações e reações adversas e doenças iatrogênicas. São necessárias ações que, em conjunto com todos envolvidos no processo, criem estratégias para contribuir com o uso racional de medicamentos, seja através de fiscalizações na indústria farmacêutica ou com medidas educadoras. Não é ético que um tratamento possa ser planejado tendo como medida maior os benefícios do médico, margem de lucro na medicação do que as necessidades específicas do idoso, os efeitos colaterais do remédio e histórico do paciente.

Os idosos, de maneira geral, pouco sabem sobre os remédios que fazem uso. Para ilustrar essa realidade o farmacêutico, Thiago Didone, realizou uma pesquisa na qual entrevistou 80 idosos atendidos no Hospital das Clínicas de São Paulo com o intuito de descobrir o grau de conhecimento dos pacientes sobre informações da medicação e de seu uso, foram abordados aspectos como: dosagem, frequência de ingestão, duração do tratamento, como tomar, qual a função, efeitos, entre outros. Para abarcar todos os aspectos, Thiago aplicou um formulário composto por onze questões.

A conclusão que o farmacêutico chegou foi de que a maior parte dos idosos sabia como tomar o remédio, e qual a sua dose, no entanto mostraram absoluta falta de conhecimento sobre a função dos medicamentos que ingeriam, de que forma eles agiam no corpo, as reações adversas, contraindicações, e suas condições de armazenamento e preservação.

A avaliação dos fármacos para idosos é importante, já que é o grupo mais afetado por esse processo. Investimentos para aprimorar a seleção, prescrição, a dispensação e a utilização de fármacos devem constituir prioridade nos programas de atenção ao idoso. O que resultaria mais eficácia do tratamento, desde o planejamento até sua adesão.

No entanto, uma maior conscientização dos pacientes não seria nada lucrativo para a indústria farmacêutica que investe cerca de 30 a 40% do lucro em ações de marketing, a classe médica é o principal e maior público, pois a maior parte das medicações não podem ser anunciadas diretamente para o consumidor.

Essa indústria está entre as que mais faturam no mundo. O Brasil cobra 34% de impostos em cima das medicações, o que coloca os remédios brasileiros entre os mais caros do mundo. Os idosos sentem muito esse fato, já que constituem a classe etária que mais consome remédio. No grande ABC (SP), por exemplo, realizaram uma pesquisa que apontou gasto de 30% da aposentadoria com remédios e até 40% com plano de saúde. A grande maioria não consegue sustentar todas suas necessidades, então tentam se reinserir no mercado de trabalho ou acabam por depender de familiares ou do SUS. O planejador financeiro, Silvio Paixão, conta que apenas 2% dos 30 milhões de aposentados do Brasil conseguem se manter sem auxilio de parentes, logo, 98% dependem de familiares, amigos ou instituições.

Os remédios são muito importantes na melhora da qualidade e aumento da expectativa da vida dos idosos, porém remédios desnecessários além de não contribuir, podem atrapalhar. A OMS estima que metade do consumo mundial é feito de forma irracional, ou seja, em dose, tempo ou custo maior que o necessário. Além das atividades promocionais irregulares, também temos que considerar a falta de informação e educação sobre o uso correto de medicamentos.

A culpa não é só dos laboratórios, da falta de informação e do sistema no qual o lucro cega, seria injusto colocar dessa forma. Há outros fatores importantes como a intolerância a sentimentos “negativos”, a impaciência – qualquer pequeno indício da iminência da dor ou tristeza é silenciado com remédio – a dificuldade de lidar com a morte entre outros fatores que mantém a hipermedicalização.

Bibliografia

ARAUJO, Tarso. Verdades inconvenientes sobre a indústria dos remédios. Super interessante, 2011. Disponível em: http://super.abril.com.br/saude/verdades-inconvenientes-sobre-a-industria-dos-remedios/. Acesso em 31 out 2016.

DIDONE, Thiago Vinicius Nadaleto. Idosos: o que conhecem sobre os medicamentos prescritos que utilizam? Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2015

MOSEGUI, Gabriela BG et al. Avaliação da qualidade do uso de medicamentos em idosos. Rev Saúde Pública, v. 33, n. 5, p. 437-44, 1999.

ROCHA, Cristiane Hoffmeister et al. Adesão à prescrição médica em idosos de Porto Alegre, RS. Ciênc Saúde Coletiva, v. 13, n. 1, p. 703-10, 2008.

 

*Catarine Gracia do AmparoEstudante do curso de Psicologia da PUC-SP. Texto escrito para a Eletiva Temática – Direitos Humanos, Longevidade e Políticas Públicas: Desafios para a Psicologia, ministrada pelas professoras Ruth Lopes e Beltrina Côrte, no segundo semestre de 2016. E-mail: ca.gracia@hotmail.com

 

Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde e Programa de Gerontologia. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

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